Diretor de O Agente Secreto aproveitou o discurso de agradecimento para defender um audiovisual nacional mais representativo.
Na noite de terça-feira (4), os vencedores do Prêmio Grande Otelo 2026 foram revelados. Na principal categoria da cerimônia (Melhor Longa-Metragem de Ficção), houve um empate entre O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Manas, de Marianna Brennand.
Ao fazer seu discurso de agradecimento, Kleber adotou um tom mais crítico para alfinetar a Academia Brasileira de Cinema, pedindo por uma representação mais ampla da produção audiovisual nacional.
“Eu queria agradecer à Academia Brasileira de Cinema. Eu queria falar uma coisa que eu acho que é super importante. A Academia tem um... é tudo sobre o cinema brasileiro, mas eu acho muito importante que a Academia chegue em produtoras e estados bem distantes do Sudeste”, colocou o diretor.
“É extremamente importante, porque essa é uma festa de todos nós; todos nós que somos brasileiros. Essa não é a primeira vez que eu venho aqui, eu já participei algumas outras vezes com outros filmes. E há um ar forte sudestino que a gente precisa dissipar um pouco na Academia Brasileira de Cinema”, acrescentou.
Durante o monólogo, o cineasta ainda aproveitou para fazer um pedido para o que ele chamou de “grande mídia”:
“Eu queria, na verdade, dedicar esse prêmio à grande mídia brasileira. Eu sei, é complicado dizer isso. Mas esse é um momento muito importante no nosso país, é muito importante no mundo inteiro. Todo mundo está meio que vendo o que está acontecendo. Eu queria pedir para a grande mídia, que aliás já houve dias em que influenciava mais, mas é muito importante que a grande mídia escreva, como um bom roteiro, escreva o que está acontecendo. Não precisa nem enfeitar, basta dizer o que está acontecendo, sem esconder nada e nem preparar uma outra realidade.”
Antes de O Agente Secreto, 16 filmes brasileiros foram indicados ao Oscar: Ainda Estou Aqui fez históriaO embate entre O Agente Secreto e Manas é antigo
Para quem não está por dentro do imbróglio, precisamos voltar a 2025, quando o Brasil ainda estava para decidir qual seria seu representante na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2026. Na época, O Agente Secreto era considerado o favorito absoluto, e havia, inclusive, vencido prêmios em Cannes e outros importantes festivais internacionais.
A polêmica começou quando surgiram informações de que Manas poderia desbancar o filme de Wagner Moura. Segundo reportagens e rumores da época, havia uma forte articulação de produtoras e empresas do setor audiovisual em favor de Manas, sob o argumento de que seu tema - a violência contra meninas e mulheres na Ilha do Marajó - seria mais urgente e representativo da realidade brasileira. Também circulou a informação de que cerca de 70 empresas haviam assinado uma carta de apoio ao longa, o que levou parte da indústria a questionar se a disputa estava sendo influenciada por lobby, e não apenas por critérios artísticos.
No fim das contas, O Agente Secreto foi nomeado o representante brasileiro na categoria internacional do Oscar, mas acabou perdendo a estatueta dourada para Valor Sentimental, uma produção norueguesa.