Semanas após a estreia de Resident Evil de Zach Cregger, avaliamos os primeiros longas da franquia que levou os jogos da Capcom para as telonas.
Depois de 24 anos de adaptações questionáveis no cinema live-action, Resident Evil finalmente ganhou um filme respeitável em uma extensa galeria de tentativas. Sob o comando da Sony Pictures e os direitos mais valiosos de todo o catálogo da Constantin Films, que provavelmente nunca abandonará os direitos da franquia, Zach Cregger apresentou sua visão dos jogos de survival horror ao mundo.
Ainda que não seja um filme unânime em aclamação ou nada imune a críticas, é para mim e para muitos dos meus colegas (jornalistas ou fãs), a melhor versão cinematográfica deste universo. Para não ser injusto e em meio ao hype dessa releitura estrelada pelo ótimo Austin Abrams, resolvi rever todos os filmes anteriores para responder uma questão: eles realmente são tão ruins?
Qual foi o maior impacto dos filmes de Resident Evil na indústria cinematográfica?
Para esclarecer isso, vamos ao plano geral e depois irei discorrer brevemente sobre cada capítulo. Primeiramente, é preciso lembrar que toda a franquia de Resident Evil estrelada pela protagonista de Ultravioleta e O Quinto Elemento arrecadou aproximadamente 1,232 bilhão de dólares em bilheteria mundial. Essa foi a única saga vinda dos videogames a ganhar tantos filmes em um período em que tal tipo de negócio era visto como um fracasso certo.
Embora nem todos os filmes tenham sido dirigidos por Paul W.S. Anderson, ele sempre esteve envolvido com a IP no cinema como produtor ou roteirista. A visão do cineasta, aliada a outros colaboradores, fez com que Resident Evil se tornasse o jogo com mais adaptações live-action da história do cinema.
"Parecia que estava dentro do jogo": De The Walking Dead a monstro de 9 toneladas, Austin Abrams revela bastidores de Resident EvilEm termos de mercado, isso demonstrou não apenas que era possível ganhar dinheiro com esse tipo de narrativa - as produções baseadas em livros sempre foram a maioria - e, querendo ou não, isso colaborou para que hoje tivessemos títulos como The Last of Us, Sonic, Um Lobo Entre Nós, Street Fighter, Mortal Kombat, entre outros. E estou falando apenas de um tipo de linguagem, pois no campo das animações, essa premissa vem crescendo simultaneamente com exemplos como Super Mario Bros., Castlevania, Cyberpunk, entre outros.
Além destes fatores mercadológicos, há também o fato de que os seis projetos colaboraram para a expansão de protagonistas femininas em filmes de ação. Hoje, os homens ainda são a maioria, mas os longas estrelados por Jovovich são exemplos rentáveis ao lado de entradas como Anjos da Noite, Tomb Raider e Kill Bill.
A era Milla Jovovich de Resident Evil é tão ruim assim?
A resposta rápida para essa questão é: não, a era Milla Jovovich de Resident Evil não é esse desastre todo, mas não deixa de ter filmes bem ruins no caminho. Resident Evil: O Hóspede Maldito, por exemplo, segue como a melhor adaptação desta sexalogia. O longa se inspira bem no conceito de survival horror, enquanto não abandona os traços do cinema edgy dos anos 2000. A abertura do filme, por exemplo, nos lembra muito as cutscenes dos jogos, em especial de Resident Evil 2, no qual vemos o caminho da infecção e a manipulação do vírus.
Com a estética neon, cromada e metálica característica da época, cria-se uma versão própria dos jogos com muito apreço - algo que foi se perdendo com o passar dos anos. Iluminação, cenários robustos e um crescente gore que alimentam o pânico dos personagens em rota de fuga. Outros aspectos dos games estão lá: a mansão cheia de esculturas e artes plásticas, a protagonista badass e a galhofa que nos lembra bem dos diálogos dos primeiros jogos. Há, inclusive, efeitos práticos que funcionam até hoje, 24 anos depois, e uma história contundente. O final, inclusive, com Raccoon City destruída e a trilha sonora icônica feita por Marco Beltrami e o (muito!) problemático Marilyn Manson.
21 anos de O Hóspede Maldito: Os erros e acertos da primeira adaptação de Resident EvilJá Resident Evil: Apocalipse é duplamente inspirado em Nemesis: na história e na forma como amplia tudo enquanto tenta apresentar terror com pitadas de ação. Com grande orçamento e tudo maior, o longa tenta agradar os fãs que reclamaram do primeiro título transformando a trama num balaio de referências aos jogos (como Charles Ashford de Code Veronica, Jill Valentine e Carlos Olivera de Nemesis, além do easter egg do caminhão de RE2). As áreas urbanas e os edifícios góticos - como o cenário da igreja, que resgata o ar do primeiro filme - entregam talvez a melhor adaptação da cidade de Raccoon City. A direção começa interessante e frenética na medida, usando filtros e câmera tremida nos zumbis para passar a sensação de ansiedade diante dos monstros.
