Há filmes dos anos 80 que ainda escondem segredos surpreendentes, e Conan, o Destruidor guarda um especialmente bom. Sob a aparência de um deus sombrio, várias camadas de látex, escamas e um chifre esculpido, escondia-se ninguém menos que André, O Gigante, o maior lutador que a WWF já teve, interpretando o deus Dagoth em sua forma monstruosa.
"A maior alegria que já tive em toda a minha carreira": Arnold Schwarzenegger abriu mão de 99,85% do seu cachê por seu projeto favoritoNão procure por ele nos créditos, ele não aparece. Nem uma única linha com o nome dele, nem uma menção no pôster, nada. Dá pra imaginar ter mais de dois metros de altura, pesar mais de 200 quilos e, mesmo assim, passar completamente despercebido em uma produção de Hollywood? Pois foi exatamente isso que André queria. A história de como isso aconteceu tem tanto de cinema quanto de circo, tanto de mitologia quanto de ringue.
Um deus derrotado por chifres, interpretado por um gigante de carne e osso
Universal Pictures
Na trama do filme, Dagoth é o deus sonhador que a malvada rainha Taramis deseja ressuscitar por meio de um ritual que inclui um sacrifício. Quando ele finalmente desperta de seu letargo de pedra, transforma-se em uma criatura de vários metros de altura, com olhos nas laterais da cabeça, mandíbulas que se abrem horizontalmente e um chifre na testa que é, literalmente, a fonte de sua vida.
"Rastejei até sangrar": Arnold Schwarzenegger relembra como as filmagens de Conan foram um verdadeiro infernoA ideia de um deus que só pode morrer se lhe for arrancado o objeto que o mantém vivo não é exclusiva de Conan: ela aparece, com variações, em tradições mitológicas muito distintas entre si; portanto, também não é preciso ir muito longe para entender por que a cena funciona tão bem. Conan, Zula e Malak atacam-no sem muito sucesso até que Akiro grita a solução: arrancar o chifre. Schwarzenegger o arranca de uma vez, é claro, e, com ele, a vida da criatura. Até aí, é o que todos sabemos.
O curioso é que, por trás desse personagem, não havia nenhum ator coadjuvante contratado para a ocasião, mas sim um verdadeiro peso-pesado: André, o Gigante. Hoje em dia, contar com uma figura do calibre de André seria um grande trunfo promocional para um filme desse tipo, mas, em 1984, a produtora decidiu não creditá-lo, algo que, naquela época, não era tão incomum para trabalhos com próteses e maquiagem pesada, em que o ator ficava completamente oculto sob o design.
Rolf Konow/Sygma/Sygma via Getty Images
André cumpriu sua função, recebeu seu salário e desapareceu dos créditos como se nunca tivesse estado lá. De acordo com a ficha do personagem, seu nome completo, André René Roussimoff, nem sequer foi associado ao papel no material promocional original. Vale a pena perguntar-se quantos outros gigantes anônimos se escondem por trás dos monstros que consideramos como reais no cinema dos anos 70 e 80. O fato é que André saiu ganhando com tudo isso.
Em 1984, no mesmo ano em que foi filmado Conan, o Destruidor, André, O Gigante vivia um momento de máxima visibilidade na WWF. Vince McMahon Jr., que havia herdado a promotora de seu pai dois anos antes, acabara de assinar com André um contrato de exclusividade para poder explorá-lo em nível nacional, embora continuasse lhe permitindo turnês pontuais pelo Japão.
A rivalidade com o igualmente gigantesco Big John Studd, que já vinha se desenvolvendo há algumas temporadas, estava prestes a se tornar um dos principais atrativos da iminente WrestleMania, o evento que acabaria por catapultar a empresa ao estrelato. Segundo sua biografia, André era, naquela época, um dos lutadores mais queridos pelo público, com uma reputação de invicto que a própria WWF se encarregava de alimentar em cada transmissão.
Universal Pictures
Assim, enquanto uma parte do público o via lotar pavilhões inteiros como um dos rostos mais reconhecíveis do mundo do espetáculo, outra parte completamente diferente se sentava em uma sala escura para assistir a um filme de espadas e feitiçaria, sem saber que aquele mesmo gigante estava ali dentro, suando a mares por baixo do traje.
44 anos depois, Arnold Schwarzenegger confirma retorno a papel que marcou sua carreira: "Ele não está mais na melhor forma física"André ganhava seu salário tanto no ringue quanto no set de filmagem, dois mundos que, aparentemente, não tinham nada a ver um com o outro, mas que, durante aquela temporada, compartilharam o mesmo protagonista sem que quase ninguém soubesse. O engraçado é que nem mesmo os fãs mais dedicados do wrestling teriam reconhecido seu ídolo sob aquela máscara escamosa, e os espectadores do cinema também não tinham como suspeitar que se tratava do grande campeão da WWF. O motivo do anonimato? O dinheiro.
Todas as aparições públicas de André (e dos lutadores contratados por McMahon) eram gerenciadas pela empresa de wrestling e, se algum deles aceitasse um trabalho fora do ringue, deveria repassar parte de sua remuneração para a WWF. Muitos lutadores discordavam dessa cláusula do contrato, por isso decidiram fazer como André e trabalhar sem receber crédito, para que McMahon não pudesse reivindicar sua parte dos lucros.
O homem que criou o E.T. também criou o Dagoth
Metro-Goldwyn-Mayer Studios Inc
Conan, o Destruidor tem várias curiosidades interessantes. Outra que me parece muito interessante — e pouco conhecida — é que o responsável por tornar o Dagoth tão assustador na tela foi Carlo Rambaldi, um nome que qualquer fã de cinema fantástico deveria reconhecer.
Rambaldi acabara de ganhar reconhecimento mundial pelo design animatrônico de E.T., o extraterrestre mais cativante da história do cinema, e, apenas dois anos depois, aplicou esse mesmo talento para criar exatamente o oposto: uma criatura demoníaca, viscosa e ameaçadora, concebida para causar medo em vez de ternura.
Dino De Laurentis/Universal Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images
É um contraste que diz muito sobre o ofício dos efeitos especiais práticos da época, em que um mesmo artesão podia passar de criar o personagem mais adorável do cinema dos anos 80 a dar a luz, quase sem transição, a um dos monstros mais repugnantes da época. Esse tipo de trabalho era, por definição, coletivo e anônimo: o ator que vestia o traje desaparecia sob a prótese; o figurinista raramente recebia o mesmo reconhecimento que o diretor ou o protagonista, apesar de ser o responsável por alguns dos elementos mais icônicos e reconhecíveis dos filmes.
O resultado final dependia da contribuição silenciosa de muitas pessoas que o público nunca conseguia identificar. André, O Gigante se encaixava especialmente bem nesse tipo de trabalho, pois poucos atores podiam oferecer tal porte físico sem a necessidade de truques de câmera ou efeitos adicionais. Quarenta anos depois, a curiosidade continua lá, escondida à vista de todos em um corpo de mais de dois metros.
Conan, O Destruidor está disponível no streaming Claro TV+.