Antes de O Pacto dos Lobos, Silent Hill ou A Bela e a Fera, o diretor Christophe Gans encenava seu primeiro longa-metragem em 1995. O francês nos oferecia um objeto de cinema que se tornou cult, mas que está injustamente esquecido.
Lançado nos cinemas franceses em 24 de abril de 1996, O Combate - Lágrimas do Guerreiro despertou um entusiasmo considerável, reunindo mais de 600 mil espectadores nas salas. É um número expressivo, considerando que o diretor Christophe Gans estava dirigindo seu primeiríssimo filme e que o ator principal, Mark Dacascos, era praticamente um desconhecido na época.
Ex-editor-chefe da revista Starfix e apaixonado por cinema asiático e cultura pop, Christophe Gans era a escolha ideal para dirigir esta adaptação do mangá criado por Kazuo Koike e Ryôichi Ikegami em 1986.
Um assassino que desafia os códigos em O Combate - Lágrimas do Guerreiro
Após uma abertura estilizada ao extremo, a narrativa nos leva às colinas de San Francisco. Emu O’Hara, uma jovem solitária, vê sua vida mudar drasticamente quando presencia a execução de um gângster japonês. O assassino, de uma beleza perturbadora, age com um sangue-frio desconcertante… antes de deixar escapar uma lágrima inesperada.
Pouco antes de desaparecer, ele sussurra um nome: Yo. De volta a Vancouver, ainda assombrada pela cena, Emu pinta em uma tela o rosto desse desconhecido que a obceca. Mas, ao se tornar uma testemunha-chave, ela se vê no centro de uma engrenagem perigosa.
De um lado, um clã yakuza liderado por Shimazaki, decidido a vingar a morte de seu filho usando Emu como isca para atrair o misterioso assassino. Do outro, o inspetor Netah, um agente da Interpol com ligações ambíguas, tenta desvendar os segredos da jovem, que se fecha em silêncio.
Por fim, paira a sombra dos 108 Dragões, uma organização secreta temível: Yo, o executor deles, apelidado de "Freeman", recebe a ordem de eliminar aquela que poderia revelar sua identidade. Presos em uma teia de violência e fascínio, Emu e seu carrasco parecem ligados por um destino tão perigoso quanto inexplicável.
Violência e estética
Influenciado pelo cinema de John Woo, Christophe Gans inspira-se muito em seu ilustre antecessor para nos oferecer uma direção ao mesmo tempo rítmica e poética. Combates épicos, câmeras lentas estilizadas; o cineasta se diverte com a câmera, sublimando a atuação brilhante de um Mark Dacascos em estado de graça.
20 anos depois, O Combate - Lágrimas do Guerreiro influenciaria outro grande clássico da ação: John Wick. Keanu Reeves também encarnaria um assassino implacável, adepto do "Gun Fu" e de execuções estetizadas. Algumas cenas também evocam Matrix, três anos antes do lançamento da obra cult das irmãs Wachowski.
A sequência final com Yo e Koh de terno e óculos redondos certamente inspirou Lana e Lilly Wachowski para Neo e Morpheus. Curiosidade: Koh é uma espécie de mentor para Yo, assim como Morpheus era para Neo. Na versão francesa, é Pascal Renwick quem empresta sua voz a Koh, o mesmo que dublaria Morpheus três anos mais tarde. Uma estranha coincidência!
Seja com arma de fogo, katana ou punhal, Mark Dacascos deleita os fãs, dinamitando de passagem o clichê do herói de ação "bombado". Muito esguio e elegante, o ator oferecia ao público um físico diferente, assim como Bruce Willis fizera antes dele em Duro de Matar. Assim, no início dos anos 90, esses personagens aposentavam os brutamontes excessivamente musculosos de Stallone ou Schwarzenegger.
Além disso, Yo não é, de forma alguma, um assassino comum. Ele está longe dos estereótipos do herói de filmes de ação. É um assassino forçado, que chora por suas vítimas. Esse contraste entre a máquina de matar e o homem sensível que ele é no fundo confere ao personagem uma aura trágica muito marcante.
Sensualidade e erotismo
Por outro lado, O Combate - Lágrimas do Guerreiro não é um simples filme de ação. Um pouco à maneira de Wong Kar-wai, ele impõe uma espécie de poesia sensual à sua narrativa, especialmente na forma de filmar as cenas de amor, como a entre Yo e Emu, ou a entre Lady Hanada e Netah (interpretado por um surpreendente Tchéky Karyo).
Entre o noir, o romance trágico, o filme de artes marciais e o painel erótico, O Combate - Lágrimas do Guerreiro mistura os códigos. Essa hibridização o torna único, mas também desconcertante, o que geralmente contribui para o seu status de filme cult. Além da violência, o longa-metragem baseia-se em uma tensão sexual e emocional constante entre Emu e Yo, dando à narrativa uma dimensão quase operística.
Ao permanecer muito fiel ao mangá original, Christophe Gans não tentou de forma alguma suavizar sua violência estilizada nem seu erotismo. Essa escolha foi bastante ousada para a época. 30 anos após seu lançamento, O Combate - Lágrimas do Guerreiro continua sendo um objeto de cinema excessivo, belo e estranho, que assume plenamente seu estilo e suas obsessões.