Qualquer elemento de mistério ou surpresa parece desaparecer de um filme como O Fim da Rua quando os próprios pôsteres e trailers já revelam os dinossauros. Ainda assim, o blockbuster de ficção científica era uma das grandes apostas do verão, principalmente pela combinação entre o retorno de um cineasta cult do gênero, David Robert Mitchell, e a produção de J.J. Abrams, conhecido por suas homenagens ao cinema de Steven Spielberg.
E é justamente essa mistura que funciona melhor! O filme entrega uma aventura fantástica divertida e visualmente grandiosa, que resgata o espírito das produções da Amblin dos anos 1980, capazes de entreter toda a família e, ocasionalmente, flertar com o terror.
Ao mesmo tempo, continua carregando algumas das características de Mitchell, diretor de Corrente do Mal. Embora aqui ele tenha reduzido suas ambições para privilegiar o espetáculo, o cineasta ainda encontra espaço para inserir algumas ideias mais provocativas — especialmente no desfecho.
ATENÇÃO! Spoilers de O Fim da Rua a partir daqui
O Fim da Rua e a reviravolta no passado
Antes de a família interpretada por Anne Hathaway e Ewan McGregor ser transportada para uma era dominada por dinossauros, encontramos um núcleo familiar à beira do divórcio. A mãe sonha em escapar da rotina por meio de um romance que escreve, enquanto o pai, alcoólatra, evita os problemas e deseja que tudo volte a ser como antes.
Warner Bros. Pictures
A ameaça dos dinossauros acaba aproximando os dois, mas isso não dura para sempre. Durante uma tentativa de salvar a família, o personagem de McGregor é brutalmente devorado por um dinossauro, deixando esposa e filhos traumatizados.
Mesmo assim, eles conseguem retornar ao futuro por meio dos estranhos portais luminosos espalhados pelo tempo. O detalhe é que voltam alguns minutos antes do momento em que partiram. Essa pequena diferença permite que a personagem de Hathaway telefone para o marido e para alguns vizinhos, alertando-os sobre o fenômeno e evitando suas mortes.
O plano funciona! McGregor e parte dos moradores são salvos, enquanto a protagonista ganha uma experiência que pode servir de inspiração para sua carreira como escritora. Mais importante: ela consegue preservar a família que havia aprendido a valorizar novamente.
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Um final feliz com algumas contradições
A cena final se aproxima bastante dos finais felizes das produções de Spielberg dos anos 1980. A família se reúne para um almoço de domingo no jardim, ao lado da garota que retornou com eles ao futuro e de sua família — além de uma outra versão da própria menina.
Por trás da imagem aparentemente perfeita, porém, existem algumas contradições. Se o filme fala sobre recuperar a família e retornar a um passado mais simples e seguro, a solução encontrada pela personagem de Hathaway também representa uma tentativa de reconstruir à força o modelo tradicional de família.
O resultado é um mundo cheio de paradoxos: ela sente carinho por uma versão do marido diferente daquela que salvou, enquanto uma das crianças precisa conviver com uma versão anterior da própria família e até com outra versão de si mesma.
É justamente aí que David Robert Mitchell consegue deixar sua marca. O Fim da Rua pode parecer, à primeira vista, uma aventura nostálgica à moda antiga, mas seu desfecho introduz elementos suficientes para tornar esse final feliz um pouco mais ambíguo — e, consequentemente, mais interessante.