Lançado há 67 anos, este grandioso e injustamente desconhecido filme de guerra é um dos melhores e mais sombrios que você verá na vida
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Lançado em 1959, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e um sucesso estrondoso na época, A Ponte da Desilusão, de Bernhard Wicki, é um dos filmes antibelicistas mais trágicos e comoventes já realizados.

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Por sua duração, intensidade, escala planetária, pela extensão aterrorizante de suas destruições, dimensão genocida e industrial de seus crimes de massa, a Segunda Guerra Mundial sempre constituiu um terreno fértil para o cinema, que não cansa de beber fartamente dessa fonte. São incontáveis — e ainda bem — as obras-primas do cinema de guerra que têm esse conflito como pano de fundo.

No final dos anos 1950, o cinema — essencialmente americano, neste caso — produziu grandes filmes que retratavam o horror e a futilidade dos combates, as decisões assassinas dos comandantes e até mesmo obras pacifistas ou antimilitaristas. Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick, é, claro, talvez o mais famoso de todos.

Mas houve também Bitter Victory, 1957, de Nicholas Ray; Men in War, de Anthony Mann, ambientado na Guerra da Coreia; ou ainda, em 1959, o excelente Os Bravos Morrem de Pé, protagonizado por um impecável Gregory Peck e dirigido pelo veterano Lewis Milestone — o mesmo cineasta que, 29 anos antes, havia assinado seu filme mais célebre, Sem Novidade no Front.

Uma lista curta à qual se deve somar uma obra da Alemanha Ocidental lançada em 1959 e dirigida por um cineasta até então desconhecido: A Ponte da Desilusão, de Bernhard Wicki. Um filme grandioso, ainda muito desconhecido e raramente citado, mas que merece seriamente ser descoberto.

"É extremamente raro que um país seja ao mesmo tempo capaz de travar uma guerra até a destruição total e esteja disposto a isso"

A Ponte da Desilusão compartilha com o clássico filme de guerra A Queda - As Últimas Horas de Hitler um pano de fundo bem específico: ambienta-se no momento do colapso do regime nazista, nos últimos meses e dias da guerra.

"É extremamente raro que um país seja ao mesmo tempo capaz de travar uma guerra até a destruição total e esteja disposto a isso", escreveu o renomado historiador Ian Kershaw em seu extraordinário livro O fim do Terceiro Reich: A destruição da Alemanha de Hitler, 1944-1945, focado justamente na derrocada do Terceiro Reich.

"É igualmente raro que as poderosas elites de um país, a começar pelos militares, não possam ou não queiram depor um líder que as conduz manifestamente à catástrofe mais absoluta. No entanto, como todos reconhecem, foi exatamente isso o que aconteceu na Alemanha em 1945, tornando-se a cada dia mais inevitável; o país seria totalmente varrido por um desastre nacional: derrota militar esmagadora, ruína material, ocupação inimiga e, além disso, a falência moral."

A ação de A Ponte da Desilusão se passa em uma charmosa cidadezinha da Baviera, durante os últimos e desesperados dias da Segunda Guerra Mundial, quando sete jovens recrutas da Volkssturm — nome dado à milícia popular alemã convocada em 1944 para apoiar a Wehrmacht na defesa do território do Reich — tentam defender uma velha ponte de pedra contra a força esmagadora de um exército americano em pleno avanço.

Esses jovens soldados, na realidade adolescentes, contam com recursos rigidamente limitados e não têm nenhuma experiência. Eles haviam sido mobilizados apenas no dia anterior, e o sargento encarregado de comandar o pequeno esquadrão está morto.

Com a mente cheia de fantasias de glória no campo de batalha e um nacionalismo ainda triunfante (embora o regime vivesse suas últimas horas), mas também com o medo agudo de serem taxados de covardes diante do inimigo e atormentados pelo pavor da morte perante um oponente com superioridade esmagadora, os sete adolescentes tentam manter a ponte. No fim das contas, a estrutura é um objetivo tão irrisório quanto vão, sem qualquer relevância estratégica, como o espectador descobre logo no início do filme. O ápice da obra ocorre nos violentos vinte minutos finais, quando os garotos enfrentam sozinhos um tanque americano.

