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    Lorelay Fox analisa a representatividade LGBTQIA+ na Disney (Entrevista)
    Por Kalel Adolfo — 7 de set. de 2020 às 00:02
    Atualizado 10 de set. de 2020 às 01:36
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    A drag queen refletiu sobre a evolução da pauta LGBTQIA+ nas produções infantis, e também na mídia em geral.

    Recentemente, a Disney fez história com o desenho A Casa da Coruja. O motivo? A produção apresentou a primeira protagonista bissexual do estúdio. Na narrativa, acompanhamos a adolescente Luz descobrindo a própria sexualidade enquanto explora o mundo da feitiçaria. Aqui no Brasil, a animação estreou em abril deste ano.

    Sem grandes surpresas, a obra gerou bastante polêmica. Religiosos e conservadores atacaram os criadores, e acusaram a companhia de estar promovendo uma agenda homossexual. Contudo, o ódio não foi maior que a aclamação recebida pela Disney, que foi elogiada por estar dando um passo à frente na luta pela representatividade na indústria mainstream.

    Mas será que isso é o suficiente? Ou o estúdio do Mickey Mouse está atrasado quando o assunto é retratar a realidade LGBTQIA+? Para descobrir isso, o AdoroCinema bateu um papo com a youtuber e drag queen Lorelay Fox, que movimenta inúmeras discussões sociais importantes através de suas plataformas. Confira: 

    Como a Disney retratava personagens LBTQIA+ no passado

    Há pouco tempo, Lorelay fez um vídeo explicando que alguns dos maiores vilões da Disney poderiam ser homossexuais, já que carregavam vários estereótipos comumente associados a comunidade gay. Você pode assistí-lo abaixo:

    Claro, o estúdio não fez isso de forma intencional. Na verdade, os diretores das animações estavam apenas reproduzindo conceitos que já faziam parte da consciência coletiva. E a boa botícia, é que isso já passou.

    “A generalização está cada vez mais desconstruída. Além disso, todos esses trejeitos eram muito sutis, e grande parte do público nem os percebia. Atualmente, as pessoas até torcem pelos vilões, porque são mais humanos que os mocinhos”, explica a drag queen.

    A representatividade LGBTQIA+ na Disney hoje

    Algumas décadas se passaram antes da Disney começar a abraçar a causa LGBTQIA+. Esse engajamento ficou mais evidente com o anúncio de A Casa da Coruja, que também foi criado por uma artista bissexual. Toda essa evolução é ótima, porém, veio de forma tardia.

    “O Cartoon Network já fala sobre esses temas há muitos anos. A Disney — provavelmente por ser a maior e ter um público diferente — sempre foi muito cautelosa em retratar as minorias. Mas este é o futuro”, afirma Lorelay.

    Para a youtuber, produções como Steven UniverseHora de Aventura têm um impacto social incrível, e não geram tanta comoção dos conservadores. Mesmo assim, isso não significa que elas não sejam alvo de ataques.

    “É muito delicado conversar com o público infantil, porque muitos acreditam que não devemos falar sobre relações afetivas com as crianças. Mas as pessoas não entendem que todos os desenhos já falam sobre vínculos amorosos desde o início. Nós só queremos abrir um leque maior de possibilidades”, aponta.

    De acordo com Lorelay, é necessário que os pequenos entendam desde cedo que os relacionamentos homossexuais também são naturais e comuns: “A criança pode não ser LGBT, mas ela com certeza irá conviver com alguém que seja. Então é importante já ter essa bagagem”.

    Criar indivíduos que respeitem as diferenças é essencial para alcançarmos uma sociedade mais inclusiva, e menos violenta. Entretanto, como a drag queen aponta, as crianças sempre serão utilizadas como “escudo” pelos conservadores.

    “Sempre que o governo quer demonizar alguém, o acusam de pedofilia, ou dizem que a pessoa está tentando corromper a infância. Então a pauta ‘crianças’ sempre irá gerar polêmica. Mas eu acredito que eles nunca irão vencer esta batalha, porque o futuro já está diante de nossos olhos. Não iremos retroceder”, elucida.

    O ponto de virada para a Disney e outros grandes estúdios

    Segundo Lorelay, algumas produções cinematográficas como Priscilla, A Rainha do Deserto começaram a impulsionar o alcance das minorias nos anos noventa. Contudo, a internet foi a plataforma responsável por proporcionar o espaço cultural conquistado pelo público gay nos dias atuais.

    “As redes sociais fizeram as pessoas se conectarem a outras realidades. Hoje, as pessoas têm uma maior consciência social, e estão abertas a discussões que as enriqueçam”, afirma.

    “Também é importante pontuar que RuPaul’s Drag Race foi essencial para expandir a nossa aceitação na mídia. Até os gays que não gostavam das drag queens começaram a admirar e conhecer o trabalho dessas artistas”, explica.

    “Representatividade incentiva as pessoas a terem orgulho de quem elas são. E quando esse orgulho cresce, nós rompemos várias bolhas”.

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    Disney e outros estúdios estão representando ou estereotipando?

    “Ainda é raríssimo ver os gays sendo representados como pessoas reais no cinema. A maioria das produções ainda nos coloca dentro de estereótipos”, diz Lorelay. Para ela, o cinema é uma arte que demora para ser finalizada. “Em dois ou três anos de produção, o mundo muda completamente. E a indústria cinematográfica tem dificuldades de acompanhar isso”.

    Para isso mudar, é necessário ter consciência de classe, e pedir representatividade em níveis que ultrapassem a esfera midiática. Ou seja, precisamos de criadores de conteúdo LGBTQIA+, que transformem a nossa existência em algo tão natural quanto às vivências heteronormativas.

    Por isso, a drag queen acredita que a televisão e a internet ainda são as melhores plataformas de representatividade, porque acontecem em tempo real, e acompanham as pautas mais urgentes da comunidade gay.

    Animes foram pioneiros na pauta LGBTQIA+
    Casal LGBT em Sakura Card Captor.

    Segundo Lorelay, a Disney e toda a indústria cinematográfica precisa aprender muito com os animes e mangás. “Dentro da cultura oriental, eles já retratam a nossa realidade de forma bela e sutil. Em Sakura Cardcaptor, que é um dos meus animes favoritos, um garoto se apaixona pelo outro, e é tudo muito evidente. Eu assisti isso com 11 anos”, exemplifica.

    No anime, os personagens precisam lidar com relacionamentos homoafetivos, conflitos pessoais e outras questões muito mais complexas do que as que vimos hoje nas produções ocidentais. E isso é muito importante.

    “Quando nos vemos na televisão, percebemos que não somos monstros. Há pessoas como nós. Quando somos pequenos, não encontramos pessoas como a gente, e isso é muito solitário. A longo prazo, isso pode nos ajudar a lidar com a nossa própria identidade, porque já tivemos contato com o assunto antes”, esclarece.

    No final da entrevista, Lorelay afirma que a personagem bissexual em A Casa da Coruja é um avanço incrível, apesar de ter acontecido em um momento tardio. “Agora, a Disney precisa ter mais princesas fora dos padrões, com outras etnias. Frozen começou a mudar este percurso, então eu acredito que as coisas só irão melhorar. Mas o que importa, é que nós estamos aí, sendo a mudança que queremos ver no mundo”, conclui.

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