Doa a quem doer: A história do novo Resident Evil é legítima - e quem reclama está ignorando o espírito dos jogos
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.

Primeiro trailer da adaptação de Zach Cregger, de A Hora do Mal e Noites Brutais, levantou uma série de questões na comunidade de fãs - e chegou o momento de começarmos a debater sobre isso.

Já se foi o tempo em que o tópico “adaptação de videogame” deixou de ser sinônimo de baixa qualidade. Produções como Castlevania, The Last of Us, Sonic, Super Mario Bros, Um Lobo Entre Nós e muitas outras já mostraram que é possível fazer uma releitura interessante para o cinema ou para a TV. No entanto, há uma franquia presa em um vórtice de tentativas nada sólidas: Resident Evil.

Ainda que a fé esteja falhando e muitos já tenham desistido no caminho, existe uma luz no fim de um túnel recheado de puzzles, armadilhas e armas biológicas, um filme dirigido por um dos nomes mais promissores da atualidade, Zach Cregger. Hoje, com o lançamento do primeiro teaser trailer do projeto, algo que parte da comunidade de fãs já havia manifestado se intensificou: (mais) uma insatisfação com detalhes que fazem o filme ser tão instigante quanto alvo de tensão, o fato de ser uma história completamente original.

Enquanto Resident Evil vive momento de ouro nos games, tenta se reerguer do desgaste nos cinemas

Primeiramente, um pequeno recap: desde que George A. Romero tentou levar o charme de A Noite dos Mortos Vivos à franquia, na época em que os primeiros jogos estavam assustando jovens e adultos por todo o mundo, as adaptações de Resident Evil passam por turbulências dignas de qualquer helicóptero na franquia - e foram muitos!

Uma vez que o primeiro live-action foi por água abaixo, a Sony e a Constantin Films chamaram Paul W.S. Anderson para dar seu próprio toque à saga. Na época, ele já havia adaptado um game, Mortal Kombat, e tinha acabado de dirigir O Soldado do Futuro. Deste acordo nasceu O Hospede Maldito, aquele que talvez seja a melhor produção baseada nos jogos até hoje.

Desde que Milla Jovovich e seu marido se tornaram os nomes da série de filmes, 7 capítulos decorreram pelos cinemas. A situação é bem engraçada: quanto mais os fãs e a mídia especializada ficavam assustados pelo o que era apresentado - um mix de referências aos títulos, alguns personagens, uma super-heroína clonada milhares de vezes e roteiros picotados -, o lucro destes projetos só cresceu. Não é à toa que isso durou por 14 anos.

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Quando a fórmula se esgotou e os números impressionantes caíram, a franquia iniciada em 2002 teve um fim. Porém, como qualquer vilão da série, há sempre uma nova mutação por vir. Essa, embora honesta em suas intenções, passou pela precarização de um baixíssimo orçamento (foram apenas 25 milhões de dólares para recomeçar a história), escolhas tristes no elenco com o Leon de Avan Jogia odiado pelo público e a tentativa de contar a trama de dois jogos em um filme de um hora e quarenta e sete minutos.

A generosidade de muitos fãs - eu incluso - em ver como esse projeto B era a cara da atmosfera de Resident Evil não ajudou muito em salvar Bem-Vindo a Raccon City do desastre. A única coisa boa, na verdade, foi a escalação da atriz “quase brasileira” Kaya Scodelario e algumas caracterizações práticas. Entende o desgaste?

O drama do novo Resident Evil

Esses fatores, com oito projetos nas costas da produtora alemã Constantin Films, fizeram com que muitos brincassem que Resident Evil era uma propriedade intelectual impossível de ser adaptada, uma franquia que só poderia funcionar nos videogames. Eis que, após uma disputa de diferentes estúdios, a Sony anunciou que ninguém menos do que Zach Cregger seria o responsável por um novo reboot da saga e, pela primeira vez em anos, houve um pouco mais de esperança.

Após as comemorações da audiência quanto à escalação do diretor, especialmente devido ao sucesso dos ótimos e disruptivos A Hora do Mal e Noites Brutais, as coisas começaram a ficar esquisitas novamente. Nas primeiras declarações oficiais, o cineasta logo jogou um balde de água fria nas pessoas: o novo filme não seria uma adaptação da história de nenhum jogo, mas uma narrativa original passada durante os eventos da jogatina.

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Em um primeiro momento, isso foi um tanto assustador, mas estamos falando de um diretor que, até então, entregou ótimas histórias ao público. De lá para cá, algumas informações deixaram a audiência dividida até chegarmos ao dia de hoje, quando a Sony lançou o primeiro registro oficial do filme. Uma prévia que confirma algumas coisas: o realizador parece ter conseguido colocar a sua assinatura em uma adaptação; à primeira vista, a produção realmente parece se distanciar da saga em termos mais diretos; e este filme pode ser a redenção de Resident Evil nos cinemas, contanto que os fãs confiem no processo.

