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"Pequeno Segredo é um filme muito brasileiro, mas num contexto global. Tem a cara do Oscar!", afirma o diretor David Schürmann
Por Francisco Russo — 13/09/2016 às 08:30
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Feliz com a indicação para o Oscar 2017, o diretor falou sobre a politização da disputa com Aquarius, o porquê de concorrer neste ano e quando o público poderá conferir o longa-metragem.

Habemus candidato! Após cerca de um mês de muita polêmica, com direito a filmes retirados da competição e integrantes solicitando afastamento, o comitê de seleção convocado pelo Ministério da Cultura enfim definiu o representante brasileiro ao Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro: Pequeno Segredo, do diretor David Schürmann. A escolha pegou boa parte do meio cinematográfico de surpresa, que apontava Aquarius como um candidato natural pela repercussão recebida após sua exibição no Festival de Cannes.

Em entrevista ao AdoroCinema, David Schürmann não negou a tensão sobre a possível seleção. "O coração estava saindo pela boca. Na hora que anunciaram eu gritei alto e pulei!". Com a indicação sacramentada, o diretor falou sobre a politização em torno da disputa, as polêmicas em torno do comitê de seleção, o porquê de Pequeno Segredo disputar a vaga para o Oscar deste ano e quando o público enfim poderá conferir o longa-metragem, ainda inédito no circuito comercial. Confira os principais destaques!

O SONHO DO OSCAR

Por mais que ainda seja desconhecido do grande público, a intenção de colocar Pequeno Segredo na disputa pelo Oscar não é nova e nasceu, na verdade, fora do Brasil. "Fizemos uma projeção secreta em Berlim, para produtores e agentes internacionais, o que foi muito bacana. Na verdade foi ali que começou o sonho maior pro Oscar, pois foi ali que as pessoas começaram a dizer que ele tinha a 'cara do Oscar'."


POR QUE TEM "A CARA DO OSCAR"?

"Pequeno Segredo fala muito bem com o Oscar, não necessariamente com todos os festivais de cinema do mundo. Ele fala com o Oscar pela temática, pela forma como foi construído, pela qualidade que tem", afirma o diretor, que minimiza o fato do longa ainda não ter sido visto pelo público em geral. "O mais importante era que agora ele fosse assistido pelos votantes [do comitê de seleção]. Tirando um votante, que é mais polêmico, temos oito pessoas da indústria cinematográfica que já estiveram no Oscar, sabem o que a Academia busca, e acabaram escolhendo nosso filme. Foi uma surpresa agradabilíssima, mas nós sempre acreditávamos."

"Tem filme que tem a cara de Cannes, de Berlim, de Locarno, de Veneza. Acredito muito que cada festival e premiação tem sua característica. São raríssimos os filmes para todos os gostos, inclusive a gente vê isso nas bilheterias. Pequeno Segredo tem a cara do Oscar, sempre bati nesta tecla. Ele tem uma qualidade diferente. É um filme muito brasileiro, com uma história super brasileira, mas num contexto global. E acho que isto também pesou, é uma história que as pessoas não estão acostumadas a ver no Brasil. É um filme que fala de outros mundos dentro do Brasil."


DEFININDO PEQUENO SEGREDO

"
Pequeno Segredo não é um filme de nicho. Ele fica no meio do caminho entre o filme de arte e o comercial.
Isto é muito complexo, mas tentei andar por filmes que me inspiraram, como Babel e O Labirinto do Fauno. Acredito que conseguimos chegar neste meio do caminho"
, afirmou.


AINDA INÉDITO NOS CINEMAS NACIONAIS

"Foi uma desvantagem nossa as pessoas não terem visto o filme", afirma o diretor. "É muito importante esclarecer que o filme tinha lançamento planejado para junho, o que não conseguimos. [..] Na finalização, resolvi gastar o meu tempo para fazer de forma bem meticulosa. Os efeitos especiais precisavam ficar com uma qualidade internacional, não podia ficar meio mequetrefe. Trabalhamos muito para termos um som potente e forte, do tamanho do filme, e também na finalização e correção de cor. Isto acabou atrasando o filme, que ficou para agosto. Só que aí tinha Olimpíadas, então foi para setembro, outubro, novembro."

"Esta demora foi uma desvantagem, mas desde aquela época acreditavamos no filme. Minha maior frustração é que as pessoas não assistiram, mas as que assistiram são unânimes em falar que este filme é incrível", defendeu.


QUANDO ESTREIA?

"Faremos o lançamento em setembro, para ser habilitado para o Oscar, e nacionalmente será distribuído em novembro. Só a Diamond Films sabe onde o filme será exibido no dia 22, pois eles é que estão conversando com os cinemas."


Vale lembrar que, para ser elegível ao Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro, os candidatos precisam ter sido exibidos por sete dias seguidos em algum cinema do país entre 1º de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2016. David afirmou ainda que Pequeno Segredo será exibido em festivais de cinema antes do lançamento nacional. "Fomos convidados pelo Festival do Rio e pela Mostra de São Paulo. A Diamond está conversando com eles, mas acredito que iremos participar. Estaremos no Rio, acredito que isto já esteja confirmado, o pessoal está apenas vendo como. Recebemos o convite da Mostra há algum tempo, e agora estamos conversando com eles."


