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Exclusivo: "A emoção nasce do mistério", afirma a diretora Anne Fontaine sobre o drama Agnus Dei
Por Bruno Carmelo — 14/07/2016 às 08:00
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O filme sobre freiras estupradas foi apresentado no Vaticano.

Estreia dia 14 de julho nos cinemas brasileiros o filme francês Agnus Dei, retrato de um triste episódio histórico: durante a Segunda Guerra Mundial, diversas freiras foram estupradas pelos soldados soviéticos, e muitas delas engravidaram. Como manter a fé em Deus depois desta atrocidade? Como lidar com os votos de celibato? 

O filme aborda esta crise através do encontro entre duas freiras, uma conservadora (Agata Kulesza) e outra progressista (Agata Buzek) com a jovem médica francesa (Lou de Laâge) que atende em segredo as mulheres traumatizadas. Nós conversamos em exclusividade com a diretora Anne Fontaine sobre o projeto:

AdoroCinema: Existem muitos relatos de atrocidades na guerra, mas a história específica de freiras polonesas estupradas durante a Segunda Guerra Mundial ainda era pouco conhecida.

Anne Fontaine: O que me chamou atenção foi a força incrível desta história e a intensidade das emoções que ela desperta, as questões sobre a violência, a fé, a maternidade, sobre as relações entre o mundo laico e o mundo religioso. Fiquei empolgada com as possibilidades de expressar o encontro entre uma mulher de ciência, uma médica à frente de seu tempo, e estas freiras grávidas.

A diretora Anne Fontaine durante as filmagens de Agnus Dei

Todas essas memórias estavam registradas no diário da protagonista, certo? 

AF: Sim, eu conheci o sobrinho desta médica, que é um homem francês. Ele guardava há tempos um diário de bordo desta médica, contendo a história do encontro com as freiras. Ele já queria transformar isso em filme. Mas não é um diário com aspectos psicológicos, só fatos. Em seguida, retomei um roteiro que já tinha sido escrito na época, inspirado nestes fatos. Decidi refazer a pesquisa histórica, porque isso é algo esquecido na Polônia. Com o roteirista Pascal Bonitzer, interpretamos a psicologia de cada personagem, as reações delas diante da maternidade, e as crises de fé. Foi um trabalho de dramaturgia a partir de fatos reais.

A história poderia ser muito melodramática, mas você opta por um tom contido. 

AF: Isso foi natural para mim: acredito que a emoção esteja na contenção. Sempre pensei que a emoção exige um equilíbrio complexo, mas isso governou a maneira de dirigir as atrizes, para que não fossem sentimentais. Elas precisam guardar suas forças para trabalhar, não para ter empatia. A emoção nasce do mistério. É verdade que poderia a história poderia se tornar um rio de lágrimas, mas eu prefiro que o espectador fique emocionado, não a equipe.

A estética mantém o mesmo estilo: são cores frias, planos fixos... 

AF: Eu queria criar algo próximo da pintura, com um aspecto quase monocromático. Os enquadramentos deveriam ser precisos, lembrando imagens religiosas, com uma iluminação metafísica, profunda. Não queria que fosse apenas bonito, precisava ser sensível ao retratar as peles das atrizes. Usamos muitas referências, como o artista George de Latour e outras pinturas religiosas de grande sobriedade.

Quais foram as maiores dificuldades de produção? 

AF: Era difícil filmar num convento de verdade. Na Polônia, a maioria dos conventos está em atividade, mas encontramos um convento com uma metade abandonada. Por isso, pudemos filmar, mas precisamos reconstruir grande parte dos cômodos, do refeitório e da enfermaria. Foi um grande investimento de produção, mas este convento tinha a elegância ideal e a posição geográfica certa, no interior da Polônia. Além disso, filmamos no inverno, o que é difícil, e trabalhei com atrizes polonesas, sem falar a língua delas.

Felizmente, trabalhei com atrizes polonesas incríveis, as melhores que existem, e isso me ajudou bastante. Agata Buzek compreendia francês, mas as outras não. Mesmo assim, existia uma solidariedade, um esforço para efetuar essa filmagem no local.

A diretora Anne Fontaine, ao centro

Como foi feita a escolha de suas atrizes? 

AF: Eu já tinha visto a Lou de Laâge em Respire, e percebi que era muito talentosa, mas não tinha imaginado de modo algum que ela pudesse interpretar Mathilde por me parecer jovem demais. Quando fiz testes, o carisma e a determinação dela me convenceram a contratá-la. Entre as atrizes polonesas, eu tinha visto Agata Kulesza em Ida. Ela se destaca bastante, mas também me parecia muito jovem para a Madre Superior, além de ser simpática demais! Ela riu, e insistiu em colocar as roupas de freira e fazer um teste. Quando eu a vi com o hábito, achei tão forte e inteligente em sua atuação que me convenci na hora. No caso de Agata Buzek, um amigo me mostrou e me convenceu a encontrá-la em Varsóvia. Neste caso, não hesitei nem um segundo: ela tinha a cara e o perfil ideais. 

Agnus Dei pode ser descrito como um filme otimista. 

AF: É otimista no sentido que alguém pode não acreditar em Deus, nem ter vocação, mas ainda assim encontrar seres que pertencem a outra filosofia. O que importa é a esperança, a fragilidade humana. No fundo, Maria e Mathilde acabam fazendo um caminho uma em direção à outra. Eu nunca abordaria esta história se não houvesse esperança. Além disso, o tema é atual, porque ainda se registram muitos estupros em guerras, muitas mulheres violentadas diariamente. Por isso, quando mostrei este filme a 300 religiosos no Vaticano, um bispo muito próximo do Papa Francisco me disse que era uma obra importante, por documentar fatos que ninguém deveria esquecer.

Você teve algum receio na hora de apresentar Agnus Dei aos religiosos? 

AF: Eu não sabia como eles iriam reagir, mas foi uma sessão extremamente comovente. Vi monges, freiras e bispos chorando, totalmente emocionados. O que mais me marcou foi a resposta positiva ao retrato dos rituais eclesiásticos, que pareceram realistas aos religiosos. Eu fiz um treinamento, um acompanhamento em conventos para preparar o filme, e fiquei contente que eles percebam uma verdade deste retrato.

Agnus Dei Trailer Legendado

 

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