Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo e Robert Downey Jr. lideram um filme fascinante no qual nem sempre é preciso encontrar uma resposta fácil.
Você não precisa assistir a Zodíaco uma segunda vez para se lembrar da produção, mas rever a obra certamente ajuda a apreciar o quanto ela foi construída no milímetro. David Fincher toma o caso real do assassino do Zodíaco e se recusa a transformá-lo no típico suspense de serial killer cheio de perseguições, reviravoltas e respostas fáceis.
Em vez disso, constrói uma história obsessiva sobre jornalistas e policiais que passam anos seguindo pistas, revisando provas e tentando identificar um criminoso que parece gostar de deixar sempre uma peça fora do lugar. Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo e Robert Downey Jr. lideram um elenco fantástico em um filme que pode parecer cadenciado, mas possui uma capacidade quase hipnótica de fazer o espectador querer investigar junto com os protagonistas.
A obsessão é o verdadeiro mistério
Zodíaco toma como ponto de partida um dos casos criminais mais conhecidos dos Estados Unidos, o do assassino do Zodíaco, um criminoso que aterrorizou a área da baía de São Francisco no final dos anos 1960 e chegou a enviar cartas e mensagens cifradas a jornais para desafiar a polícia e a opinião pública. No entanto, Fincher não usa isso como pretexto para criar um suspense convencional onde cada pista leva inevitavelmente a uma resolução. Pelo contrário, o longa se detém na investigação, nos becos sem saída e na passagem do tempo.
Na verdade, parte de seu encanto está justamente na paciência. Fincher dedica tempo para mostrar como um caso que parecia apenas mais uma investigação acaba se transformando em uma obsessão pessoal. Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) é um ilustrador de jornal que fica fascinado pelo caso e começa a investigar por conta própria. O que começa como curiosidade passa a ocupar praticamente toda a sua vida, enquanto outros personagens ao seu redor também pagam um preço por não conseguirem deixar o mistério para trás.
E aí está um dos grandes acertos da produção, pois Zodíaco não trata apenas de descobrir quem é o assassino, mas sim do que acontece quando alguém decide que precisa da resposta acima de qualquer outra coisa. Graysmith vai deixando de lado seu trabalho, sua família e sua própria tranquilidade enquanto tenta encaixar as peças. A investigação deixa de ser uma missão e vira um estilo de vida, a ponto de o filme fazer com que a verdadeira ameaça não seja tanto o assassino, mas a própria obsessão que ele provoca.
Contudo, se há algo que faz a obra continuar funcionando tão bem, é que Fincher entende que a incerteza pode ser muito mais perturbadora do que uma resposta. O longa não precisa transformar cada cena em um espetáculo nem recorrer a sustos fáceis: basta mostrar como o caso se arrasta por anos e como a ausência de respostas começa a consumir aqueles que o perseguem.
Trata-se de um suspense cadenciado, sombrio e extraordinariamente preciso, que confia na inteligência do espectador e demonstra como uma boa investigação pode ser fascinante mesmo sem uma resolução perfeita.
No Brasil, o filme está disponível no catálogo do HBO Max.