POR QUE CONCORRER NESTE ANO?

Um dos grandes questionamentos em torno da candidatura de Pequeno Segredo era o fato de que, como a estreia nacional está agendada apenas para novembro, o filme poderia concorrer à vaga brasileira no Oscar 2018. David Schürmann explicou o porquê da decisão em concorrer neste ano, optando por um lançamento restrito em poucas cidades, de forma a torná-lo habilitado para a premiação.

"Desde o Festival de Berlim, venho seguindo os filmes lançados que teriam uma chance de conversar com o Oscar. Nise é um filme lindíssimo, bacana, mas tem uma restrição cultural. Mais Forte que o Mundo tem um baita diretor, com uma pegada comercial que poderia funcionar muito bem, mas apesar de ser um filme emocionante tem alguma coisa ali na história que falta. 
Tem ainda Aquarius, um lindo filme que pude ver no próprio Festival de Cannes, que é maravilhoso mas é também muito Brasil, especialmente o Brasil atual.
Já o nosso tinha uma temática, uma forma, que poderia funcionar muito bem. Para o ano que vem, vi que haverá uma lista de filmes com temática parecida com a de Pequeno Segredo. Estávamos com o filme pronto, já iríamos lançá-lo neste ano, não havia porque não seguir o rumo que já tínhamos estabelecido. Foi por isso que decidimos continuar e apostar nisto. É uma grande aposta, sei disso, mas a gente acreditava no filme."



POLARIZAÇÃO POLÍTICA

Desde o protesto da equipe de Aquarius no Festival de Cannes, onde se posicionou contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho tem sido bastante atacado, tendo sido alvo até mesmo de boicote no melhor estilo "não vi e não gostei". O Fla x Flu que tomou conta da política chegava ao cinema nacional, provocando uma polarização poucas vezes vista no setor. David Schürmann comentou sobre a situação.

"É uma pena que tudo esteja sendo levado para uma polarização política, até o nosso cinema, onde acredito que precisemos nos unir. Não estou falando de mérito, de filme, mas como um todo. Existe uma necessidade de sermos múltiplos, não precisamos ser só a ditadura de um filme. Precisamos de menos polarização, algo mais diversificado. Só que todo mundo começou a bater neste ponto e criou uma divisão no Brasil. Por quê?"

"Tinha sentido nestas semanas um desmerecimento enorme com todos os filmes. Eram 17 inscritos, mas tinha que ser este filme porque fala isso. Calma aí, gente! Nos últimos 10 anos a gente tem mandado um tipo de filme pra Academia, quem sabe não é hora de dar chance a um diretor novo? O Kleber [Mendonça Filho] com O Som ao Redor foi nomeado, a Anna [Muylaert] foi nomeada, todos os diretores têm a chance de ser nomeado. Por que não um filme que pode reverberar bem com a Academia?
Agora temos é que nos unir para ajudar Pequeno Segredo a trazer esta estatueta, porque é bom para o Brasil. Iremos mostrar que o nosso cinema tem qualidade!"

ATAQUES AO FILME

A não-indicação de Aquarius, aliada à natureza do atual governo brasileiro e ao ineditismo nos cinemas, fez com que a escolha de Pequeno Segredo fosse bastante criticado, seja por internautas ou até mesmo por diretores. "Inicialmente haverá demérito, é inevitável", afirma David Schürmann. "É inevitável que as pessoas vão bater, já estão batendo online pra caramba! Tem diretores já gritando todo tipo de coisa... Assistam ao filme antes, assistam antes de falar! Quando forem assistir, tenho certeza que irão se surpreender. Muita gente vai entender o porquê da votação."

"É interessante que, mesmo antes do lançamento, as pessoas já falavam de Aquarius com fervor, e entendo perfeitamente. Gostaria que as pessoas fossem assistir e depois tomassem suas atitudes e julgamentos. Isso é muito importante, porque o que está em pauta aqui é um filme, não é a política disso ou daquilo. E mais importante:
este é um filme sobre amor incondicional, que é algo que precisamos no Brasil pra caramba, pois só há ódio pra tudo quanto é lado!
Este filme fala de amor, de um casal que adota uma criança soropositiva que é um dos maiores desafios. Precisamos falar mais de amor, vamos nos amar um pouco mais! Acredito na luta de todos, mas não quero entrar nesta seara, quero falar de filme! E de um filme que tem algo bacana, algo a compartilhar, como Aquarius tem, Nise tem e Pequeno Segredo também tem."



FRUSTRAÇÃO COM AS CRÍTICAS?


"Claro que dá uma frustração, e acho que isto é com todos os filmes que estavam concorrendo. Vira uma coisa louca! Estamos falando de filmes, de Oscar, não de política. Tudo no Brasil virou política, a gente precisa é falar do filme!", reclama.