Tudo começa a degringolar por volta do minuto 26, quando a Alice entra em cena de moto pela janela da igreja. A partir daí, enquanto ela voa no ar e mata Lickers em (vou confessar) uma cena bem divertida, o roteiro e a montagem vão para as cucuias trazendo também zumbis saindo do cemitério (estilo Thriller?), demasiados alívios cômicos e até as prostitutas zumbi trabalhando (?) no caminho.
Ainda que o longa se perca, o Nemesis em efeito prático é interessante, não vou negar. A forma como ligam a história da Alice ao antagonista é bacana, mas também coloca uma pá de terra na possibilidade de protagonismo de Jill - que sugere já ter vivido a trama da mansão Spencer, chega botando banca com o clássico "who the fuck are you" para Alice e, mesmo assim, acaba diminuída à sombra de Jovovich.
A partir daqui, vamos aos últimos quatro filmes - 3 deles bem ruins e um razoável por um simples motivo.
Assim como nos games, os filmes de Resident Evil sempre se adaptaram ao tempo
Resident Evil 3: Extinção é o momento em que Resident Evil vira Mad Max. Levar a franquia ao deserto e elevar ainda mais o apocalipse zumbi ao restante do mundo faz com que os sobreviventes ganhem contornos militares e, assim como em RE: Outbreak, utilizem o melhor de suas habilidades para ajudar o grupo a avançar rumo a um espaço sem contágio. O filme apresenta a Claire Redfield (finalmente!) e traz a ideia dos clones, mostrando uma Alice mutante no maior estilo Caminhos do Coração.
Se no primeiro terço do filme anterior a saga larga a mão dos originais, aqui ela quase abandona os jogos de vez, se não fossem pequenos detalhes curiosos. O longa parece ter referências diretas a Resident Evil 5 em sua estética e até nos monstros. No entanto, enquanto a adaptação saiu em 2007, o jogo de Chris e Sheva só foi lançado aos consoles da época em 2009. Este é o primeiro registro simbiótico entre cinema e games. Posteriormente, podemos ver que ambos se influenciam continuamente. Para quem jogou Resident Evil: Requiem, por exemplo, deve ter sentido que o visual de Raccon City atual é muito parecido com o que é visto em Capítulo Final.
De volta ao terceiro projeto, destacam-se a sequência do Tyrant, a versão zumbi de Os Pássaros de Hitchcock e a escolha recorrente do roteiro em matar os personagens negros do grupo - já não existem muitos na franquia e eles são descartados rapidamente.
Depois de abraçar completamente os aspectos de ficção científica da franquia com os clones de Alice, Resident Evil: Recomeço tenta voltar com os pés no chão ao apresentar um outro grupo de sobreviventes e uma área claustrofóbica dentro de uma prisão. Em termos de cinema, trata-se de um filme totalmente blocado, sem transições que deem fluidez à montagem, e dominado pela influência do 3D da época, abusando de slow motion e de uma física que simplesmente não faz sentido.
"Parecia que estava dentro do jogo": De The Walking Dead a monstro de 9 toneladas, Austin Abrams revela bastidores de Resident EvilEntre maquiagens nos zumbis inferiores aos primeiros filmes e cenas de ação onde a Milla parece um PNG, o longa introduz Chris, Wesker e um inimigo clássico de RE4. Ao colocar referências na batalha final contra o vilão mutante e habilidoso, com direito a coreografia dos games, o trabalho de reprodução é um tanto pobre (mas os cachorros mutantes continuam bem impressionantes). Essa tentativa em sempre colocar elementos dos jogos nas produções é louvável, mas aqui, por exemplo, há diálogos que consideram um background entre os irmãos Redfield que simplesmente não é mostrado anteriormente.
Com isso chegamos ao quinto capítulo, que melhora um pouco a ideia de adaptar um jogo de Resident Evil. Com o subtítulo Retribuição, o roteiro ganha pontos pelo retorno de atores antigos e por ecoar bastante a jogabilidade dos games - com Las Plagas, zumbis levemente cosncientes , o retorno do Executioner e o Mega Licker. Colocar os personagens em um mundo simulado, que dá uma sensação de subir de nível e passar por fases, além de usar a coreografia de lutas dos jogos em novos lugares são boas escolhas criativas. O ar de Vingadores se reunindo é interessante, mas tudo foi abandonado na sequência.
Chegando ao último longa, intitulado de O Capítulo Final, a franquia simplesmente ignora todo o final do anterior e traz o filtro sépia de volta. Alice retorna a Raccoon City em um cenáriocheio de semelhanças a Requiem e é marcado por uma das piores edições de todos os tempos - lutas com cortes excessivos, iluminação precária, morte de personagens off-screen e um desfecho tão bom satisfatório quanto aleatório.
Fomos injustos?
Não fomos injustos ao declarar as adaptações de Resident Evil ruins. No entanto, seria crueldade e falta de propriedade dizer que todos estes filmes trouxeram algo de interessante tanto para a franquia quanto para o cinema. Ainda que não sejam obras-primas, eles sustentaram uma vertente da indústria e com certeza colaboraram para que a IP resistisse além dos games.