A obra do autor de Quem Ama Cuida foi ao ar em 1989 e, apesar de um grande investimento, viu a audiência despencar mesmo após a adoção de medidas extremas.
Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea, Verdades Secretas e, agora, Quem Ama Cuida... São tantos sucessos no currículo de Walcyr Carrasco que poucos se lembram de seu primeiro trabalho como autor na televisão – que, curiosamente, não foi na Globo, mas no SBT. Apesar de ter uma jornalista famosa em destaque e um grande elenco, a história foi completamente modificada pelo caminho e acabou se tornando um fiasco de audiência.
Em 1989, o SBT tinha a ambição de bater de frente com a Globo no território das telenovelas. Depois de recusar a sinopse de Pantanal, que posteriormente se tonaria um fenômeno na Manchete, a emissora de Osasco decidiu apostar em Cortina de Vidro, escrita pelo jornalista Walcyr Carrasco, que ainda tinha pouca experiência na dramaturgia e havia sido apenas colaborador de Manoel Carlos no seriado Joana, alguns anos antes.
Foi assim que, em outubro daquele ano, estreou, na faixa das 19h40, o projeto que parecia ter tudo para dar certo. A trama foi pioneira no regime de coprodução no Brasil, envolvendo o SBT e a produtora de Carlos Augusto de Oliveira, o Guga, irmão de Boni, ex-chefão da Globo. O acordo previa que a empresa e suas parceiras produziriam a novela de forma independente, enquanto o canal de Silvio Santos ficaria responsável pela exibição e divulgação.
Com a meta de alcançar entre 10 e 15 pontos de audiência, Cortina de Vidro ocupou a lacuna de horário entre dois sucessos da Globo: Top Model, das 19h, e Tieta, das 20h. Para completar a ofensiva, o Dono do Baú encontrou uma brecha no contrato dos atores globais, que os proibia de trabalhar em outras emissoras, mas não dizia nada sobre obras independentes.
Tudo parecia ser uma jogada de mestre para prender o público e pavimentar o caminho para o sucesso. Mas a estratégia não funcionou, e a primeira novela de Walcyr Carrasco foi desastrosa.
O fracasso de Walcyr Carrasco
Ambientada em São Paulo, mais especificamente no edifício empresarial Dacon, onde diversos personagens se cruzavam, Cortina de Vidro acompanhava os conflitos entre empresários e operários e as disputas por poder dentro da família Stuart, além da vida amorosa do rico empresário Frederico Stuart Mill (Herson Capri), herdeiro das Tecelagens Mill.
Na história, Frederico vivia frustrado por ter abandonado o sonho de ser ator na juventude. Tudo muda quando ele conhece a doce atriz e bailarina Branca (Betty Gofman) em um teste de teatro. Decidido a conquistá-la e in gressar na peça, ele finge ser aspirante a ator e pobre para que a moça não se aproxime dele apenas por sua condição financeira.
No entanto, em meio a tudo isso, ele acaba conhecendo Ângela (Sandra Annenberg, em sua última novela antes de virar jornalista), uma operária de sua fábrica têxtil e líder sindical dos trabalhadores. Aos poucos, ele se vê dividido entre as duas mulheres.
Na teoria, tudo parecia bom, mas o investimento para a produção foi muito alto, com uma previsão inicial de 15 mil dólares por capítulo, e a audiência não correspondeu às expectativas. Para piorar, a cobertura do edifício cilíndrico de vidro, onde a narrativa se concentrava, foi vendido no meio do caminho, o que impediu a continuidade das gravações no local.
Assim, sem condições financeiras para novos cenários, Walcyr Carrasco resolveu criar um incêndio no prédio, o que deu início a um novo rumo na história. Apesar da solução drástica, comparada ao famoso terremoto de Janete Clair em Anastácia, a Mulher Sem Destino, os custos diminuíram. Vários personagens foram mortos na tragédia ficcional.
Há 58 anos, autora criou terremoto para matar mais de 100 personagens – e salvar novela da Globo de um fracasso colossal!Mesmo assim, a novela se afundou de vez. O protagonista perdeu a memória após o incidente e Branca morreu, fazendo com que o ricaço acabasse ficando com Ângela. A morte de uma das mocinhas já não havia agradado muito ao público, mas o grande choque veio perto do final da trama, com uma relação incestuosa e forçada entre pai e filha. Isso foi a gota d'água!
Sem deixar saudades nos noveleiros, Cortina de Vidro foi exibida até 5 de maio de 1990, em 168 capítulos, registrando uma média geral de audiência de 5,3 pontos no Ibope.
A volta por cima do autor
Walcyr só voltou a escrever novelas em 1996, quando fez Xica da Silva, na Manchete, sob o pseudônimo de Adamo Angel. Ou seja, na época, ninguém sabia que era ele quem estava por trás da autoria. O folhetim, inclusive, fez com que ele e Silvio Santos tivessem um forte atrito, já que Carrasco era diretor de teledramaturgia do SBT e não havia sido liberado de seu contrato.
Quando a farsa foi descoberta, a novela já estava na metade. Ainda assim, Silvio Santos não demitiu Carrasco, sob uma condição: que ele escrevesse outra novela para o canal. Assim, em 1998, o novelista colocou no ar outro sucesso: Fascinação.
Anos depois, como sabemos, Walcyr Carrasco foi para a Globo e logo emplacou seu primeiro fenômeno na emissora carioca: O Cravo e a Rosa. Depois disso, foi só história, consolidando-se como um dos autores mais renomados e produtivos da televisão brasileira.