"Éramos apenas garotos, os nazistas nos usaram como bucha de canhão"

Baseado no romance homônimo de Gregor Dorfmeister (escrito sob o pseudônimo de Manfred Gregor) publicado em 1958, A Ponte da Desilusão é uma obra autobiográfica: mobilizado pela Volkssturm aos 16 anos na primavera de 1945, o autor se viu em uma situação idêntica à do filme.

Após um treinamento rudimentar, ele acabou encarregado de defender duas pontes em sua cidade natal, Bad Tölz, e nos arredores, na companhia de seis colegas de classe. Ele foi o único sobrevivente.

Assim como os garotos do filme, ele e seus companheiros conseguiram neutralizar um tanque americano, do qual um dos ocupantes saiu cambaleando, gravemente ferido. "Foi nesse exato momento que me tornei um pacifista", relatou Dorfmeister. Ao abandonar seu posto e retornar ao local da batalha no dia seguinte, ele descobriu que todos os seus amigos estavam mortos. "Éramos apenas garotos. Os nazistas nos usaram como bucha de canhão."

Filmado inteligentemente em ordem cronológica (o que aumenta drasticamente a tensão) e belamente fotografado, A Ponte da Desilusão é ainda mais notável por ser o verdadeiro primeiro trabalho de ficção de seu diretor, Bernhard Wicki.

Relativamente inexperiente, ele havia dirigido um documentário no ano anterior (Warum sind sie gegen uns? / Por que eles são contra nós?). No entanto, sua formação vinha do teatro de Berlim antes da guerra, tendo estudado com o famosíssimo ator Gustaf Gründgens — o ator favorito da cúpula do partido nazista e cuja vida foi tema de uma obra-prima lançada em 1981, Mephisto, de István Szabó. Preso por um tempo em um campo de concentração, aparentemente devido às suas simpatias pela esquerda, Bernhard Wicki escapou das suspeitas de colaboração ou simpatias nazistas após a guerra.

Uma juventude que "compreendeu maravilhosamente bem" a mensagem antibelicista do filme

A Ponte da Desilusão foi o primeiro filme abertamente antibelicista produzido na Alemanha Ocidental após o término da Segunda Guerra Mundial, e seu sucesso foi gigantesco. Agraciado com vários prêmios na Alemanha, chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, perdendo a estatueta daquele ano para o clássico Orfeu Negro.

Registros valiosos de arquivo revelam muito sobre a recepção do filme na época do lançamento. Em uma entrevista gravada logo após uma exibição de pré-estreia destinada a jovens alemães, o cineasta destacou que eles haviam "compreendido maravilhosamente bem" sua mensagem de paz, feita com o intuito de desconstruir a propaganda de guerra.

Os depoimentos coletados na saída do cinema revelavam um profundo impacto emocional, levando alguns jovens a considerar a objeção de consciência diante do rearmamento militar — um tema sensível naquele período de fortes tensões da Guerra Fria. Enquanto muitos elogiavam o realismo cru e impressionante da direção, outros questionavam a validade daquelas táticas de combate na era atômica.

E embora alguns afirmassem que provavelmente teriam agido com a mesma devoção dos sete garotos do filme se estivessem na mesma situação naquela época, eles também ressaltavam a dificuldade de conceber tal cenário em 1959, quando os fogos da guerra haviam se apagado há apenas 14 anos. Em suma, debates que ilustravam um forte desejo coletivo de tirar lições do passado para evitar a repetição de tragédias humanas inúteis.

O reconhecimento de Hollywood

O fato é que a maestria de Bernhard Wicki em A Ponte da Desilusão impressionou até mesmo Hollywood, a ponto de ele ser convidado pela Twentieth Century Fox e pelo produtor Darryl F. Zanuck para dirigir os segmentos alemães do célebre filme coletivo de guerra O Mais Longo dos Dias, em 1962. A sua contribuição, inclusive, continua sendo considerada a melhor desse clássico.

Infelizmente, Bernhard Wicki não teve uma carreira muito próspera ou de grande sucesso comercial nos anos seguintes, após dirigir dois filmes em língua inglesa: A Visita (1964) e Morituri (1965). De volta à Europa, ele faleceu em 2000, aos 80 anos.

A Ponte continua sendo sua grande obra-prima. No Brasil, infelizmente, o filme não está disponível em nenhum serviço de streaming ou para aluguel digital, restando aos cinéfilos procurá-lo no mercado de mídias físicas em DVD e Blu-ray — e, por enquanto, apenas nesse formato. Se você ainda não o assistiu, já sabe o que precisa fazer.

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