É engraçado como sequências de filmes de animação geralmente caem na armadilha de apenas repetir a mesma fórmula do original para vender brinquedos, não é? Pois "Kung Fu Panda 2" faz exatamente o oposto. Quando sentei para assistir, esperava apenas dar umas boas risadas com um urso desajeitado tropeçando nos próprios pés. O que eu não previa era levar um soco no estômago com uma história densa sobre trauma, adoção e aceitação. Se você acha que filme de bicho falante não tem nada a dizer aos adultos, prepare-se para mudar de ideia.
A direção aqui é um espetáculo de controle e maturidade. Em filmes voltados para o público infantil, é comum que os diretores entrem em pânico e encham a tela de barulho o tempo todo. Yuh Nelson não cai nessa armadilha. Ela sabe exatamente a hora de acelerar nas sequências frenéticas de perseguição e, principalmente, a hora de puxar o freio de mão. O silêncio é usado como uma ferramenta narrativa poderosíssima. A forma como ela posiciona a câmera, muitas vezes de baixo para cima para evidenciar a ameaça mecânica de Shen, revela uma diretora que pensa como alguém do live-action operando no mundo digital.
Apesar do ritmo eletrizante que simplesmente não te deixa pegar o celular, bateu aquela amarga constatação de que o peso puramente literário do roteiro é raso. Sabe quando a história parece voar como uma bala? Isso cobra um preço. Fica a forte impressão de que a trama, em vários momentos, funciona apenas como uma desculpa esfarrapada para costurar as sequências épicas de pancadaria. Falta aquele subtexto nas falas. Os diálogos resolvem conflitos rápido demais, deixando a sensação de que os roteiristas estavam com pressa de chegar na próxima cena de ação.
Mas se o texto peca na profundidade escrita, o humor visual compensa com juros. As piadas pastelão e as expressões faciais absurdas do Po funcionam como uma válvula de escape perfeita quando a atmosfera começa a ficar densa ou sombria demais. E o mais legal é que eles brincam com a física dos animais de forma inteligente. Não há necessidade de apelar para referências de cultura pop descartáveis; o riso vem da própria dinâmica desajeitada de um urso gigante tentando ser furtivo no meio de ninjas e lobos.
As lutas deste filme deveriam ser estudadas. A coreografia é de um absurdo estético sem tamanho. Mesmo com dezenas de inimigos na tela ao mesmo tempo, você nunca se perde ou fica confuso com o que está acontecendo. A fluidez dos movimentos respeita os estilos reais de kung fu, e a genialidade está no uso do ambiente. A cena da perseguição de riquixás pela cidade ou a forma como Po usa músicos de rua como escudo demonstram uma criatividade espacial que humilha muito blockbuster de ação estrelado por atores de carne e osso.
Fui pego de surpresa pela carga psicológica colocada nos ombros do Po. O primeiro filme era sobre provar seu valor; este é sobre curar feridas que ele nem sabia que sangravam. Todo o arco de busca pela "paz interior" após descobrir sua adoção traumática traz uma vulnerabilidade rara para protagonistas de ação. Vê-lo perder o foco e fracassar miseravelmente por causa de memórias reprimidas faz com que a gente crie uma empatia gigantesca. O crescimento dele até o clímax do filme, entendendo que cicatrizes o tornam quem ele é, é de arrancar lágrimas.
E aqui vai um grave defeito que esfriou um pouco a minha empolgação. O filme praticamente esquece que os Cinco Furiosos têm personalidade. Senti um lamentável rebaixamento na importância deles. Exceto pela Tigresa, que ganha algumas breves interações emocionais com o Po, o Macaco, a Víbora, o Louva-a-Deus e o Garça foram reduzidos a meros capangas de luxo. Na prática, eles aparecem, executam um ataque combinado visualmente maneiro e somem, apenas limpando o terreno para o panda brilhar. É um baita desperdício de um elenco tão carismático.
Que espetáculo de antagonista. Lord Shen rouba cada frame em que aparece. Diferente do monstro de músculos que foi Tai Lung, o perigo de Shen vem da sua agilidade e inteligência sombria. Ele é a negação em forma de pavão. Ironicamente, o pavor de ser derrotado por um guerreiro preto e branco é o que faz com que ele próprio construa seu pesadelo. É um vilão muito mais sádico, que não exita em matar ou destruir quem se opõe, trazendo uma frieza que beira a psicopatia.
A direção de arte merece todos os prêmios que disputou. O design de Shen, com sua paleta albina repleta de vermelho que imita sangue, contrasta violentamente com o universo colorido do filme. O detalhe de suas penas que se abrem como um leque de lâminas é assustador. Ao mesmo tempo, notei como as roupas de Po e dos outros heróis apresentam desgastes, sujeira e fios soltos. É um cuidado minucioso com texturas que dá peso e realidade para aqueles bonecos digitais, convencendo o nosso cérebro de que eles existem de verdade naquele mundo.
