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    Altered Carbon: O futuro é uma tortura (Crítica da primeira temporada)
    Por Bruno Carmelo — 2 de fev. de 2018 às 10:00
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    Os mártires do pós-apocalipse.

    Nota: 2/5

    A nova série da Netflix, baseada no livro “Carbono Alterado”, de Richard K. Morgan, parte de uma premissa interessantíssima. Num futuro distópico, é possível trocar de corpo quando este perece por velhice ou doença. Com a consciência armazenada num cartucho e posicionada na nuca, basta transferir o objeto a outro corpo e seguir adiante. As possibilidades desta ideia são imensas: com as diferenças sociais, os mais ricos adquirem corpos jovens e trocam-nos sucessivas vezes, tornando-se quase imortais, enquanto os pobres se contentam com corpos frágeis e se sujeitam às “mortes reais”, ou seja, definitivas. Como o corpo é mero acessório – uma “capa”, diz-se na série, como para um telefone celular – um homem pode se tornar uma mulher, uma pessoa negra pode se transformar em branca e depois asiática, um europeu ganha as feições de um latino e assim por diante. 

    A história acena a uma potente leitura política e social dos tempos atuais – afinal, toda ficção científica usa o futuro para debater a contemporaneidade. No entanto, Altered Carbon não explora a fundo nenhuma dessas vertentes, pois sua preocupação é mais psicológica do que social. Através de uma dúzia de personagens traumatizados, depressivos ou vingativos, ele busca mostrar de que modo os percalços do presente (amores partidos, famílias desintegradas, amizades desfeitas) marcam uma pessoa a ponto de transformá-la. Todas as figuras da série dividem a alcunha de vítimas e vilões. Eles buscam redenção, mas também alguma forma de conexão com outros, seja em versão clonada, androide, virtual, simulada. Pelo visto, o futuro é triste e solitário.

     

    O protagonista é Takeshi Kovacs, um mercenário cujas origens asiáticas e do leste europeu são escondidas no corpo do ator sueco Joel Kinnaman. Ele é o mártir principal, sofrendo ataques, torturas, vendo seus amores e familiares partirem repetidas vezes diante de seus olhos. Muitas vezes, “Tak” retorna e se sacrifica mais uma vez pelos poucos que restam, ou por um ideal de sociedade. Este mercenário aceita trabalhar para um milionário, encarregado de descobrir as circunstâncias da última morte do empregador. A contratação de Takeshi é pouco convincente, mas passemos: o objetivo é confrontar o protagonista a figuras ainda mais cruéis e insensíveis do que ele. Por isso o protagonista oferece o corpo nu e com “memória de combate” aos maus-tratos da tecnologia ao redor. Mesmo sem ser uma série religiosa, a ideia de penitência e redenção está muito próxima. É através do sofrimento e da admissão de culpa que os personagens progridem. O mundo futurista de Altered Carbon funciona como um amplo purgatório.

    A trama é desenvolvida por Laeta Kalogridis, escritora especializada em ficção científica e fantasia, mas de trajetória bastante irregular. São delas as histórias de O Exterminador do Futuro - Gênesis, DesbravadoresAlexandre e Ilha do Medo, todos muito problemáticos. Os problemas se repetem nesta série. A roteirista cria uma série de personagens agressivos e sangrentos, beneficiados pela classificação etária adulta, mas de pouca profundidade. Seus motivos são vagos, ou tanto confusos. A ligação de Takeshi com a policial Ortega (Martha Higareda) soa abrupta e depois não se desenvolve, a transformação de Lizzie (Hayley Law) numa proto-Mulher Gato beira o absurdo, a relação incestuosa com a irmã Reileen (Dichen Lachman) força mais momentos de aproximação e repulsa do que a trama consegue desenvolver.

     

    De modo geral, a primeira temporada gasta tempo demais se explicando, ou melhor, criando suas próprias regras para quebrá-las em seguida. Como este é um mundo novo, os personagens precisam explicar uns aos outros – e ao espectador, por extensão -, o que significa Matusa, Ceifador, Protetorado, Emissor, cartucho, dupla-capa, constructo, FHD e afins. Enquanto algum personagem faz alguma afirmação introdutória (“Só é possível clonar a capa X se o cartucho Y estiver em posição tal, com o backup tal”), o outro o contesta (“Mas eu alterei os códigos do backup, de modo que é possível ter uma dupla-capa se X, Y e Z forem alterados no sistema”). É difícil ficar feliz com o anúncio de qualquer uma dessas notícias. Elas dizem respeito a uma lógica que desconhecemos, e as brechas nas regras nos são igualmente distantes. Assistimos às explicações como quem lê um manual – passivamente, dispostos a absorver conhecimento, mas sem poder antecipar nada, nem se identificar com quem quer que seja.