"É uma pena, porque isto desmerece o trabalho de uma equipe, que tem um currículo maravilhoso. É tirar o mérito de um compositor maravilhoso que é o Antonio Pinto, que ano passado trabalhou no Amy, que ganhou Oscar [de melhor documentário]. Tem o Marcos Bernstein, que fez um roteiro incrível e foi Globo de Ouro, [Festival de] Berlim [por Central do Brasil]. Isso desmerece muito várias pessoas que estão trabalhando há muitos anos no filme. Não é todo filme que se faz com um monte de gente bacana que dá certo, mas o nosso deu. Tá lá nas telas para as pessoas olharem, criticarem, baterem, amarem, chorarem... aliás, chorar muito, viu?"


UMA HISTÓRIA PESSOAL

Baseado na história de sua própria irmã, Pequeno Segredo levou seis anos até ser concluído. David Schürmann explicou o porquê do interesse em fazer o filme. "Sempre quis contar esta história do dia em que meus pais adotaram a Kat, porque ela sempre impressiona pela criatividade e genialidade, ainda mais quando não se sabe que é real. A história é incrível: um neozelandês que vai para a Amazônia e se apaixona por uma cabocla com quem tem um filho, depois conhece um casal de brasileiros que está viajando o mundo e que, desta confiança, vem a adoção da filha pelo casal. Imediatamente, como cineasta, já notei que era uma história de cinema."

"Como já faço documentários há 20 anos, pensei primeiro em fazer um documentário, mas tive a vontade de dar um passo além e fazer ficção. Quando decidi fazer, meus pais disseram que, em respeito à minha irmã, eles não queriam contar esta história enquanto ela estivesse viva. Respeitei, até mesmo pelo preconceito com o HIV, que era gigantesco nos anos 1990. As pessoas sequer queriam tocar quem tinha HIV."

"A Kat morreu em 2006, um mês antes de completar 13 anos, o que foi um choque muito grande. Um ano e meio depois disse aos meus pais que gostaria de contar esta história, mas como ficção. Era uma história de amor e de como pessoas do outro lado do mundo se encontram e podem mudar o destino de todo mundo. Aí decidi contar de forma não-linear, as três histórias em paralelo, até o momento em que elas se juntam e aí você descobre todos os segredos do filme."


DIFICULDADES DA PRODUÇÃO

"Foram três a quatro anos até o roteiro ficar pronto. Queria fazer direito, então não tinha a pressa de fazer logo. Fomos então para o financiamento. Já o víamos como um filme grande, com locações em Florianópolis, em Belém e na Nova Zelândia. Queríamos trazer um elenco e um diretor de fotografia importantes. Como este era meu primeiro longa-metragem 100% ficção, queria estar rodeado por uma equipe que pudesse me ajudar a contar esta história da melhor forma possível."


"Contar a história de forma não-linear é um baita complicador. Você tem que ir pincelando as histórias, o roteiro, vendo mudanças para que faça sentido para cada um. Quando finalmente tivemos o filme montado, aí veio a finalização. Então é um trabalho artesanal de seis anos, para que impactasse as pessoas, que tivesse alguma chance nas premiações e festivais, e também que fosse diferente do que estamos acostumados no Brasil em termos de filme. E conseguimos, acho que vai surpreender as pessoas."


CAMPANHA PARA O OSCAR

Com a indicação sacramentada, David Schürmann e sua equipe já pensam na estratégia para divulgar Pequeno Segredo entre os eleitores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. "Temos alguns padrinhos internacionais muito fortes, como o Barrie Osborne, produtor de O Senhor dos Anéis; nossa produtora de design a Brigitte Broch, que já ganhou o Oscar; o compositor Antonio Pinto. Todas estas pessoas têm conexões internacionais muito fortes, e ainda tem a família em si, que é muito conhecida em várias praças."

"Precisamos agora sentar com o nosso comitê e montar esta estratégia. O que quero muito é buscar os diretores que já estiveram nesta corrida, como o Fernando Meirelles e o Bruno Barreto, e entender o que deu certo e qual é o caminho. Esta experiência é muito válida!" O diretor revelou ainda que, por enquanto, Pequeno Segredo não tem distribuidora nos Estados Unidos. "Tivemos algumas ofertas, mas seguramos tudo para depois da nomeação. Porque, se a gente fosse indicado, isto daria um poder de negociação muito grande lá fora."


UNIÃO

Após uma disputa tão repleta de polêmicas, David Schürmann prega a união da classe cinematográfica em torno de uma possível indicação de Pequeno Segredo no Oscar de melhor filme estrangeiro. "Quero unir o máximo a nossa classe, para entender como Pequeno Segredo pode chegar lá. Porque o mais importante agora é chegarmos entre os cinco indicados e é um grande caminho, que precisamos da força de todo mundo. 
Sei que nossa indústria está dividida, algumas pessoas estarão mais propensas a fazer isto do que outras, mas acredito que as pessoas que já estiveram lá vão acatar e ajudar."

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