Gostei muito dos dois filmes que compõem esse filme.
"As boas maneiras" - a primeira parte mostra a desconstrução (quase integral, QUASE) da relação entre empregada e patroa, das regras de comportamento que deveriam reger essa relação
, mas para as quais Ana, a patroa, está demasiadamente carente e é demasiadamente "pat louca" para seguir, e para as quais Clara, a empregada, é por demais orgulhosa e ao mesmo tempo compassiva para obedecer. A cena central para mim, dessa primeira parte, é quando juntas elas retiram os diamantes da botina chique de Ana - é um momento em que a riqueza de Ana, fundamento pelo qual ela é patroa, é mostrada em toda sua fragilidade e ao mesmo tempo compartilhada, ambas planejando juntas como a gastarão.
Lindo!!!
"As boas maneiras" - a segunda parte mostra a desconstrução da rigidez de Clara na criação do filho de ambas, rigidez atrelada a um "quartinho" que remete, na vida real, ao castigo para as crianças que se comportam mal. Acho essa parte inferior à primeira
, pois enquanto lá, a desconstrução das boas maneiras e a reconfiguração de Ana e Clara ocorre aos poucos ao longo de todas as cenas, aqui a reconfiguração da relação para fora das boas maneira de Clara e Joel ocorre de supetão somente nessa última cena, como resolução apressada das tensões que se acumulam - uma cena que acho linda, de plena aceitação de Clara ao aspecto sombrio do filho, mas que, como resolução, é apressada. Também achei a dinâmica entre os atores de Clara e Joel menos convincente do que a dinâmica entre as atrizes de Ana e Clara
. Por outro lado, a construção do suspense é ótima - sabemos em cada parte que vai dar ruim, mas não sabemos exatamente como.
É SURPREENDENTE a subversão das boas maneiras tanto na primeira parte quanto na segunda parte.
Apesar de alguns defeitos, um filme excelente.