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    Assédio: Monica Iozzi comenta sobre viver sua primeira personagem dramática na televisão (Entrevista)
    Por Vitória Pratini — 25 de set. de 2018 às 09:38
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    Elenco da minissérie também exaltou necessidade de combater o machismo e quebrar o silêncio das mulheres.

    Assédio Trailer Oficial

    Assédio, série estrelada por Antonio Calloni, chegou ao Globoplay na última sexta-feira (21). A produção — inspirada na história real de Roger Abdelmassih, médico acusado de violentar sexualmente suas pacientes — teve direção e roteiro de mulheres, assim como um elenco predominantemente feminino.

    A série conta com direção artística de Amora Mautner e roteiro de Maria Camargo, a partir do livro "A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih", de Vicente Vilardaga. "Não é sobre fazer um documentário", esclareceu Camargo na coletiva de imprensa, explicando que a produção tem parte história real, parte ficção, e que foi feita uma pesquisa extensa para construí-la. "As histórias são muito poderosas, a ficção entra na cabeça das pessoas por canais não jornalísticos, e vem em um momento apropriado."

    "Essa série tem uma função social grande para os dias de hoje. É necessária. Precisa para hoje, para ontem", exaltou a atriz Bárbara Paz, intérprete de uma das vítimas do médico Roger Sadala (Antonio Calloni). Mariana Lima, que vive Glória, a esposa de Roger, completou: "Assédio faz parte da nossa cultura, é um tema difícil, que foi alçado à categoria de arte. Especialmente porque dá uma sensação de atualidade terrível, por termos um candidato à presidência que promove tudo isso como modo de vida."

    De acordo com Monica Iozzi, a presença feminina tem um caráter muito simbólico para a série. "Estamos falando de uma violência que nós sofremos, é um olhar que só nós teremos. Não é que seria melhor ou pior se fosse feita por um homem. É a importância do lugar de fala. [Amora Mautner] dirigindo, [Maria Camargo] escrevendo, elas conseguem colocar uma verdade que dificilmente um homem conseguiria alcançar", disse a atriz, em entrevista ao AdoroCinema. "Foi a primeira vez que eu fui dirigida por uma mulher, na TV e no cinema", completou ela.

    Globo
    Monica Iozzi como Carmen.

    Iozzi intérpreta Carmen, outra vítima de Sadala. "O trabalho de atriz tem uma coisa muito intuitiva, de se distanciar do que a personagem está sentindo. Mas colocar-se em uma situação como essa, de assédio, é muito difícil. Foi o trabalho mais difícil que eu já fiz, e também o mais gratificante."

    Assédio é seu primeiro trabalho com viés dramático desde 2009, nos teatros. "Eu sou completamente apaixonada pela comédia, é o que pretendo fazer para o resto da minha vida, seja improvisando, como apresentadora ou com papéis cômicos. Mas eu realmente estava sentindo muita falta de trabalhar no drama. É precioso mostrar para o público um pouco do meu trabalho nesse outro registro, dentro de um projeto tão bom", comentou a atriz.

    Elisa Volpatto, por sua vez, acredita que assédio é uma temática importante a ser debatida. "É um tema que já está pulsando há muito tempo e, hoje, mais do que nunca, as mulheres não estão ficando mais caladas, saindo desse lugar de subordinação, querendo se colocar, falar, querendo ser ouvidas. É o tempo também dos homens ouvirem e estarem atentos a isso", disse, em entrevista do AdoroCinema.

    Globo / Ramón Vasconcelos
    Antonio Calloni como Roger e Elisa Volpatto como Mira.