Aqui vai a sinopse: "Em uma história totalmente inédita, Resident Evil acompanha Bryan (Austin Abrams), um entregador médico que, sem querer, se vê em uma corrida frenética e cheia de ação pela sobrevivência, enquanto uma noite fatídica e horripilante desmorona ao seu redor".

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Levando em consideração o conteúdo compartilhado hoje, uma matéria de visita ao set do Screen Rant e as declarações do cineasta, este filme tem o potencial de ser tanto uma obra-prima do terror como uma excelente adaptação do universo de Resident Evil.

O que o trailer apresenta é um personagem inédito lutando pela vida em uma cidade colapsada por zumbis e monstros, com trechos em que ele precisa organizar seus itens, andar com cautela em esgotos e ruas desertas, fugir de zumbis em lugares fechados, levar itens de um pouco a outro, encontrar armas para, enquanto cresce em sua jornada, lutar contra essas criaturas. Reconhece essa estrutura? Esses elementos estão em basicamente todos os jogos.

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Ver alguém desconhecido neste mundo sombrio acabou me lembrando de algo que a própria Capcom tem remexido recentemente: Resident Evil: Outbreak. Ao trazer Grace Ashcroft, uma personagem conectada ao famoso multiplayer da franquia, em Resident Evil Requiem, a desenvolvedora fez questão de fazer o público resgatar memórias de pessoas comuns que conseguiram, assim como Leon, Claire, Jill, Carlos e Chris, sobreviver aos horrores de Raccoon City. Bryan poderia ser apenas mais um desses civis.

Outro aspecto que ajuda a construir essa identidade de Resident Evil é que, uma vez que se mantenham estes elementos costumeiros dos jogos - os puzzles, as criaturas, o perigoso backtracking, a falta de recursos e o ar pitoresco que é inegável em todos os capítulos da franquia -, a série de jogos sempre esteve mudando.

Foi do puro survival horror dos dois primeiros títulos para uma jogatina com um novo mecanismo no terceiro, ainda que Nemesis tenha feito muita gente desistir. Abraçou a ação em RE4 e RE5, seguido de uma confusão tremenda no sexto game. Após um breve salto, assistimos (e jogamos) ao ressurgimento da IP na perspectiva de Ethan, com uma história inspirada em O Massacre da Serra Elétrica.

Amamos Lady Dimitrescu na atmosfera gótica e quase sobrenatural de Village. Recentemente, voltamos a experimentar a ação e o terror acompanhados do veterano Leon e da novata Grace. Consegue ver? Resident Evil sempre sofreu mutações, embora sua essência tenha sido preservada. Este é só um ponto para nos lembrar de que uma adaptação cinematográfica tem muito material para se inspirar e a liberdade para ser diferente.

Quanto ao que foi compartilhado pelo veículo norte-americano, Bryan passará por esgotos, laboratórios secretos e locações que remetem diretamente aos games, já que a trama toda se passará em paralelo aos eventos de Resident Evil 2. Foi compartilhado ao jornalista pelo diretor de arte Tom Hammock que o filme terá muitos efeitos práticos e muito sangue falso (foram cerca de 500 galões usados), incluindo ervas verdes e chaves em formatos especiais, em uma tentativa de replicar a cidade vista no game lançado em janeiro de 1998. Será que veremos a delegacia? A loja de armas do Kendo? A expectativa é que sim.

"Ah, mas em Raccoon City não tem neve!", disseram alguns fãs. De fato, essa foi uma escolha curiosa da produção, que poderá ser respondida em breve com a chegada do projeto. Uma vez que trata-se de uma versão completamente nova, contanto que mantenha os elementos principais nos trilhos e o espírito do survival horror, com direito a toda a estrutura que faz um Resident Evil ser tão característico, existe a expectativa de que veremos um ótimo filme nos cinemas a partir de 17 de setembro.

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Imagina ver um longa "classudo", com uma ótima direção, elementos dos games e uma trama original que entrega frescor em meio à nostalgia. É óbvio que, apesar de tudo, o longa pode ser ruim tanto como terror quanto como uma adaptação. Mas só descobriremos com certeza nos próximos meses.

Por fim, é sempre bom lembrar: Resident Evil nunca foi apenas sobre matar zumbis (até porque eles foram infectados na tentativa de criarem armas biológicas), mas sobre encarar as consequências da monstruosidade humana em disputas constantes por poder, ciência e influência política.

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