Casa do Dragão, da HBO, seguiu um caminho diferente na hora de representar o conflito entre os verdes e os pretos.
A terceira temporada de A Casa do Dragão quis terminar em grande estilo e tinha todos os ingredientes para isso: dragões, exércitos em confronto, cidades destruídas e uma batalha que vinha sendo preparada há semanas. Ainda assim, a Batalha de Tumbleton deixa uma sensação estranha, principalmente quando levamos em consideração que este era um dos grandes acontecimentos da temporada.
Não é que falte espetáculo. A produção mais uma vez mostra que sabe construir enormes sequências de guerra. O problema é que falta algo muito mais importante: um motivo para nos importarmos com quem vai vencer. A série coloca seus personagens no centro de um verdadeiro massacre e faz com que seja tão difícil defender qualquer um dos lados que a batalha perde boa parte da tensão emocional que tradicionalmente marcou Game of Thrones e seu universo.
Quantos personagens morreram em A Casa do Dragão? Abertura da série revelou alguns e você não reparouUma batalha sem heróis
A Batalha de Tumbleton compartilha com a Batalha da Garganta, que abriu a terceira temporada, uma enorme ambição técnica e sequências de ação impressionantes. O problema é que, enquanto outras batalhas de Westeros faziam o espectador encontrar pelo menos um personagem ou um lado pelo qual torcer, aqui acontece justamente o contrário. Os dois exércitos protagonizam atos de uma brutalidade difícil de justificar e a série praticamente não oferece um ponto de vista moral a partir do qual possamos acompanhar tudo o que está acontecendo. O resultado é uma batalha impressionante visualmente, mas surpreendentemente fria do ponto de vista emocional.
Essa é uma diferença importante em relação a Game of Thrones. As duas séries apresentam mundos nos quais quase ninguém é completamente bom, mas mesmo nos momentos mais sombrios geralmente havia algum personagem capaz de servir como uma espécie de âncora para o espectador. No livro Fogo & Sangue, porém, George R.R. Martin apresenta a Dança dos Dragões de maneira ainda mais cruel, com dois lados que acabam destruindo um ao outro na disputa pelo poder.
O problema fica evidente quando a batalha começa. Ormund Hightower (James Norton) usa crianças pequenas como escudos humanos nas muralhas de Tumbleton, uma estratégia covarde que o consolida como um dos vilões mais repulsivos desta temporada. Mas, quando Rhaenyra (Emma D'Arcy) alerta Daemon (Matt Smith) de que "o reino está observando", a resposta do personagem também não deixa muito espaço para a compaixão. Seu exército não demonstra piedade, e a violência rapidamente escala para níveis cada vez mais difíceis de justificar.
A partir daí, a batalha mergulha em uma espiral de atrocidades na qual os dois lados perdem qualquer chance de assumir o papel de herói da história. E isso acaba sendo um problema narrativo muito maior do que qualquer dragão ou explosão que apareça na tela. Afinal, se nenhum dos personagens tem algo a perder que realmente nos importe, também não temos muito a ganhar como espectadores.
Além disso, o episódio não aproveita tudo o que vinha sendo construído ao longo da temporada. Ulf, o Branco, passa boa parte da batalha bêbado, e sua decisão de enfrentar os dois lados depois de se sentir desprezado parece mais impulsiva do que realmente significativa. Hugh aparece principalmente para lamentar a morte da esposa, enquanto Daemon e Ormund ficam reduzidos a lutar até que um deles morra e o outro abandone o campo de batalha. E Daeron (Benjamin Evan Ainsworth), um dos personagens que mais prometiam depois de ser apresentado ao longo da temporada como uma peça fundamental, quase não tem espaço para se desenvolver.
A grande dúvida agora é se a quarta e última temporada conseguirá mudar essa impressão. Fogo & Sangue apresenta duas batalhas diferentes em Tumbleton, então ainda existe a possibilidade de que a série tenha guardado parte desse conflito para sua conclusão. Se for esse o caso, House of the Dragon terá uma última oportunidade para mostrar que todo esse caos não serviu apenas como espetáculo e que, por trás de suas grandiosas batalhas, ainda existe uma história capaz de nos fazer sentir algo pelos personagens.