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Cine Ceará 2018: Para Felipe Nepomuceno, documentário Eduardo Galeano Vagamundo "foi uma forma de matar a saudade"
Por Bruno Carmelo — 08/08/2018 às 17:50
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O projeto sobre o escritor é um dos representantes brasileiros na mostra competitiva.

Na última terça-feira, 7 de agosto, o falecido escritor Eduardo Galeano ganhou uma homenagem cinematográfica nas telas do 28º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de cinema. Ele foi tema do documentário Eduardo Galeano Vagamundo, no qual o diretor Felipe Nepomuceno intercala trechos de uma entrevista com leituras de seus textos feitas por personalidades - Ricardo Darín, Paulo JoséMia Couto - e cenas poéticas da natureza.

O filme pretende oferecer uma releitura do universo do autor, sem adentrar a vida pessoal de Galeano ou as passagens de sua vida. O espectador conhecerá principalmente a sensibilidade ímpar do uruguaio para falar sobre a beleza do cotidiano.

O AdoroCinema conversou com o diretor sobre este projeto:


Como veio a ideia de se apropriar de uma entrevista preexistente para fazer um filme?

Felipe Nepomuceno: A gente tem essa entrevista desde 2009, porque ela foi gravada para a série Sangue Latino. Tínhamos usado cerca de 15 minutos de material, mas sobrava meia hora não utilizada. Junto dela, coloquei também pessoas lendo textos do Galeano e imagens de cobertura. Eu venho há algum tempo tentando criar algo simples a partir deste material, com poucos elementos, para poder me aprofundar mais. Foi muito difícil rever a entrevista anos depois de ele ter morrido. Eu ficava na ilha de edição até tarde da noite, porque fui eu que editei o filme.

Por outro lado, eu precisava ter essa tentativa de conversa com ele, essa ilusão de retomar a nossa conversa. A ideia de colocar outras entrevistas dele, material de arquivo ou pessoas falando sobre a vida dele soariam como interferências nessa conversa direta. Foi uma forma de estar com ele e matar a saudade. 

O preto e branco foi escolhido para dar unidade aos materiais?

Felipe Nepomuceno: Isso vem do Sangue Latino. A estética já era assim: tudo foi feito em preto e branco, então para a gente era uma continuação natural. Para manter a coerência, evitamos os refletores nas outras imagens, porque a entrevista foi feita em locações externas, no jardim dele, sem luz artificial. Também evitamos as cenas noturnas pelo mesmo motivo. Sempre conversei com os fotógrafos sobre isso, porque gosto muito de pensar o enquadramento e a composição.

De que maneira escolheu as cenas poéticas e os textos declamados?

Felipe Nepomuceno: Escolhi imagens que não ilustram os textos, não funcionam como referência direta. Às vezes, a conexão se estabelece com a obra em geral, e não com o texto lido. Eu pensava mais no que me emocionava na hora, e também preferi retirar os textos mais famosos dele, para dar espaço a obras menos conhecidas. Espero que eu tenha conseguido estabelecer este diálogo com a obra dele.

Sobre os textos, eu li e reli tudo o que ele escreveu, mas o meu critério foi a emoção. Para ser sincero, escolhi os textos que me faziam chorar. Quando eu me emocionava, eu selecionava. Foram dois processos de escolha: primeiro o dos textos que seriam lidos, e depois daqueles que entrariam no filme de forma escrita, nos letreiros. Muita coisa de que eu gosto teve que ficar de fora, é claro. Mas a seleção teve a ver comigo, com questões minhas na época, com conversas que tive com ele.

Todos os artistas e personalidades escolhidos para interpretar os textos já tinham alguma relação direta com a obra dele? Por que estas pessoas não são nomeadas?

Felipe Nepomuceno: Existiram diferentes tipos de pessoa. Teve a Helena, mulher dele, a Lila, a neta ainda criança. Tem personagens, como o José Luis Carlos, um marceneiro que virou tema de um texto. Algumas pessoas conheceram mais ou menos o Galeano: são leitores dele, amigos. Em todos os casos, eu sugeria dois textos e deixava que escolhessem. A única exceção foi com a Helena, mulher dele. Ela me pediu para sugerir, mas eu preferi que ela escolhesse. Ela pegou "Eu, Mutilado Capilar", de "O Livro dos Abraços", o que foi ótimo: era um texto com humor, que parecia uma brincadeira entre eles. 

Sobre o fato de não identificar as pessoas, eu nem tinha me dado conta disso quando fiz. Para mim, todos são leitores dele, da mesma forma. Não pensei nisso como método ou linguagem, foi algo natural. Talvez isso esteja associado ao fato de que grande parte dos documentários trazem as pessoas identificadas, e eu quis me afastar disso. 

Além disso, o Galeano é uma pessoa muito lida por jovens. Então a gente sabe que algumas pessoas que interpretam os seus textos no filme devem ter lido quando tinham a idade da netinha do Galeano, durante a infância. Foi o meu caso também. O Ricardo Darín, quando teve contato com esta obra, ainda não era o Darín que conhecemos.

Por que acredita que Galeano se comunique tão bem com os jovens?

Felipe Nepomuceno: O Galeano fala de amor, de amizade, de morte. Ele resgata histórias que não costumam ser contadas, ele fala sobre as descobertas da vida. A obra dele tem uma riqueza de sentimentos impressionante. Também existe a questão da palavra, é claro. Galeano foi um grande orador, ele lotava estádios para a leitura de seus livros. 

Não deixa de ser surpreendente que durante a sessão do filme, aqui no Ceará, vários jovens estavam filmando a tela com celulares. Eu acho isso maravilhoso, incrível! Enquanto o Galeano falava sobre a importância de multiplicar histórias, eles estavam lá ao vivo, multiplicando histórias também. Talvez jovens que nunca leram nada sobre ele tenham este contato com a obra pela primeira vez, e depois leiam os livros. Enquanto isso, os adultos que leram "As Veias Abertas da América Latina", e que viveram a ditadura, se emocionaram também, ali na mesma plateia, lado a lado. 

Você sempre imaginou um projeto capaz de se comunicar tanto com os iniciados de Galeano quanto com aqueles que o conhecem pela primeira vez?

Felipe Nepomuceno: Ele sempre se posicionou politicamente de maneira muito forte, com ideias de esquerda. Isso atraiu muitas pessoas à obra dele, mas por outro lado, afastou outras pessoas. É uma pena, uma aflição minha que algumas pessoas não tenham lido os textos por isso. Talvez uma pessoa que não se identifique com a posição política dele possa se identificar com as histórias de amor, de amizade, com a natureza sobre a qual ele escreveu tanto. Existem mil formas de ter contato com os escritos dele.

Isso também vale para a minha experiência pessoal com o Galeano: a gente conversava sobre as nossas vidas pessoais, nossas experiências, nossas famílias. Espero que a forma desse filme aproxime as pessoas aos livros dele, à literatura em geral e mesmo aos diversos artistas que ele cita.

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