Pouca gente percebeu, mas a cena de Arminda em Três Graças se inspira em um dos finais mais marcantes da história do cinema
Guilherme Rocha
-Subeditor
Fã incondicional de reality shows que poucos admitem assistir, novelas clássicas com vilãs que amamos odiar, além de séries que são o auge do entretenimento despreocupado.

O autor da trama, Aguinaldo Silva, já havia feito a mesma homenagem em outra de suas novelas: Duas Caras, com a vilã de Alinne Moraes

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Três Graças se despediu nesta sexta-feira (15) como uma das tramas mais elogiadas da história recente da TV Globo, e já deixa saudades entre os fãs. O último capítulo entregou de tudo: tensão, justiça, heroísmo, bebês a caminho e finais felizes. Mas quem realmente brilhou na cena final foi Arminda, personagem lindamente interpretada por Grazi Massafera.

Inesperadamente, a vilã reaparece na mansão fingindo uma grave condição mental, se lança da escada, fica torta e quebra a quarta parede ao falar diretamente com o público: “Era isso que vocês queriam, não era?”. Em seguida, já bem plena, a personagem encara a câmera e dispara: “Pronta para o close, Luiz Henrique Rios”.

Para quem não sabe, Luiz Henrique Rios é o diretor artístico de Três Graças. O recurso, porém, não foi inédito: Aguinaldo Silva já havia feito algo semelhante em Duas Caras (2007), quando a vilã Sílvia (Alinne Moraes) desce a escada de camisa de força e diz: “Estou pronta para o meu close, Mr. Maya”, em menção ao diretor da novela Wolf Maya.

Mas, como Aguinaldo ama dialogar com referências do cinema, as duas cenas remontam à célebre sequência final do filme Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950).

No desfecho, uma das maiores vilãs do cinema clássico, Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson, desce a escadaria de sua mansão em transe maníaco e se depara com o cineasta Cecil B. DeMille. Então vem a frase que entrou para a história: “Mr. DeMille, I'm ready for my close-up” (“Mr. DeMille, estou pronta para o meu close”).

A seguir, compare as cenas das vilãs nas três produções:

Cena de Arminda (Três Graças)

Cena de Silvia (Duas Caras)

Cena de Norma (Crepúsculo dos Deuses)

Em Crepúsculo dos Deuses, não se trata de uma fala qualquer, solta no meio da cena: é o ponto de chegada de toda a construção dramática do clássico filme.

A ruína da personagem Norma acontece em dois níveis, no corpo e na mente, e expõe o colapso definitivo de uma mulher cuja fragilidade psicológica já não consegue sustentar a própria fantasia. Ao mesmo tempo, a cena também aponta para a crueldade de uma indústria que celebra o que é novo e abandona, sem hesitar, aquilo que considera obsoleto.

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