Não assista a esse filme sem conferir o áudio original. Gary Oldman entrega uma de suas melhores performances aqui, optando por um tom de voz sussurrado, quase aristocrático, que é mil vezes mais intimidador do que se ele estivesse gritando a todo momento. Do outro lado, Jack Black continua sendo a alma do Po, transitando entre o fanboy histérico e a dor angustiante de um órfão com uma naturalidade que assusta. É a dublagem elevando um material que, no papel, poderia soar infantil.
Juntar Hans Zimmer e John Powell na mesma partitura é quase covardia. O uso de instrumentos tradicionais chineses, como o erhu melancólico, fundidos com uma percussão orquestral massiva (os tambores taiko), dita totalmente o clima das cenas. A música transita da comédia pastelão para o drama apocalíptico de forma invisível. Em muitos momentos de silêncio do protagonista, é a trilha sonora que nos conta exatamente o que o personagem está sentindo.
Fiquei de queixo caído com os cenários. A imensidão e a riqueza arquitetônica da cidade de Gongmen mostram um salto gráfico enorme. Mas o que brilha mesmo é o uso psicológico da cor. O filme abusa do vermelho vivo e fumaça para representar a corrupção e a destruição industrial de Shen, enquanto reserva o dourado, o branco e a água para os momentos de paz e fluidez do Po. É uma aula de narrativa pelas cores, algo sutil, mas que prende nossa atenção na tela sem a gente nem saber o porquê.
Um dos recursos narrativos mais geniais dessa sequência foi a decisão de animar os flashbacks de trauma do Po usando animação tradicional em 2D. Além de ser uma homenagem belíssima à arte oriental, recortes e teatro de sombras, essa mudança de textura funciona perfeitamente para isolar as memórias. O passado é plano, doloroso e estilizado, enquanto o presente é tridimensional. Essa quebra visual choca na medida certa e cria um contraste estético maravilhoso.
Poucos percebem de cara, mas existe um subtexto filosófico bem forte rolando ali. O embate central não é só bicho contra bicho. É o kung fu (tradição, disciplina, corpo e espírito) enfrentando o canhão de fogo (a industrialização, a automação letal e a destruição em massa). Shen deturpa a pólvora, inventada para fogos de artifício (alegria), transformando-a em arma. O arco de Po provando que o espírito e a paz interior podem domar até mesmo o chumbo derretido é uma mensagem de preservação cultural belíssima.
A gente costuma elogiar a trilha sonora e ignorar o design de som puro, mas aqui é impossível. O trabalho de edição de áudio dita a agressividade da história. Cada tiro dos canhões de Shen tem um baque surdo, grave, que treme os alto-falantes e transmite uma sensação física de perigo esmagador. Em total contrapartida, quando Po encontra seu eixo no clímax, o barulho da guerra se cala e ouvimos perfeitamente o som cristalino e delicado de uma única gota de orvalho caindo. É o design de som manipulando nossas emoções.
Geralmente, filmes de censura livre têm muito medo de lidar com as consequências da violência. "Kung Fu Panda 2" teve a coragem de pesar a mão de verdade. Lidar abertamente com o tema de genocídio de uma espécie inteira e assassinar personagens em cena (como o Mestre Rinoceronte) mostra que as apostas não são de mentirinha. Ameaças reais criam um senso de urgência que faz com que o público, mesmo os adultos mais céticos, tema verdadeiramente pela vida do herói.
Para não dizer que é tudo perfeito, preciso falar das conveniências absurdas da trama. Sabe quando a sorte parece intervir para o roteirista não ter que pensar muito? Sério, a cabra vidente de Shen simplesmente esbarrar no Po no momento exato em que ele precisava de explicações no meio da rua é o tipo de atalho literário que me tira do filme. São peças de um quebra-cabeça que se encaixam fácil demais, mastigando o avanço da história de um jeito um pouco preguiçoso.
No fim das contas, "Kung Fu Panda 2" é uma daquelas raras continuações que superam o original em quase tudo. Apesar de alguns deslizes na forma de usar os personagens secundários e de um roteiro que prefere atalhos fáceis de vez em quando, a força emocional da jornada do Po, a arte deslumbrante e um vilão formidável fazem tudo valer a pena. Deixei a sessão de ótimo humor e com a sensação de ter visto algo grandioso e muito bem pensado. Se você ainda não viu ou tem aquele preconceito bobo achando que é "só desenho", dê o play nesse fim de semana. Você vai se surpreender de verdade com o que um urso animado tem a ensinar sobre como fazer as pazes com o próprio passado.