Clint Eastwood gostaria que mais pessoas tivessem visto este imenso e subestimado filme de guerra
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Cartas de Iwo Jima é o maior filme de guerra de Clint Eastwood. Esta obra-prima infelizmente não foi um sucesso de bilheteria. Uma enorme decepção para o diretor, como ele mesmo explicou em 2011 em uma entrevista à revista GQ.

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Entre fevereiro e março de 1945, os Estados Unidos lançaram um ataque naval, terrestre e aéreo em grande escala contra a ilha de Iwo Jima, ocupada por 22 mil combatentes japoneses. Essa foi a única batalha terrestre da Guerra do Pacífico na qual os EUA tiveram mais soldados fora de combate do que os japoneses: foram 25 mil baixas americanas, incluindo 6.821 mortos. Do lado japonês, o saldo foi absolutamente terrível, restando apenas 1.083 sobreviventes dos 22 mil defensores da ilha.

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima: Um duplo fracasso cruel nas bilheterias

Essa trágica batalha, uma das mais famosas da Segunda Guerra Mundial — e amplamente documentada por imagens de arquivo coloridas —, é o tema central de Cartas de Iwo Jima. Lançado em 2006, dirigido por Clint Eastwood e roteirizado por Iris Yamashita, Paul Haggis e Tadamichi Kuribayashi, o longa relata os acontecimentos adotando estritamente o ponto de vista japonês dos fatos.

A narrativa foca especialmente no comandante-em-chefe japonês encarregado da organização da defesa da ilha, interpretado de forma extraordinária e admirável por Ken Watanabe. A obra foi concebida como a segunda parte de um díptico cinematográfico; a primeira foi A Conquista da Honra, que abordava os mesmos eventos sob a perspectiva americana.

Infelizmente, ambos os filmes passaram longe de ser um sucesso de público: A Conquista da Honra arrecadou apenas 65 milhões de dólares mundialmente, Cartas de Iwo Jima teve um desempenho ligeiramente melhor, com 68 milhões de dólares na bilheteria internacional, mas arrecadou míseros 13,7 milhões de dólares em solo americano. O resultado foi um duro golpe comercial somado a uma cruel injustiça artística.

"Não dava para fazer muitos americanos engolirem isso"

Em 2011, enquanto promovia seu novo filme, a cinebiografia J. Edgar, a revista GQ perguntou a Eastwood qual de suas produções ele gostaria de recomendar ao público. O diretor citou imediatamente Cartas de Iwo Jima e relembrou o desempenho frustrante nos cinemas dos Estados Unidos:

"Nós o produzimos por apenas 12 milhões de dólares. No Japão, foi um sucesso estrondoso. Mas eu gostaria que mais pessoas o tivessem visto aqui — nem que fosse apenas para entender como a guerra afeta outras sociedades."

Eastwood destacou o "heroísmo constante de ser enviado a um lugar sabendo que nunca mais vai voltar", o que correspondia, segundo ele, à mentalidade com que os soldados japoneses eram mandados para o fronte. "Não dava para fazer muitos americanos engolirem isso", desabafou.

Na mesma entrevista, o cineasta lamentou a forte preferência do público por produções de super-heróis, que já começavam a dominar a indústria na época:

"Eu não tinha ilusões de que o filme faria mais sucesso do que fez. Mas eu só gostaria que o público se interessasse por algo além de histórias em quadrinhos."

Dotado de uma força emocional avassaladora, Cartas de Iwo Jima é um filme de guerra grandioso, situado no topo do gênero. É uma obra para ser guardada com carinho ao lado de outro clássico que adota a perspectiva nipônica, mas este assinado por um diretor nativo: o extraordinário e terrível Nobi, de Kon Ichikawa, que retrata o calvário dos últimos soldados japoneses sobreviventes nas Filipinas.

Cartas de Iwo Jima está disponível para streaming na Netflix e HBO Max.

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