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A História dos Blockbusters - Parte 3: Os reis do mundo
Por Renato Furtado — 31/03/2018 às 07:23
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Da queda do Muro de Berlim ao "bug" do milênio, Hollywood experimentou um período de intensas - e bilionárias - mudanças.

Este é o terceiro capítulo de A História dos Blockbusters, minissérie em seis partes do AdoroCinema. Confira a Parte 1: Sobre épicos, cineastas autorais e tubarões e a Parte 2: Em uma galáxia muito, muito distante...

A derrocada da União Soviética apresentou inúmeras possibilidades para a indústria cinematográfica norte-americana, que embarcou em uma nova etapa a partir do megalomaníaco processo de expansão (do imperialismo) cultural dos Estados Unidos. A partir de 1989, com a capacidade de atingir locais estrangeiros há muito perdidos por causa da Guerra Fria, Hollywood experimentou um intenso intercâmbio criativo com profissionais gringos e pôde incrementar sua exportação. Em meio à onda de otimismo e à sensação de triunfo, os executivos de Los Angeles - sempre em busca de outras fontes de renda e materiais diversificados para levar às telonas -, decidiu explorar um caminho que, à época, não era nada óbvio: o das histórias em quadrinhos. Assim, viria ao mundo o Batman de Tim Burton.

Cartunesca e pomposa, a adaptação do diretor de Os Fantasmas se Divertem caminha sobre uma linha tênue: ao mesmo tempo em que a fidelidade ao texto base e à estética das HQs é mantida, Burton também traz uma seriedade e uma urgência narrativa que foi crucial para a aceitação do público geral. Partindo da perspectiva atual, é difícil imaginar um tempo em que as histórias em quadrinhos e seus heróis eram vistos com olhares condescendentes pelo público em geral; mas, de fato, era este o cenário às vésperas dos anos 1990. O sombrio Batman, impulsionado pelas icônicas perfomances de Michael Keaton e Jack Nicholson, corrige o entusiasmo de Superman - O Filme. Desta forma, apesar dos contratempos e das desconfianças - o script foi modificado sem a anuência do responsável, por causa da greve dos roteiristas de 1988 -, Batman foi o campeão de arrecadação do ano, se aproximando do campeão Indiana Jones e a Última Cruzada (US$ 475 milhões), com US$ 411 milhões.

Michael Keaton, que era considerado como um comediante, provou que sabia fazer drama em sua segunda parceria com Tim Burton.

O ano de 1989 também foi fundamental para outra gigante da indústria do entretenimento: a Disney, que enfrentou quase duas décadas de prejuízos antes de se reerguer. O contexto cinematográfico de 2018 provavelmente não existiria da mesma forma se Batman não tivesse ganhado as telonas e/ou se a companhia de Mickey Mouse não tivesse embarcado em uma viagem de aproximadamente 10 anos que ficou conhecida como a "Renascença da Disney". Aliás, a última vez em que a companhia em questão foi citada nesta minissérie foi na terceira página de nosso primeiro fascículo. Em toda a Parte 2, portanto, não há nenhuma menção ao estúdio. O que aconteceu, então, para que a mesma produtora que apresentou sucessos de bilheteria como Mogli - O Menino LoboPeter Pan nas décadas de 50 e 60 sumisse por completo nos anos 1970? Uma troca de comando equivocada e a chegada de novos comandantes que imprimiram uma mentalidade de negócios falha após os falecimentos de Walt Disney e seu irmão, Roy, em 1966 e 1971, respectivamente.

O RENASCIMENTO

Os lucros, já escassos, evaporaram ainda mais quando Don Bluth, um dos líderes ilustradores da Disney, decidiu deixar a companhia para criar a própria empresa. Perdendo consideráveis fatias do mercado distribuidor a cada ano do pós-Guerra do Vietnã, a Disney só lançou um sucesso no período: Bernardo e Bianca, de 1977, arrecadou US$ 48 milhões - sobretudo porque os espectadores da França e da Alemanha Ocidental aprovaram a película. Acostumada a estar na liderança das bilheterias, a casa de Mickey Mouse enfrentou seu período mais conturbado e correu o risco de ser vendida, principalmente após o fracasso retumbante de O Caldeirão Mágico, de 1985, que trouxe um prejuízo de quase US$ 20 milhões por não ter conseguido pagar seu orçamento de aproximadamente US$ 44 milhões - maior custo de produção de uma animação na história, até então. A proximidade da morte súbita só foi revertida quando a Disney finalmente conseguiu lançar A Pequena Sereia, em desenvolvimento desde os anos 30.

Remontando diretamente aos clássicos musicais da companhia, A Pequena Sereia foi um bem-vindo sopro de ar fresco: os US$ 211 milhões arrecadados - incluindo os rendimentos do relançamento de 1997 - deram uma sobrevida à companhia e provaram que o investimento em animações com um pano de fundo musical era a melhor e mais lucrativa estrada em direção ao futuro. Como se estivesse guardando seus trunfos na manga durante os 20 anos anteriores, a Disney lançou um hit atrás do outro. A Bela e a Fera (US$ 351 milhões) - primeiro filme animado a bater a marca de US$ 100 milhões nos Estados Unidos - e Aladdin (US$ 504 milhões), de 1991 e 1992, respectivamente, não só recolocaram a Disney no mapa, como também transformaram a companhia em uma competidora muito poderosa - afinal de contas, é muito difícil concorrer de igual para igual com verdadeiros fenômenos culturais impulsionados por clássicas e aclamadas canções-tema. A casa de Mickey Mouse retornava, assim, à ponta de Hollywood.

Os três filmes responsáveis por tirar a Disney do fundo do poço.

Os desenvolvimentos das tecnologias de vídeo e o avanço crescente da internet trouxeram mais dúvidas do que certezas para a maior parte da sociedade, mas não é possível dizer que o mesmo aconteceu com Hollywood. Os produtores de Los Angeles, mesmo com a proximidade do fim do milênio, não estavam preocupados e, decerto, não tinham motivos para tanto - à época, o futuro bem poderia ser matéria de um filme da Disney com direito a final feliz para os tradicionais produtores. Com a recuperação alcançada em 1970 e a expansão concretizada em 1980, a estratégia para os 1990 era simplesmente manter o curso da embarcação - leia-se: seguir produzindo continuações e franquias de onde quer que estas pudessem nascer. E arriscar, aqui e ali, com materiais originais - aliás, estes encontraram um período de imensa fertilidade no decênio embalado pelo grunge e pelo britpop.

Foi sob a bandeira das "experimentações conservadoras" que Hollywood lançou obras "inéditas" - ou seja, não baseadas em livros ou derivadas de outros filmes - que ampliaram o conceito de blockbuster, anteriormente mais restrito aos épicos e/ou ficções científicas: Ghost - Do Outro Lado da Vida (US$ 505 milhões), Esqueceram de Mim (US$ 477 milhões), Uma Linda Mulher (US$ 463), O Guarda-Costas (US$ 411 milhões) e Atração Fatal (US$ 325 milhões). Desse modo, entre surpresas e sequências - mais notavelmente O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (US$ 520 milhões arrecadados, 434% a mais que os US$ 38 milhões do filme original) -, Hollywood engatou a quinta marcha em direção a novos, e até então aparentemente impossíveis, recordes de bilheteria.

O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final Trailer Original
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