Sabe aquela sensação de voltar para a casa dos pais depois de muito tempo e encontrar tudo exatamente no mesmo lugar? É mais ou menos isso que Kung Fu Panda 3 entrega. A gente ri, se emociona um pouco, come uns bolinhos de massa e vai embora de coração quentinho. Mas será que a fórmula mágica da DreamWorks começou a mostrar sinais de cansaço ou o Dragão Guerreiro ainda tem fôlego para nos surpreender? Vamos conversar sobre o que deu certo e o que faltou nesse encerramento de trilogia.
A direção de Nelson e Carloni faz um trabalho inegavelmente competente, mas que joga na retranca o tempo todo. Fica claro que a dupla optou por não correr riscos desnecessários. Se no segundo filme tínhamos enquadramentos ousados e um jogo de sombras que beirava o cinema noir durante os flashbacks de Po, aqui a câmera opera na cartilha básica da animação de aventura. Os planos abertos para apresentar cenários funcionam perfeitamente para localizar o espectador, e as transições são limpas. É uma direção burocrática no melhor sentido da palavra: não atrapalha a história, não confunde quem assiste, mas também passa longe de oferecer qualquer desafio estético ou inovação na forma de contar a jornada.
O roteiro é, sem tirar nem pôr, a clássica jornada do herói empacotada para o consumo rápido. E esse é o ponto mais mediano da obra. O ritmo do filme flui como um trem-bala, saltando do encontro repentino com o pai biológico para a viagem, e logo em seguida para a ameaça iminente. Essa pressa não deixa que os dilemas respirem. O desenvolvimento da narrativa parece seguir uma lista de checagem do estúdio: cena de ação, piada, momento de dúvida, descoberta de um poder oculto, batalha final. Funciona para prender a atenção do público infantil do primeiro ao último minuto, mas deixa os adultos com aquela sensação de "já vi esse filme antes", sentindo falta da profundidade emocional e dos riscos reais que o roteiro do segundo capítulo teve a coragem de assumir.
O humor sempre foi o motor principal de Kung Fu Panda. Ver um urso gordo fazendo acrobacias e falando de comida rende risadas genuínas. O problema de Kung Fu Panda 3 é a incapacidade de desligar a máquina de piadas. Em vários momentos, a história constrói uma tensão genuína ou um pico emocional dramático, apenas para quebrar a atmosfera segundos depois com Po tropeçando em algo ou soltando um comentário deslocado. O protagonista, que a essa altura já salvou a China duas vezes, às vezes é retratado de forma tão ingênua e boba que beira o retrocesso de personagem. É engraçado? Sim, na maioria das vezes. Mas esse excesso de leveza tira boa parte do peso e das consequências da trama.
Se você espera lutas viscerais, focadas no choque físico e nas técnicas clássicas de artes marciais — como a brilhante fuga da prisão de Tai Lung no primeiro filme —, pode se decepcionar um pouco. Aqui, a ação ganha uma escala quase cósmica. O combate corpo a corpo perde espaço para poderes espirituais, feixes de luz, explosões de energia chi e dragões dourados voando pela tela. O resultado é um deslumbre visual absurdo, com sequências grandiosas e superpoderosas. Contudo, essa mudança de tom aproxima as lutas muito mais de animes de fantasia do que dos filmes de Wuxia (fantasia de artes marciais chinesa) que originalmente inspiraram a franquia. É épico, mas perde um pouco daquela textura realista do suor no tatame.
Esse talvez seja o maior tropeço do roteiro. Os Cinco Furiosos — Tigresa, Macaco, Louva-a-Deus, Víbora e Garça — foram peças fundamentais para a construção do universo e da família de Po nos longas anteriores. Aqui, eles são reduzidos a meros figurantes de luxo. A grande maioria do grupo é rapidamente derrotada e transformada em estátuas de jade pelo vilão nas primeiras cenas, servindo apenas como um artifício barato para mostrar ao público "olha como esse Kai é perigoso". Salvo pela Tigresa, que ganha algumas falas a mais atuando como mensageira do caos, o desperdício de personagens com designs e personalidades tão ricas (e com dubladores caríssimos) chega a ser frustrante.
