Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Tô Ryca

Pobre menina rica

por Francisco Russo

Que as comédias são o carro-chefe do cinema brasileiro, ao menos em relação a público, isto não é novidade. Entretanto, nos últimos tempos o gênero vem passando por uma certa subdivisão, de olho em atingir determinado público específico. Tô Ryca atinge justamente este interesse, já que dialoga diretamente com as classes C e D, as mesmas que passaram a frequentar o cinema com mais assiduidade nos últimos anos.

Tal objetivo fica muito explícito logo na abertura, onde várias peculiaridades da classe mais pobre são ressaltadas. Dos problemas de transporte nas grandes cidades ao modo de se vestir e agir, a personagem de Samantha Schmütz é o reflexo de seu público-alvo - e, talvez por isso, provoque a imediata ira nos mais radicais. Tô Ryca também oferece a Samantha a aguardada oportunidade de enfim ser protagonista, após tantas participações coadjuvantes na tela grande - e, no fim das contas, ela é um dos poucos motivos para sorrir no longa-metragem.

Completamente à vontade em cena, Samantha constrói sua Selminha de forma bem descontraída. Frentista em um posto de gasolina, ela é surpreendida com a notícia de que um tio milionário lhe deixou R$ 300 milhões como herança, mas apenas se cumprir a tarefa de gastar R$ 30 milhões em apenas um mês. Detalhe: não pode ter bens em seu nome e possui uma taxa de apenas 5% para doações e jogos de azar. Ou seja, o objetivo da missão é realmente abrir a carteira e gastar à vontade.

Se a missão designada pelo tio é o estopim da saga da "pobre menina rica", que tem dinheiro à vontade e aos poucos percebe que nem tudo na vida é possível comprar, por outro lado escancara a fragilidade do roteiro, escrito por Fil Braz (Minha Mãe é uma Peça). Existe uma imensa lacuna sobre a motivação que o tal tio teria para propôr um desafio do tipo, assim como certas transições da vida de Selminha são extremamente bruscas - é o que acontece com sua entrada e saída da política, ambas apresentadas de forma repentina. Sem falar no fato de que, mesmo com tal desafio, havia um jeito fácil de cumpri-lo: bastava viajar mundo afora e se hospedar nos hotéis mais caros de cada cidade. Só que, neste caso, não haveria filme.

Diante de tais características, resta a Tô Ryca beber da mesma fonte de Vai que Cola e Um Suburbano Sortudo, no sentido de explorar os conflitos morais e de comportamento entre classes sociais. A sequência na boate, onde uma patricinha interpretada por Fiorella Mattheis reclama do funk, é o melhor exemplo deste confronto pré-estabelecido, que surge também na tentativa de golpe aplicada pelos banqueiros e no próprio conflito nos personagens de Fabiana Karla e Marcus Majella. O dinheiro corrompe, é a mensagem transmitida, baseando-se também na ideia de que a honestidade é intrínseca aos mais pobres.

Curiosamente, é no confronto entre ricos que Tô Ryca enfim diz a que veio. A disputa política entre Selminha e Falácio (Marcelo Adnet, bem caracterizado), um típico político conservador associado a feudos religiosos, traz momentos divertidos que refletem bem a atual composição política do Brasil. Afinal de contas, o jeito escrachado e descrente de Selminha é bem parecido com o de candidatos como Tiririca, cuja plataforma se baseia mais na tragédia atual da política nacional do que em qualquer proposta. O mesmo vale para o personagem de Adnet, que, por mais que seja estereotipado, pode ser perfeitamente associado ao crescimento da bancada evangélica.

Bastante caricato e com enquadramentos tipicamente televisivos, Tô Ryca se sustenta apenas no carisma de Schmütz e nesta vertente política, pelo reflexo do Brasil atual. Por mais que não seja uma comédia original nem muito elaborada, ao menos não ofende o espectador - e isso, em meio a péssimos filmes como os coirmãos Até que a Sorte nos Separe e Um Suburbano Sortudo, já é algo a comemorar.