    Além disso, o roteiro não consegue evitar a tentação de inserir um número farto de clichês e frases de efeito. Prepare-se para vilões que proferem discursos longos antes de matar a vítima, apenas para serem surpreendidos por um terceiro que aparece e salva o dia; armas carregadas que convenientemente aparecem sobre algum cômodo no meio de uma luta acalorada; confissões que poderiam ter sido feitas desde o início, mas são seguradas para causar maior impacto no futuro; personagens mortos que reaparecem magicamente quando convém à trama. Para o espectador preocupado com coerência narrativa e originalidade, estes constituem problemas sérios. Para quem busca apenas o prazer de lutas elaboradas, amores impossíveis e reviravoltas de último minuto, Altered Carbon cumpre seu papel com folga.

     

    No que diz respeito ao elenco, Joel Kinnaman é uma boa escolha para o protagonista. O ator de Robocop evita transformar Kovacs num sujeito puramente agressivo, tampouco enxergando-o como um coitado. Existem transformações notáveis ao longo da temporada, e mesmo os diálogos piegas são proferidos com convicção. As ótimas Renée Elise GoldsberryTamara Taylor atingem o mesmo equilíbrio, buscando atenuar as frases vilânicas e conferir peso aos diálogos dramáticos. Martha Higareda, no entanto, tem postura corporal pouco convincente nas cenas de ação, e expressividade limitada nos momentos lacrimosos. Dichen Lachman parece se divertir muito com o fel dos diálogos, porém se restringe à vilã impiedosa e quase cartunesca. Alguns bons atores, como Ato Essandoh e Kristin Lehman, são tristemente subaproveitados.

    Quanto às imagens, a série ostenta com clareza o generoso orçamento de cada episódio. Os cenários se multiplicam, os figurinos ganham múltiplos detalhes, cada arma ou geringonça futurista é pensada para brilhar nas luzes de neon azuis, verdes e vermelhas que invadem os ambientes através das paredes translúcidas. Talvez o resultado não seja dos mais realistas – o hotel no que Takeshi se hospeda parece muito um cenário teatral – mas funciona para o espetáculo de efeitos visuais. Altered Carbon explora sem moderação as projeções, hologramas, telas translúcidas, letreiros em neon, cenários externos escuros e decadentes, bueiros dos quais sai fumaça, personagens soturnos em casacos pretos e afins.

     

    Não existe nada de errado nesta configuração, que é de fato bem executada pela equipe. Mas há de se pensar: 34 anos de passaram desde os androides com corpos intercambiáveis de O Exterminador do Futuro, 35 anos desde o futurismo neon de Blade Runner – O Caçador de Androides, 39 anos desde as naves de Alien – O Oitavo Passageiro, 41 anos desde a comunicação por luzes de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. O cinema e as séries ainda não encontraram nenhuma alternativa para representar o futuro, a distopia, o contato com outros seres? Nada além das telas translúcidas, os mesmos coturnos, o mesmo neon? Altered Carbon depende demais do imaginário criado e reiterado pelas histórias clássicas. Aqui, os elementos soam como uma evocação nostálgica, uma maneira de jogar o espectador mais facilmente naquele universo. Você pode não entender as regras do jogo, mas as cartas são as mesmas de qualquer outro.

    O resultado deixa um gosto amargo por partir de um conceito tão original e inovador, apenas para tratá-lo com as convenções de inúmeros filmes B de ação ou ficções científicas consagradas. Serve como escapismo leve, no entanto, se o espectador dedicar atenção a cada episódio, deve questionar diversas atitudes dos personagens e atalhos narrativos. Pelo menos, o décimo episódio oferece uma conclusão satisfatória, amarrando todos os fios soltos. Talvez a resolução do caso Bancroft seja fácil demais, porém a esta altura da série, é possível se contentar com a coerência em detrimento da verossimilhança. Uma eventual segunda temporada se beneficiaria caso se arriscasse mais na forma e no conteúdo.

