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Mostra de Tiradentes 2019: Tragam-me a Cabeça de Carmen M. toma para si a missão de dissecar a identidade brasileira
Por Renato Furtado — 21/01/2019 às 15:50
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O drama experimental abriu os trabalhos da seção "Olhos Livres" do festival mineiro.

O que está escondido por baixo da confusão de bananas, abacaxis, flores e outros adereços tropicais que formavam o icônico e pesado turbante da cantora e atriz Carmen Miranda? Este foi o questionamento que guiou os cineastas e roteiristas Felipe Bragança (Não Devore Meu Coração) e Catarina Wallenstein (Raiva) em Tragam-me a Cabeça de Carmen M., o drama experimental que abriu os trabalhos da seção "Olhos Livres" da 22ª edição da Mostra de Tiradentes, ontem, dia 20 de janeiro.

Partindo da ideia de que a cantora portuguesa, radicada no Brasil desde seu nascimento e alçada à fama mundial ao conquistar Hollywood, nos idos dos anos 1940 e 1950, não é uma diva, mas sim uma das mais importantes mentes pensadoras da cultura brasileira, a dupla de diretores entrega um longa ousado. Um filme que não só dividiu opiniões entre o público presente na Cine-Tenda, como também propôs uma pergunta essencial para os nossos tempos de crise de identidade: o que é o Brasil e o brasileiro?

Beto Staino/Universo Produção
Mesa de debates reunida para discutir o longa.

"Nossa vontade veio de olhar para momentos em que o Brasil, como território cultural, acreditou no impossível [...] Precisamos pensar em que propostas e caminhos de linguagem — da fala, das palavras e do corpo — a gente vai poder usar", declarou Bragança, durante o intenso debate ocorrido na manhã de hoje, no Centro Cultural Yves Alves, acerca do longa, que narra o percurso de uma atriz portuguesa (Wallenstein) em seus ensaios para interpretar uma versão de sua conterrânea em um misterioso projeto.

Mantendo os pés no chão enquanto levanta questões espinhosas que dizem respeito à natureza em si de nossa nação, o drama 4 estrelas — leia a crítica do AdoroCinema — emprega a figura de Miranda contra sua a concepção artificial que marcou a carreira da cantora para rebater a ideia do impossível sincretismo harmônico que impactou o Brasil até muito recentemente: "Ela propõe uma vivência de Brasil que passa pela incongruência, pela ideia de que você vai estar sempre acumulando no seu corpo referências de desobediência. Carmen propõe a ideia da colagem e a ideia de uma identidade que não obedece os limites geográficos", apontou o realizador.

Beto Staino/Universo Produção
O cineasta Felipe Bragança.

Bragança ressaltou que Maria do Carmo Miranda da Cunha, nome de batismo da cantora, foi uma figura disruptora principalmente por ser uma mulher portuguesa e branca, mas ter o desejo de cantar samba — música de matriz negra, nascida na marginalizada Lapa, centro do Rio de Janeiro, em uma época onde tocar o gênero musical mais brasileiro de todos era considerado crime. A multiplicidade de referências acumuladas pela artista — foi a síntese de sua figura que a matou, segundo o diretor, quando foi obrigada a viver sua personagem diariamente nos Estados Unidos — é a maior fonte de inspiração de Tragam-me a Cabeça de Carmen M.

Esse conhecimento quase acadêmico reunido pelos diretores, e amplamente exibido por Bragança no decurso do seminário, em relação à trajetória da europeia fez nascer uma espécie de biografia às avessas de uma cantora que simboliza um projeto de Brasil que falhou — uma ideia muito bem expressa no filme pelas ruínas do Museu Nacional e do Cassino da Urca e através das dificuldades que Wallenstein encontra em se aproximar de sua personagem. Essa desconstrução desemboca em uma defesa de uma proposição de uma nova ideia de Brasil, de um sincretismo que difere da ideia romântica de miscigenação, algo que parece ser o interesse maior de Tragam-me a Cabeça de Carmen M. Ou, nas palavras de seu diretor:

Beto Staino/Universo Produção

"O Brasil é um país que, em algum momento, sonhou em uma possibilidade de propor para o mundo algum tipo de identidade que passava exatamente pelo encontro, pela troca [...] O mundo está vivendo agora um momento em que cada uma das pessoas parece que está preocupada com a sua própria pauta. E aí quem tem metralhadoras na mão vence aquela pauta. Acho que a pauta que a Carmen traz para gente é a de assumir o risco, o mistério de se confrontar com coisas que não se controla. Ela deixa esse recadinho trágico para gente: quando a gente chega em um lugar com a mente só na síntese do que a gente queria fazer, a gente implode", finalizou Bragança.

Tragam-me a Cabeça de Carmen M. não foi, aliás, o único longa exibido ontem com foco em um ícone do samba: percorrendo uma via completamente mais linear, o documentário Clementina, apresentado na telona do Cine-Praça, conquistou o público ao recontar a história e a importância da cantora Clementina de Jesus para o Brasil. "Aqui a diretora enfoca Clementina de Jesus como porta-bandeira da negritude, com ela apresentando uma espécie de panorama do intercâmbio Brasil-África, abordando jongo, samba, curimba, umbanda, feijoada, cantigas centenárias, partido alto, malandragem e tradição oral. O cheiro é de casa e o gosto de conversa de fundo de quintal ou cozinha", diz a crítica do AdoroCinema.

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