Por outro lado, o que sustenta o interesse do espectador é o arco de Po. Tirar o protagonista da posição confortável de aluno prodígio e jogá-lo na fogueira como professor gera ótimos conflitos internos. A síndrome do impostor bate forte nele. A grande sacada do desenvolvimento principal não é ver Po aprendendo um golpe novo, mas sim sua jornada mental para entender que a verdadeira liderança não significa criar cópias de si mesmo — como ele tentou fazer imitando a rigidez do Mestre Shifu. A percepção de que ele precisa guiar cada indivíduo a descobrir sua própria força é uma evolução belíssima e coerente para o personagem.
O antagonista desta vez tem uma presença intimidadora. Dublado com maestria e equipado com lâminas de jade acorrentadas que rendem sequências de ação espetaculares, Kai chama a atenção visualmente. A música tema dele é excelente. Mas a verdade precisa ser dita: ele é disparado o vilão mais raso da trilogia. Enquanto Tai Lung carregava a tragédia de um filho rejeitado e Lorde Shen era um estrategista cruel movido a pânico e preconceito, Kai é apenas um general esquecido com sede de poder. Sua motivação se resume a um rancor antigo de 500 anos atrás porque Oogway "o traiu". Não há conflito ideológico com Po, não há bagagem psicológica. É só um brutamontes genérico que precisa ser socado.
Onde o roteiro falha, o design de personagens compensa em dobro. A equipe de arte dá uma aula sobre como usar formas geométricas para contar uma história. A Vila dos Pandas é inteiramente baseada em círculos: os personagens são redondos, macios, transmitem acolhimento e preguiça, vestindo tons quentes e tecidos rústicos. Em choque direto com isso, temos Kai e seu exército de zumbis espirituais. Eles são desenhados com arestas afiadas, chifres pontiagudos e um verde-jade gélido e antinatural. Você não precisa ouvir uma linha de diálogo para saber quem é bom e quem é mau; a paleta de cores e as silhuetas entregam toda a intenção da cena no primeiro segundo.
Um roteiro mediano ganha muito respiro quando o elenco de vozes sabe exatamente o que está fazendo. Jack Black não apenas dubla Po; ele basicamente empresta sua alma hiperativa e carismática ao urso. É impossível separar um do outro. A adição de Bryan Cranston como Li Shan (o pai biológico) foi um golaço, trazendo um tom de pai "pateta", mas que carrega uma dor sutil nos olhos. E mesmo lutando contra um texto que não lhe dá camadas, o veterano . Simmons entrega as falas de Kai com uma gravidade e uma voz gutural que comandam o ambiente, provando por que é um dos maiores atores do ramo.
Hans Zimmer retorna para provar que a música de Kung Fu Panda é um dos pilares de seu sucesso. A composição musical do filme é um espetáculo que caminha na corda bamba entre o oriente e o ocidente. Ele mistura instrumentos folclóricos, como o erhu (o violino chinês de duas cordas) e tambores tradicionais, com orquestras de metais ensurdecedoras típicas de blockbusters de ação. O tema de Kai, pesado e marcado por batidas de rock, destoa de propósito de todo o resto do filme para criar desconforto. Quando a trama hesita ou a emoção parece forçada no texto, é a trilha sonora majestosa de Zimmer que pega o espectador pelo braço e o força a se arrepiar.
Do ponto de vista estético, as avaliações rasgando elogios não estão exagerando: o salto visual em relação aos filmes anteriores é brutal. A DreamWorks esbanjou orçamento e tecnologia aqui. As sequências de abertura e os flashbacks, que usam um estilo de animação 2D simulando pinturas clássicas em pergaminhos antigos, são de cair o queixo. Mas a verdadeira estrela é o Reino dos Espíritos. Construído como um oceano cósmico dourado onde pedaços de templos flutuam sem gravidade, o cenário parece uma pintura em aquarela que ganhou movimento. A forma como a luz rebate nas superfícies de jade mostra o auge técnico da iluminação digital da época.
