"Vítima ou monstro?": Como o novo filme da Netflix se preparou para tentar evitar a romantização do caso Elize Matsunaga (Entrevista)
Rafael Felizardo
-Redator | Crítico
Sonhador desde pequeno e apaixonado por cinema de A a Z, encontrou em David Lynch um modo de sonhar acordado.

O AdoroCinema entrevistou Raphael Montes e Mariana Torres para o lançamento de Elize: Sombras de Uma Mulher.

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Nesta quarta-feira (22), estreia na Netflix, Elize: Sombras de uma Mulher, um filme biográfico que retrata parte da trajetória de Elize Matsunaga - figura central de um dos casos criminais mais conhecidos do Brasil. Baseado em uma história verídica, o longa-metragem explora os conflitos emocionais e as relações de poder que marcaram a vida de Elize antes do assassinato de seu marido, o empresário Marcos Matsunaga.

Na trama, Elize é interpretada por Lorena Comparato, atriz que você conhece de projetos como Impuros, Rensga Hits! e Pé na Cova. Já Marcos Matsunaga é vivido por Henrique Kimura, ator que estrelou o filme Corações Sujos em 2012.

Além de acompanhar a produção de perto, o AdoroCinema conversou com exclusividade com os roteiristas Mariana Torres e Raphael Montes (Bom Dia, Verônica) sobre os desafios de transformar um dos crimes mais famosos do país em uma obra de ficção. Durante a entrevista, a dupla explicou as decisões criativas por trás do roteiro, o cuidado em retratar uma história real sem simplificá-la e a proposta de explorar as múltiplas camadas de Elize Matsunaga. Confira abaixo.

Elize: Sombras de uma Mulher: Compare os personagens do filme de Elize Matsunaga com as pessoas da vida real

Houve preocupação em evitar a romantização do filme

Se nos últimos anos os chamados true crime foram criticados por romantizar os agentes envolvidos nas narrativas, essa foi uma preocupação que Raphael Montes e Mariana Torres tiveram desde as primeiras versões do roteiro de Sombras de uma Mulher. No decorrer da conversa, eles explicaram que o objetivo nunca foi transformar Elize em heroína ou vilã, mas apresentar uma figura complexa que consegue transitar entre diferentes nuances e apresentar múltiplas facetas.

“Como roteirista, temos a responsabilidade de entender para que serve contar uma história de ficção baseada em um caso real”, começou Raphael. “A pergunta que eu e Mari nos fazíamos era: por que contar essa história hoje? Que assuntos são pertinentes ainda hoje? E, curiosamente, a gente encontra algumas respostas ao buscar isso. Então, por exemplo, a gente conta uma história de uma mulher que se aproxima dos dramas de várias mulheres”, acrescentou.

Ele ainda completa:

“Ou seja, uma mulher que sai de uma cidade pequena para uma cidade grande querendo construir uma família perfeita, que ela não teve, e então ela entra em uma relação, essa relação acaba não sendo o que ela esperava, e aí, se enxergamos no específico, culmina num crime marcante e assustador que comoveu todo o país. Acho que o interessante do caso do nosso filme é trazer esse olhar da Elize, e esse olhar da Elize sem dar respostas fáceis, porque a gente mostra uma espécie de dualidade dessa personagem.”

E finaliza:

“Então, você tem uma Elize, sim, que tem uma vivência de vítima, um passado traumático e etc, mas, ao mesmo tempo, tem uma Elize manipuladora que mata, esquarteja o marido e depois tenta despistar a polícia, mente para a família Matsunaga. Então, a gente quis necessariamente, na nossa abordagem, mostrar esses dois lados mesmo, essas duas sombras da personagem e daí jogar para o público a pergunta. Ou seja, é um filme que não se propõe a defender um lado ou defender outro lado, e sim levantar as perguntas e provocações para que o público responda em casa.”

Elize: Sombras de uma Mulher propõe uma discussão sobre classe e gênero

Como todos sabem, o Caso Elize Matsunaga foi destrinchado das mais diversas formas desde 2012, ano do assassinato. A própria Netflix possui uma série documental intitulada Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime (2021); além do Prime Video, que carrega em seu catálogo Tremembé (2025), uma produção onde Matsunaga também está presente.

Diante desse cenário, Mariana Torres explicou para nós o cuidado que precisou ter para apresentar um novo olhar sobre o tema - e evitar as armadilhas que um caso tão popular pode proporcionar. Segundo ela, o projeto amplia a discussão para além do assassinato de Marcos Matsunaga, e aborda temas como estruturas de poder, violência de gênero e desigualdade de classe.

“Quando começamos a trabalhar no roteiro, a gente pensou: 'Ela é vítima ou ela é monstro? Espera aí, vamos sair também do que a gente já viu, do julgamento que a gente já teve. Vamos tirar essa lente, vamos olhar de uma maneira um pouco mais complexa. Vamos entender como essa mulher entrou num relacionamento desse tipo. Por que ela ficou? O que levou ela a acreditar que aquilo poderia ter um final feliz e por que não teve?' Então, trabalhamos nesse sentido, de entender a subjetividade dela, os sonhos que ela tinha; porque são sentimentos muito identificáveis, não só femininos, mas masculinos também, de aposta de uma vida diferente, uma vida mais feliz, uma família que ela não tinha e de uma mulher que tinha um passado de marcas que ainda estavam nela”, colocou Torres.

“O crime a gente já sabe como aconteceu, a gente já está cansado de ver muitas imagens sobre a Elize e o Marcos, mas o que a gente hoje pode aproveitar para discutir enquanto sociedade? Acho que nesse sentido, a violência de gênero, a questão da classe social e os relacionamentos tóxicos são pontos que a gente queria debater”, pontuou.

A entrevista ainda levou os dois roteiristas a revelarem detalhes novos sobre Elize Matsunaga que acabaram descobrindo durante o estudo do caso.

“Para mim, uma coisa que foi muito forte de perceber, porque acho que não foi tão abordado nas grandes notícias e que, de algum modo, costura o filme, é esse aspecto da maternidade. E também da família perfeita, de ela ser essa mulher que teve uma família com questões, a pessoa mais próxima dela era a tia, a relação com a mãe nunca foi tão fácil e etc. E que então vai para São Paulo para tentar vencer na vida, e ela tem esse sonho da maternidade, de construir uma família diferente da que ela teve”, disse Raphael.

“Um aspecto que me chamou muita atenção foi aquela parte dos depoimentos do Marcos sobre as garotas de programa com quem ele saía. Aquilo é muito forte também, você lê aquilo. São reais, depoimentos. E também tem uma curva curiosa nessa história, que é o fato de que a Elize entra, de algum modo, para substituir uma mulher; ou seja, o Marcos era casado, e então ela entra. E ela acredita que vai ser a mulher, e, adiante, ela entende que vai ser substituída também. Essa clareza dessa informação também, para mim, não era tão evidente, foi algo que encontrei nas pesquisas mesmo e coloquei no filme”, acrescentou Mariana.

Vale lembrar que Elize: Sombras de uma Mulher é dirigido por Felipe Vellas. O elenco ainda conta com Miwa Yanagizawa, Julia Shimura, Julia Konrad, Denise Weinberg e Marat Descartes.

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