Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Digger

Com Digger, Tom Cruise mostra que nenhum papel é uma missão impossível para ele

por Aline Pereira

“Eles sabem os fatos, mas a história ainda está para ser contada", nos diz um momento de Digger, empreitada do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu (O Regresso) em uma inédita – e acertada – parceria com Tom Cruise, irreconhecível, dramático e empenhado até o último fio de cabelo no protagonismo. É ao redor desta ideia de fatos versus narrativa que gira uma história recheada de propostas reflexivas e momentos alucinantes.

O longa começa nos apresentando a Digger Rockwell, um excêntrico magnata que precisa lidar com as consequências catastróficas de uma "falha” (muitas, muitas aspas) em seus negócios, que tem potencial para destruir a humanidade. As estratégias para manejar a crise envolvem alguns dos homens mais poderosos do mundo, liderados pelo presidente do Estados Unidos, Compson (em uma atuação rouba-cena de John Goodman) e as táticas, é claro, são as mais escusas.

Digger é uma surpresa febril que recompensa público com teatro de Iñárritu e Tom Cruise

A história de Digger começa antes mesmo dos créditos iniciais, em um marketing de divulgação que escolheu não revelar exatamente o assunto da trama. Uma estratégia que contrabalanceia o risco de frustrar o público com o poder de um astro tão emblemático quanto Tom Cruise: o nome dele, por si só, é o evento e a proposta do filme o segue.

Para mim, deu certo, especialmente porque é rara hoje a sensação de chegar à sala de cinema sem saber o que esperar e acho que a surpresa é bem-vinda. No que diz respeito ao fator “inesperado", penso que é melhor não entrar em detalhes para manter a experiência mais completa. Mas há ainda muito mais do que isso.

A primeira impressão que tive com Digger, logo nos primeiros minutos de filme, em que vemos o protagonista em uma mansão estranha cheia de adornos e aparições ainda mais estranhas, foi a de um sonho febril. Entende? O momento em que a temperatura alta do corpo faz a mente chegar perto de uma alucinação? É essa a sensação que predomina até que o longa exponha gradualmente suas verdadeiras intenções e traga o público para dentro de seu próprio ritmo.

Aqui, Alejandro G. Iñárritu explora o que, para mim, é a assinatura mais atrativa dele: o borrão na fronteira entre o que está claro e o que está escondido - aqui entre realidade e ficção -, em alguns momentos que me lembraram muito, por exemplo, o clima de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). O cineasta, aliás, repete a parceria com o premiado diretor de fotografia de Birdman e O Regresso, Emmanuel Lubezki, e o resultado é a construção de um mundo que pode até parecer um exagero para alguns espectadores (por que é, sim, bem dramático), mas que é eficiente na proposta de causar desconforto e estranhamento.

Ego, poder e manipulação: Digger sabe quem são seus alvos

O que começa como uma história ao estilo "mate os ricos” revela-se uma crítica política direta, com alvos claros e mensagem impossível de não captada. O longa cria, então, quase uma fábula para cutucar as feridas que quer e, principalmente, o perigo da manipulação da informação.

Os homens poderosos com quem Digger discute o futuro da humanidade pouco se importam com a ciência dos fatos (representados aqui pelo ótimo Riz Ahmed no papel de um cientista), mas entendem como ninguém o poder de uma boa narrativa: ganha quem tiver a história mais convincente para contar. E se forem necessárias algumas (muitas) mentiras para isso, tudo bem por eles.

Nesse sentido, é interessante que Iñárritu tenha começado a pensar no filme muitos anos antes, já que o que há nele parece bem contemporâneo, como se fosse uma história pensada pós pandemia e na ascensão das fake news. O que, aliás, é um sinal triste de que estamos sempre às voltas com os mesmos problemas.

Tom Cruise é excelente – e todo o restante do elenco também

Digger nos mostra que nenhum tipo de papel parece ser realmente uma missão impossível para Tom Cruise e fica clara a dedicação do ator ao papel e à campanha para a temporada de premiação de 2027. Apesar de icônico nos papéis de ação, Cruise já teve relevantes performances dramáticas, mas elas são bem diferentes de Digger. Aqui, coberto por próteses corporais e faciais, ele precisou tomar caminhos diferentes para atuar e temos, então, um personagem bastante caricato em alguns momentos e mais contido em outros.

Acredito fortemente que esta estará entre as performances mais emblemáticas da carreira do ator quando olharmos, no futuro, para sua célebre filmografia. Sem seus famosos "stunts" e quase irreconhecível, Tom Cruise faz jus ao status de ícone, mas nem só de protagonista vive o filme.

John Goodman (O Grande Lebowski) é um coadjuvante inusitado: se Digger é um exagero em tudo, o presidente Compson interpretado por ele é três vezes mais no papel de um líder político histérico. Com as veias cômicas completamente abertas, é preciso algum tempo para entender o encaixe do personagem na obra: quando isso acontece, tudo faz sentido, mas o longa exige do público alguma paciência para esperar pelo rodeio que faz em volta do assunto.

Vale destacar também o trabalho de Riz Ahmed (O Som do Silêncio) como o contraponto racional que luta para não ser esmagado… E bem, os anos de pandemia nos ensinaram como funciona a batalha entre política e ciência quando a situação fica realmente grave. Completando o time de maior destaque, temos a atriz alemã Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda e Devoradores de Estrelas) e Jesse Plemons (Bugonia). Um time talentoso, com perfis e estilos diversos, que compõem uma estranheza que é, ao mesmo tempo, caótica e cuidadosamente orquestrada.

No fim, vejo Digger como um "filme-evento", uma obra que conta com o carisma de um dos maiores astros da história de Hollywood e com a personalidade de um diretor autoral, mas que, assim como sua estrela, entende o poder do entretenimento. É um filme que, de fato, entretém, mas que pede um olhar mais aberto de seu público. Se você quiser e conseguir, é uma experiência que tem tudo para permanecer na memória.