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    A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

    Natureza feminina

    por Bruno Carmelo

    Entre as várias escolhas positivas deste projeto está a autodenominação de “melodrama tropical”. O termo condensa uma quantidade importante de significados, todos essenciais à adaptação do livro "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão". A descrição orgulhosa de melodrama, ao invés de drama, permite compreender o lugar dos sentimentos e do sentimentalismo na obra. A noção de tropical diz respeito não apenas ao calor do Rio de Janeiro, mas a uma natureza selvagem, que vale tanto para a liberdade das protagonistas quanto para a quantidade ostensiva de plantas, jardins e florestas que ornam cada cena, de modo a praticamente se fundirem aos personagens.

     

    O melodrama tropical também sustenta uma visão da sensualidade calcada no corpo. Adaptar o livro tão intimista de Martha Batalha constituía um desafio significativo, que os roteiristas Murilo HauserInés BortagarayKarim Aïnouz superaram devido ao trabalho com exterioridades, ou seja, com o impacto visível da opressão social no corpo das irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler). Neste filme, o sexo está tão presente quanto o sangue pós-parto, o estupro conjugal, o suor nas roupas, os seios que amamentam, o corpo enfermo da mãe. O diretor oferece uma abordagem crua tanto da feminilidade quanto da masculinidade, evitando ao mesmo tempo o pudor e a idealização da sensualidade. As longas cenas de sexo reforçam o desconforto e a fisicalidade do ato como poucas obras ousam retratar.


     


    O ponto de vista orgânico funciona devido a um trabalho excepcional de fotografia, direção de arte, som e montagem. Aïnouz abandona o naturalismo em prol de uma ambientação hipnótica, com cores ultra saturadas (em escalas de vermelho, azul e verde), granulação extrema devido às lentes antigas e planos fixos em scope, no qual há sempre mais de uma ação acontecendo em diferentes níveis de profundidade. Acrescido dos ruídos e da trilha sonora – especialmente a música diegética tocada por Eurídice -, o resultado é uma produção que se esforça em captar cheiros, cores, texturas, volumes. O aspecto “sujo” do filme é também sua maneira de representar uma natureza viva, selvagem, em transformação. Ao invés de confinar a dona de casa Eurídice à assepsia da casa patriarcal, e a fugitiva Guida ao fetiche da marginalidade, a estética busca o que elas têm de comum em termos de identidade feminina.

     

    Cabe ressaltar que este melodrama sentimental e épico, passando por várias décadas e cidades (reais ou imaginárias) se estrutura pelo amor entre irmãs, ao invés do amor romântico. Os homens, ignorantes (o pai, interpretado por António Fonseca) ou abestalhados (o marido, vivido por Gregório Duvivier), ficam em segundo plano na história. Os únicos laços duradouros são aqueles que unem Guida a Eurídice, ou ainda Guida à amiga e companheira Filomena (Bárbara Santos), e Eurídice à confidente Zélia (Maria Manoella). As atrizes, muito bem dirigidas, apresentam um desempenho excepcional em cenas exigentes, com destaque para Julia Stockler, de uma naturalidade e força impressionante nos diálogos.


     


    Talvez o único porém da produção seria o fato de conservar o título do livro, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, embora as atenções sejam bem divididas entre as duas irmãs – talvez Guida inclusive receba maior atenção por parte da montagem. O filme não acompanha o ponto de vista de Eurídice, como pode sugerir o nome, preferindo o olhar externo ao mosaico de personagens femininas. No entanto, este é um detalhe dentro obra que retrata tão finamente a condição das mulheres no Brasil da década de 1940 e 1950, com os corpos reservados à propriedade do marido e destinados à procriação – após um surto de Eurídice, as primeiras palavras do médico dirigem-se ao marido: “Não se preocupe, ela estará pronta para ser mãe novamente”. A conexão com o século XXI, rumo ao final, constitui outra preciosidade do roteiro, permitindo aos espectadores enxergarem as semelhanças e diferenças entre as duas épocas.

     

    Por fim, em cada elipse sutil da montagem se esconde um novo potencial desperdiçado por Guida e Eurídice devido às normas sociais. A cada salto no tempo, percebemos as oportunidades que Eurídice perdeu com a música, os amores que Guida descarta por sua posição de mãe solteira, a opinião que dona Ana é impedida de expressar devido à condição de mulher, mãe, filha, esposa. Aïnouz não precisa gritar a indignação contra o patriarcado: basta acompanhar a trajetória de décadas entre estas irmãs invisíveis, tão próximas e tão distantes, imaginando uma para a outra um destino melhor do que ambas realmente tiveram. As vidas invisíveis são várias, sofridas e melancólicas, e observadas com uma ternura comovente. Com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, o cineasta brasileiro apresenta seu melhor filme dos últimos dez anos, desde os sublimes O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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