Um tema essencial, e talvez o mais tocante de todo o longa, é a dinâmica familiar construída em torno do Sr. Ping (o ganso dono da loja de macarrão). A trama lida com o ciúme que ele sente ao ver o pai biológico de Po reaparecer. O medo orgânico de Ping de ser substituído ou esquecido gera conflitos incrivelmente reais. A resolução dessa tensão — quando ambos percebem que não estão competindo por espaço, mas sim somando amor na vida do filho — é um tratamento sutil, empático e maduro sobre adoção e famílias não convencionais, entregando o verdadeiro peso emocional que a luta principal não consegue ter.
A construção do mundo (o famoso world-building) apresenta ideias geniais através do cenário. A vila secreta nas montanhas nevadas não é apenas um pano de fundo bonito; ela reflete perfeitamente a cultura de seus habitantes. Como os pandas são pesados e gostam de rolar, a vila foi projetada com rampas de palha, teleféricos movidos a contrapeso e fontes termais conectadas. Tudo parece ter sido desenhado para facilitar uma vida de lazer absoluto. Esse nível de atenção aos detalhes faz com que o ambiente pareça um ecossistema vivo, respirável e totalmente crível dentro da loucura que é o universo do filme.
Um dos desafios do roteiro era explicar o conceito de "Chi" (a força vital da filosofia chinesa) para o público infantil sem que o filme virasse uma aula chata de religião oriental. A saída encontrada é inteligente e simplificada: Kai rouba o Chi dos outros por egoísmo, enquanto Po consegue dominar a energia através da doação e do autoconhecimento. O conceito de que a verdadeira força não vem de sugar o próximo, mas de se conectar com a comunidade e entender quem você realmente é, traduz ideias taoístas complexas em uma mensagem moral acessível e extremamente positiva para as crianças.
Os diretores fizeram um trabalho muito bacana na hora de amarrar esta história com a do primeiro filme, criando uma verdadeira rima visual. No longa original de 2008, o Mestre Shifu só conseguiu treinar Po quando parou de usar os métodos tradicionais e passou a usar a comida como motivação. Aqui, o roteiro faz o caminho inverso de forma brilhante. Po percebe que a única forma de treinar os pandas da vila para a guerra é usando o que eles já fazem no dia a dia: abraçar forte, chutar petecas e comer muito. É um callback narrativo (uma referência ao passado) que fecha o ciclo de aprendizado do personagem com chave de ouro.
Muitos filmes na época usavam o formato 3D apenas como uma ferramenta barata para inflar o preço do ingresso, mas a equipe de arte de Kung Fu Panda 3 realmente justificou a tecnologia. A ação foi pensada para a profundidade espacial. As lâminas de Kai são arremessadas diretamente na direção do eixo Z (em direção aos olhos do público), e os cenários do Reino dos Espíritos, com ilhas flutuantes espalhadas em diferentes camadas da tela, causam uma sensação real de vertigem e imersão. É um dos poucos casos em que assistir ao filme em três dimensões realmente muda a forma como você absorve a coreografia e o cenário.
O saldo final é um filme mediano no roteiro, mas gigantesco no coração e nos visuais. É aquele tipo de obra que não vai revolucionar o gênero ou mudar a sua forma de ver o mundo, mas garante horas de puro entretenimento e conforto. E quer saber? Às vezes isso é tudo que a gente precisa numa sexta-feira à noite. Se você acompanhou a jornada do Po desde o início, o ingresso já está pago pela nostalgia e pelo carinho com os personagens. Faz uma pipoca, acomode-se no sofá e vá assistir para tirar suas próprias conclusões. A experiência visual e as boas risadas, eu garanto, valem o play.