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    Comentários
    • McLeo
      Olha apesar do tempo que a serie foi lançada e esta pra começar segunda temporada, esta primeira foi uma impressionante grata surpresa. Recomendo qualquer um, quem criticou esta serie devem ser os mesmos que criticam que o Rambo mata demais.Serie espetacular como nunca vi um seriado. Não tem enrolação. Muitas histórias e final sensacional. Tomara que segunda no mesmo nível.
    • Don Mohay
      15 minutos de um jogo de futebol decente oferecem maior qualidade estética do que 10 horas desse podredouro (Altered Carbon). Ribeirete, Mateus. 2018.Qualidade... qualidade... qualidade?
    • Paula Santos
      Eu sou fã de ficção cientifica e adorei a série, não vi esses defeitos todos.só concordo que o romance do protagonista e da policial não foi bem desenvolvido, da parte da policial a gente entende que ela via nele o antigo companheiro mas da parte dele ficou meio vago a mágica paixão.Queria mais romance, que combina muito em com esses futuros distopicos.
    • Lucas Rodrigues Santos
      Sua crítica é bem ruim realmente, você só conseguiu escrever baboseiras e deixou de lado o que a série apresenta de bom, de reflexivo sobre a sociedade, sobre valores de vida ou morte, igualdade social e etc. Sua crítica não é nada profissional comparada a outras mídias conceituadas. melhore e já não confio mais no site.PS: procuro críticas não para formar minha opinião, mas para ver se eu capitei o melhor do filme.
    • Bruno Carvalho
      Alex, digamos que a relação incestuosa em GOT é bem mais clara e literal que a dessa série, mas você aceitou mesmo que aquele amor todo da Rei como fraternal? Para mim (que fique claro, minha opinião) soou quase que como uma paixão platônica e obsessiva...
    • Arthur Christofaro rovani
      Caramba, série fraca? Faz assim, volta a assistir aqueles filmes aclamados por críticos que só os críticos gostam, e que passam apenas em festivais e não volte a assistir séries da Netflix, e todos ficaremos mais felizes! :)
    • Alex Bruno
      Parei de ler em relação incestuosa com a irmã Reileen. Como diabos você quer fazer uma crítica se em NENHUM MOMENTO Takeshi e Reileen tiveram incesto! Incesto é relação de Jaime com Cersei em GoT... Perda de tempo ler essa crítica.
    • Gilson Medeiros da Silva
      Belíssimo comentário, essa série não é para Nutellistas mesmo, mas pra quem ama os anos 80/90 onde a série faz uma grande homenagem, roteiro inteligente e muito bem amarrado, curti demais a série a partir do 3º capítulo o bicho pega e começamos a entender tudo que foi nos mostrado nos 2 primeiros episódios que são sim, confusos e com excesso de informações, a série é fantástica e uma excelente sci-fi....minha nota é 9/10
    • Yuri Cristan de Lima
      Cara, você disse tudo que eu penso. Parabens pelo comentário.Vou um pouco além, e talvez ousado em dizer que (para mim) Altered Carbon elevou o patamar do Cyber Punk. Você citou Akira e, digo pra você que em inúmeras situações da série - talvez apenas por nostalgia mesmo, do que por uma relação direta - o Anime veio a minha mente.Não é nenhuma obra-prima no diz respeito a diálogos mega elaborados, mas no contexto a que se propõe achei coerente, e as dificuldades em entender alguns termos tecnológicos, ao menos no meu entendimento, fica clara a intenção de explorá-las em temporadas posteriores...A série é tão boa que abre precedentes para ótimos spinoffs, como uma série, por exemplo, de Quell. Acho que seria sensacional vermos o construir desse universo...além da possibilidade de termos váaaaarios Takeshis nas próximas temporadas, uma vez que há essa possibilidade de não se apegar a capas. Posso até imaginar a interação de um novo Takeshi e o reencapado Ryker...Do mais, é lamentável que alguém que nitidamente não se familiariza com o gênero - aliás, fica evidente que ele detesta - dê-se ao trabalho de escrever uma critica tão dura e superficial sobre a série...AC, entra sem dúvida no hall de minhas séries favoritas...
    • Angelica Sanabria
