O historiador reúne evidências que sugerem que a Guerra de Troia teve uma motivação muito maior do que apenas pelo mito de Helena.
O lançamento de A Odisseia, adaptação de Christopher Nolan, recolocou o clássico de Homero no centro das discussões. Mas a jornada de Odisseu desperta uma pergunta há séculos: o que existe de verdadeiro por trás de uma das histórias mais influentes da literatura?
Foi justamente essa questão que motivou o historiador Alfonso Mañas a escrever A Odisseia: A Realidade por Trás do Mito, ensaio em que investiga as possíveis origens históricas de alguns dos episódios mais famosos do poema épico.
O que há de histórico por trás do mito?
Para Mañas, Homero não criou a história de Odisseu do zero. Segundo o historiador, o poeta reuniu diferentes narrativas populares e lendas transmitidas oralmente, costurando-as em uma única obra.
"Muitos cantos surgidos após a guerra foram reunidos por Homero com outras histórias e lendas sobre navegadores. Isso explicaria a diferença entre o Odisseu de Ilíada, um guerreiro brutal e implacável, e o Odisseu muito mais sensível de Odisseia, que chega até a chorar."
Uma das teorias mais curiosas apresentadas no livro diz respeito às verdadeiras causas da Guerra de Troia. Para Mañas, o conflito pode ter sido motivado pelo controle das rotas comerciais que levavam às minas de estanho localizadas no Mar Negro, e não apenas pelo rapto de Helena.
"Troia controlava o estreito de Dardanelos, passagem obrigatória para chegar ao Mar Negro, onde estavam as principais minas de estanho", explica o historiador, descrevendo o metal como "o petróleo da época". Misturado ao cobre, ele permitia a produção do bronze, material utilizado na fabricação das armas mais avançadas daquele período.
O Cavalo de Troia talvez nunca tenha sido um cavalo
Outra hipótese levantada por Mañas coloca em dúvida um dos maiores símbolos da mitologia grega. Segundo ele, alguns autores da Antiguidade já defendiam que o famoso Cavalo de Troia poderia, na verdade, ter sido um navio fenício conhecido como hippos.
A embarcação recebia esse nome porque possuía uma cabeça de cavalo esculpida na proa. Com o desaparecimento desse tipo de navio na Grécia ao longo dos séculos, o termo teria passado a ser interpretado literalmente, dando origem ao lendário cavalo de madeira.
O livro também procura explicar a origem de outras criaturas lendárias. Mañas sugere que os ciclopes podem ter sido inspirados na descoberta de enormes fósseis e lembra que as sereias da Grécia Antiga eram muito diferentes da imagem popular atual.
"Elas eram aves com cabeça de mulher", afirma. Na visão do historiador, essas criaturas funcionavam como representações de tudo aquilo que escapava à compreensão das pessoas da época.
A visão de Alfonso Mañas sobre o filme de Christopher Nolan
Mañas também revelou que já assistiu à adaptação de Christopher Nolan e elogiou o longa, embora admita que teria seguido um caminho um pouco diferente: "Eu teria dado mais destaque aos monstros, porque eles são um dos grandes trunfos da história e o motivo de sua permanência ao longo dos séculos. Desde a Antiguidade até hoje, crianças sempre ficaram fascinadas por ciclopes, sereias e todas essas criaturas que continuam muito vivas no imaginário popular."
Ainda assim, ele acredita que Nolan preferiu explorar o lado mais humano da narrativa. Para o historiador, é justamente esse aspecto que faz A Odisseia permanecer emocionante quase três mil anos depois.
"Percebemos que não se trata apenas de um homem viajando de navio, mas de alguém enfrentando todas as dificuldades da vida para voltar ao único lugar que ainda lhe resta. É uma jornada pela alma humana, que reúne todo o espectro de emoções que uma pessoa pode sentir. É por isso que essa história continua tão atual."
A Odisseia está em cartaz nos cinemas brasileiros.