Há 54 anos, este brutal filme de faroeste escapou da classificação +18, mas teve que cortar 20 minutos de filmagem
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

Um grande filme antiguerra e revisionista do Oeste, cuja representação da violência causou um enorme impacto nos espectadores.

Em 29 de novembro de 1864, uma força de quase 800 homens a serviço do Exército dos Estados Unidos atacou e destruiu uma aldeia no sudeste do Território do Colorado, assassinando mais de 200 nativos americanos — a maioria mulheres e crianças — das tribos Cheyenne e Arapaho. Aquele massacre, liderado pelo coronel John Chivington, ficou historicamente conhecido como o Massacre de Sand Creek. Já foi muito polêmico à época, no trecho final da Guerra Civil Americana, e hoje o local onde ocorreu é considerado Sítio Histórico Nacional.

Inicialmente mal denominado "batalha", o Massacre de Sand Creek foi objeto de um filme pela primeira vez em 1970, servindo de contexto histórico para Quando é Preciso Ser Homem, de Ralph Nelson. Um faroeste cru e muito violento que, em seu lançamento, precisou cortar parte de sua metragem pelas intensas reações que provocava nos espectadores.

O diretor do filme, Ralph Nelson — que também era ator e, de fato, interpretava um papel nele —, não é especialmente lembrado hoje em dia, mas em sua trajetória se destacam obras importantes como Uma Voz Nas Sombras (1963), pela qual Sidney Poitier ganhou o Oscar de Melhor Ator — sendo o primeiro ator afro-americano a vencer nessa categoria —, Charly, pela qual Cliff Robertson também ganhou o Oscar, ou Papai Ganso, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original.

Com Quando é Preciso Ser Homem, Ralph Nelson entregou um faroeste impactante e revisionista, a meio caminho do cinema bélico, que na época recebeu muita atenção por sua representação da violência. Um filme sobre o citado Massacre de Sand Creek, considerado até hoje um dos piores crimes perpetrados pelo exército norte-americano.

Dois sobreviventes num deserto de cumplicidade

No longa, uma unidade de cavalaria da União transporta um baú cheio de ouro e também Cresta Marybelle Lee (Candice Bergen), uma mulher que esteve noiva de um membro da unidade até ser sequestrada pelos cheyennes dois anos antes, mas conseguiu escapar. Quando o grupo de soldados é atacado por uma tropa de guerra cheyenne, apenas Cresta e o jovem soldado Honus Gant (Peter Strauss) sobrevivem ao ataque.

Em busca de ajuda, eles iniciam uma caminhada pelo deserto durante a qual precisam aprender a se entender, e à medida que o relacionamento avança, Cresta vai convencendo cada vez mais Honus de que o estilo de vida indígena não só não é inferior, mas é moralmente superior ao dos brancos. Quando Honus e Cresta finalmente chegam a uma base militar, uma campanha de vingança contra os Cheyenne está sendo preparada. Ambos são obrigados a assistir, impotentes, a um massacre em que o exército não poupa nem mulheres nem crianças.

"Um morticínio covarde executado a sangue-frio"

Um dos filmes que, a partir dos anos 1960, começaram a virar de cabeça para baixo o glorioso mito da conquista do Oeste — que sempre reservava os papéis de vilões às populações indígenas — e a expor as ações cruéis dos brancos, Quando é Preciso Ser Homem abordou o massacre com brutalidade, mostrando como ali foram cometidos assassinatos, estupros e mutilações, que os próprios soldados carregavam como troféus. Um massacre que mais tarde seria descrito por um juiz do exército, durante uma comissão de investigação, como "um morticínio covarde executado a sangue-frio, suficiente para cobrir seus perpetradores de infâmia indelével e encher de vergonha e indignação o rosto de todo americano", segundo registram os colegas da AlloCiné.

O Massacre de Sand Creek compõe a parte final do filme e o resultado na tela era tão violento que a cena foi reduzida em quase vinte minutos para evitar receber a classificação +18 nos Estados Unidos.

Embora com o passar do tempo tenha sido considerada uma obra singular — a BBC a descreveria em 2004 como "um dos filmes americanos mais importantes já realizados" — e seja objeto de estudo em escolas de cinema, Quando é Preciso Ser Homem foi um fracasso nas bilheterias americanas, com uma arrecadação de pouco mais de um milhão de dólares.

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