    Volpatto faz o papel de Mira, uma personagem ficcional inspirada em diversos jornalistas que fizeram parte da investigação do médico estuprador ao longo da história. "O papel da Mira é tão importante e tão bonito, que dá voz a essas mulheres, a esse grito de socorro, que muitas delas não tinham capacidade de falar sobre aquilo, num estado de fragilidade extrema", comentou a atriz. "Sinto que é um assunto urgente porque fico pensando que, se essas mulheres não tivessem tido a oportunidade de confiar a alguém, a uma jornalista, que depois consegue, com esses depoimentos, de abrir um inquérito no Ministério Público para acusar o médico, elas talvez nunca tivessem sido ouvidas. E isso teria sido abafado mais uma vez, que é uma coisa que se repete, e não estamos mais nesse lugar de ficar caladas."

    Claro que não é só de mulheres que é construída Assédio. O protagonista e assediador, Roger Sadala, é vivido por Antonio Calloni, que precisou "abrir suas gavetas" para encarnar o personagem. "Eu vi muitos depoimentos do Roger real, no YouTube, e eu acho que temos todas as possibilidades dentro da gente", explicou ele ao AdoroCinema sobre interpretar, ao mesmo tempo, um homem cruel, mas amoroso com sua família.

    Globo/ Ramón Vasconcelos
    A família Sadala.

    "Nada que é humano me é estranho", continuou Calloni. "Dá para existir um personagem que age de um jeito com a família, e de outro jeito, no trabalho dele, por exemplo. Isso não é uma coisa impossível, isso não vem de fora. Todos nós temos essa possibilidade, o que temos que fazer é escolher bem para se dar bem com as pessoas e com o mundo. Mas isso é absolutamente compreensível. Dá para entender, não que eu concorde, mas eu compreendo, porque é uma coisa que faz parte da história da humanidade, essas várias facetas que todo mundo tem."

    Os maridos das vítimas também são parte importante da produção. Um deles é Odair, interpretado por João Miguel. Quando descobre que sua esposa (Hermila Guedes) foi estuprada, ele acaba culpando-a. "[Meu personagem] é uma pessoa muito simples, extremamente apaixonada por sua mulher, sonhando junto com ela em ter um filho. E se depara com essa situação onde ele, de alguma maneira, veste a carapuça do machismo", revelou Miguel ao AdoroCinema. "Então a maneira como ele reage, já é dentro dessa questão cultural, com o machismo entranhado no cotidiano. É um conflito contínuo do amor sendo reprimido e desse preconceito sendo instalado nele. Mas eles acabam se entendendo quando a justiça é feita, a partir do momento em que os casos do Roger são deflagrados e ele passa a olhar isso com outros olhos."

    Globo/ Ramón Vasconcelos
    Hermila Guedes e João Miguel em Assédio.

    Durante a coletiva, o elenco explicou que a série é sobre o movimento do silêncio, das mulheres que se mantém caladas, e da quebra dele, quando elas conseguem a coração para enfrentar Roger. Entretanto, foi comentado que, muitas vezes, os homens, por falta de orientação e educação, não sabem a diferença entre cantada e assédio.

    Posteriormente, conversando com o AdoroCinema, Monica Iozzi comentou que a produção mostra bem isso. "A palavra 'monstro' tira um pouco a configuração do que é. Eles não são monstros", revelou, sobre os assediadores. "São homens completamente comuns, amorosos. Não existe a figura do monstro, eles estão entre nós, então temos que prestar atenção", disse ela, e exaltou como o assédio poderia ser comentado: falamos muito sobre como as mulheres têm que se defender, se cuidar, mas temos que falar muito sobre a criação dos homens. O machismo atinge tanto as mulheres quanto os homens, os meninos desde pequenos recebem a orientação de que homem não chora; não podem se apaixonar, tem que pegar todas as meninas. Isso precisa ser mudado."

    Assédio: Minissérie sobre médico estuprador reconta história real sob a perspectiva das vítimas (Primeiras Impressões)

    Retratando uma temática forte sob a perspectiva das mulheres, todos os episódios de Assédio estão disponíveis no Globoplay.

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    • Jonathan K
      Não vou ter tempo para assistir, uma pena.
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