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O Mecanismo: Boas atuações não salvam estrutura batida e roteiro desequilibrado (Crítica da 1ª temporada)
Por Lucas Salgado — 24/03/2018 às 12:00
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Série de José Padilha e Elena Soarez já está disponível na Netflix.

Nota: 2,5 / 5,0

"No Brasil, a definição de justiça no dicionário não contém as palavras equilíbrio e imparcialidade", diz a narração de O Mecanismo em importante momento da trama. Não que seja o objetivo da série buscar justiça, mas é certo que um pouco mais de equilíbrio era bem necessário para a produção. 

Já sobre imparcialidade... Há de se reconhecer o esforço dos criadores José PadilhaElena Soarez e o time de roteiristas de tentarem vender a ideia de que o tal mecanismo engloba todas as partes, da esquerda e da direita, do Presidente da República ao funcionário da companhia de água, passando pelo jovem da classe média e alta que falsifica carteira de estudante e dá uma "cervejinha" para o policial. Por alguns momentos, a série consegue bem vender essa imagem. Em outros, no entanto, fica clara uma postura tendenciosa por parte da mesma, como quando vemos o personagem do ex-presidente (claramente inspirado em Lula) usando frases como "estancar a sangria" e "construir um grande acordo nacional". Usar fala do notório diálogo entre Sérgio Machado e Romero Jucá como sendo de Lula é algo pra lá de desonesto, e isso é algo que deveria ser claro para pessoas das mais diversas visões ideológicas.

Padilha é um diretor muito talentoso e com grande domínio da narrativa. Ele usa a experiência de Tropa de EliteNarcos para criar um jogo investigativo realmente instigante à princípio, no qual os espectadores se envolvem com os protagonistas, os detetives Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena (Caroline Abras). Ótimos atores, os dois dividem a função de narradores da história. Neste sentido, o diretor demonstra uma insegurança já tradicional, apelando para o mesmo voice over dos trabalhos mais famosos. Há sempre a necessidade de uma narração explicando os buracos do roteiro e o sentimento por trás das ações, o que é bastante incômodo. 

Ainda assim, o lado da investigação policial funciona, principalmente por mostrar os conflitos internos com o Ministério Público e por não tentar transformar os personagens em super-heróis. Mas se por um lado a série acerta ao criar policiais complexos e interessante, escorrega na figura idealizada do juiz Rigo (obviamente Sérgio Moro). Aqui, não há de se fazer uma análise da pessoa real do juiz, mas o visto na ficção é absolutamente superficial. A série até retrata a vaidade de Rigo, mas o coloca em uma posição bem acima do bem e do mal. Tudo é muito idealizado. É o sujeito que anda de bicicleta, monta a cortina do chuveiro e demonstra felicidade ao dar autógrafo na rua. Os realizadores chegaram ao ponto de colocá-lo lendo uma HQ chamada "Vigilante Sombrio", numa demonstração clara da falta de sutileza do roteiro.

Mello surge bastante afetado no primeiro episódio, mas melhora a seguir. Já Abras mantém uma boa performance por todos os capítulos, embora a trama romântica de sua personagem quase nunca funcione. A presença de uma mulher forte em um ambiente tradicionalmente masculino é fascinante. Mas ao mesmo tempo, o roteiro trata de prejudicar tal personagem com uma trama envolvendo um relacionamento instável, algo previsível e desinteressante.

Dentre os vilões, o destaque vai para Enrique Diaz no papel do doleiro Roberto Ibrahim (Alberto Youssef na vida real). O veterano ator transborda carisma, chegando ao ponto de conquistar o espectador. Em menor escala, é mais ou menos o que acontece com Pablo Escobar em Narcos.

Nova série brasileira da Netflix, O Mecanismo passa boa parte de seus oito episódios tentando se vender como isenta. E se você precisa falar tantas vezes que é isenta, bom sinal não é. Há referências a Aécio Neves e Michel Temer (sempre usando um nome falso), e aponta para aprofundar no processo do Impeachment numa eventual segunda temporada.

Dirigida por Padilha, Marcos PradoFelipe Prado e Daniel Rezende, a série é enxuta, contando apenas com um episódio mais longo (o último). Ainda assim, não consegue deixar de ser repetitiva ao oferecer as mesmas jornadas várias vezes. Isso vale para arcos de personagens, mas também para situações que se repetem, como o personagem que é preso/detido inúmeras vezes e em todas acompanhamos o efeito da situação em um familiar.

Colunista político de um jornal, Padilha talvez seja muito próximo do assunto para tratar do mesmo. Na verdade, acho que qualquer pessoa no Brasil hoje é muito próxima do assunto. Não há um distanciamento do processo e quase nada está transitado e julgado. Assim, a série vende verdades que podem não existir em pouco tempo. Isso sem falar das que nunca existiram. 

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