      Ui ui ui, falou a entidade superiora. afff
    • cyberkashimir
      Eu concordo em muitas coisas sobre a produção da série, acho que o conteúdo e o aprofundamento da relação entre personagens foi perdido para compor cenas dramáticas como corpos nus, desmembrados, flashbacks longos e rv cujo tempo dado ao espectador para absorve-las era longo e desnecessário por sua simplicidade. Entretanto a parte O cinema e as séries ainda não encontraram nenhuma alternativa para representar o futuro, a distopia, o contato com outros seres? Nada além das telas translúcidas, os mesmos coturnos, o mesmo neon? demonstra que o cara não está familiarizado com a estética cyberpunk (ou não gosta mesmo, eu também odeio as vezes). Até alguns aspectos piegas e ruins são parte dela. A discussão principal será sempre a corrupção, o hedonismo, contextos urbanos mergulhados em desalento, decadência. O neon, os coturnos, o quebra-quebra com lasers são parte do pacote e também a parte menos importante.É a história de um detetive mercenário em um noir com neon e bueiros soltando fumaça. O erro (para mim) foi a série não entregar o que promete, seja a não desenvolvida reflexão sobre a humanidade, sobre o papel individual de cada um, moralidade, mortalidade e nem o clichézão com explosão, mulheril e humor de qualidade questionável. No fim foi um bom tempo gasto,principalmente vendo o protagonista apanhar e a Tenente Sangue Nos Olhos xingar todo mundo em espanhol.
    • Moacir Borges
      Concordo plenamente!
    • Welben Omena
      série de ficção já é cara, não da pra gastar com atores, se um quiser aqueles aumentos absurdos é só trocar a capa :D. Perfeito!
    • Pablo Miranda Mendes
      Uma critica que da uma nota destas não vale a pena nem ser lida!
    • Entusiasta do Sci-fi
      Quem gastou preciosos minutos de suas vidas para criticar a série neste espaço, peço que leia mais sobre o gênero ciberpunk antes de condená-lo. Esta série não é para Nutellistas. O universo ciberpunk é pouco eloquente, pouco didático, muitas vezes confuso, poluído. Acima de tudo distópico. Ciber + Punk não foram unidas à toa. Quem passou por Akira, Shadowrun, Bladerunner, Neuromancer, Ghost In The Shell (1995), Flashback (1992), Deus Ex e Cowboy Beebop, só citando alguns exemplos, vai compreender a série. Digo mais, vai agradecer à NETFLIX por tratar o gênero com respeito aos fãs em sua maioria oitentistas/noventistas, como eu. Quem não acompanha o gênero, não conhecia-o por este nome, mas gostou de blockbusters como Matrix, Terminator (1 e 2), Minority Report, Wall-E e Repo Men também vai se agradar destas 11 horas de AC. O Bruno Carmelo foi uma péssima escolha para esta análise porque é notável que ele não simpatiza/flerta com o gênero. Ele está do outro lado do barbante. A prévia recusa da análise teria sido uma excelente escolha da parte dele. É como se me escolhessem para analisar 50 tons de qualquer coisa, ou escolhessem Adolf Hitler para realizar a crítica de Get Down. Ao meu gosto, a parte investigativa do roteiro, bem como as subtramas poderiam ser melhor exploradas. Contudo, entendo que isso faria com que mais episódios fossem necessários (talvez mais 5 ou 6) e a Netflix não costuma realizar produções neste formato. Me agradei bastante. Não gostou vire a página. Talvez o problema seja aversão ao gênero. Vale pra ruivinha preconceituosa que escreveu mais abaixo.
    • Maurício Campos
      Achei bacana a premissa mas a narrativa é truncada e um tanto confusa.
    • Igor Ferreira Torres
      Nunca li um livro do poe e percebi que o hotel fazia uma referencia a ele
    • Igor Ferreira Torres
      E você pertence a qual publico? vulcanos?
    • Ivone Pereira de Souza
      Genti, adorei essa serie. Deve ser pq sou uma simples mortaL questionadora do que seria eternidade e entao aparece esta serie interessante me provocando pra questao dE QUE a tecnologia hj avanÇa neste sentido. É isso!!! Bjusss
    • Francisco de Assis
      É tecnicamente da pra mudar de ator sempre, é só dizer que é outra capa. rsrsrs
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