"Na realidade, ele era um monstro": 14 anos após seus 5 Oscars, Mel Gibson apresentou uma versão muito diferente do herói retratado em Coração Valente
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

14 anos após o lançamento de Coração Valente, Mel Gibson respondia às críticas feitas ao seu filme, acusado de distorcer demais a história real...

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Há 31 anos (sim, já faz esse tempo...), Coração Valente, de Mel Gibson, chegava às telas. Esta visão da vida turbulenta de William Wallace — herói e símbolo da independência escocesa que, no final do século XIII, enfrentou as tropas do rei inglês Eduardo I após a invasão de seu país — marcou duradouramente a memória visual de todos os que descobriram a obra no cinema.

Triunfante no Oscar de 1996, o filme foi embora com cinco estatuetas, entre elas as de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Fotografia, assinada pelo imenso diretor de fotografia John Toll — o mesmo responsável pela fotografia absolutamente sublime de Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick.

Entre Mel Gibson e a História, há uma grande paixão. Coração Valente foi o primeiro marco, antes que o "Mad Mel" passasse a eviscerar ingleses a machadadas durante a Guerra de Independência americana em O Patriota (sob as bênçãos de Roland Emmerich); explorasse A Paixão de Cristo e mergulhasse na civilização maia com o impressionante Apocalypto, antes de dar um salto de vários séculos com o formidável filme de guerra Até o Último Homem.

"O que ofereço a vocês é uma experiência cinematográfica"

Além das evidentes qualidades artísticas de Coração Valente, alguns espíritos mais exigentes (e muito meticulosos...) torceram o nariz para os seus erros históricos. Em outubro de 2009, Mel Gibson defendia sua abordagem nas páginas do diário britânico Daily Mail (via @DannyDrinksWine), ao qual concedia uma entrevista.

Explicando que certas modificações haviam sido feitas por razões de efeito dramático, ele também admitia ter sempre sentido que tinha pelo menos dez anos a mais para encarnar Wallace. Mas a Paramount Pictures só topava financiar o filme com a condição de que Gibson assumisse o papel principal — o que ele acabou aceitando.

Alguns disseram que, ao contar essa história, distorcemos a realidade histórica. Isso não me incomoda, porque o que ofereço a vocês é uma experiência cinematográfica, e acredito que os filmes existem primeiro para entreter, depois para instruir, e por fim para inspirar. Provavelmente houve imprecisões históricas — e não poucas. Mas talvez não tenha havido, quem pode dizer, pois dispomos de muito poucas informações históricas sobre esse homem. Não foi necessariamente fiel à realidade. Pelo que li a seu respeito, ele não era tão simpático quanto na tela. Nós o idealizamos um pouco, mas essa é a linguagem do cinema: é preciso tornar as coisas aceitáveis do ponto de vista cinematográfico. Na verdade, ele era um monstro: cheirava sempre a fumaça porque passava o tempo incendiando aldeias. Era como o que os vikings chamavam de 'berserker'. Mas equilibramos um pouco as coisas, porque é preciso que haja um mocinho e um vilão, e cada história tem seu próprio ponto de vista. Esse foi o nosso.

Vale lembrar, aliás, que o próprio título do filme — Coração Valente — era, na verdade, o apelido dado a Robert the Bruce, ou seja, Roberto I, rei da Escócia. Este último travou, como mostra o final do filme, a batalha decisiva de Bannockburn em 1314, vencida sobre as tropas do rei Eduardo II da Inglaterra, que arrancou a independência da Escócia até 1707. Acrescente-se que a traição de Roberto em relação a William Wallace em favor dos ingleses, antes de se redimir no campo de batalha de Bannockburn, fez alguns historiadores arrepiarem os cabelos...

Mas tudo bem. Como Gibson lembrava com razão em suas declarações, trata-se de uma experiência cinematográfica. O que quer que se pense do homem, seu cinema permanece sempre portador de uma força visual pouco comum.

E, a esse respeito, teríamos adorado ver a primeiríssima versão de Coração Valente, que durava 3h45, antes que Gibson cortasse uma hora, como ele havia contado ao microfone da Collider em 2016, em uma entrevista que percorria toda a sua carreira.

Cenas nunca vistas, que ele estava disposto a reintegrar refazendo uma montagem do filme — com a única condição de que a Fox ou a Paramount financiassem o projeto. Dez anos depois, já conhecemos a (triste) resposta...

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