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    Divórcio
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Divórcio

    Sr. e Sra. Smith à paulista

    por Rodrigo Torres
    Um artigo recente publicado aqui no AdoroCinema atenta para o anseio recorrente de cineastas brasileiros em atribuir um selo de qualidade hollywoodiano ao cinema nacional. Os realizadores de Divórcio seguem o discurso à risca, porém segundo a melhor acepção do exemplo norte-americano: maior tempo de elaboração do roteiro, imersão do elenco, filmagens em locação, recursos que incluem a pré e a pós-produção etc. O resultado é uma comédia não apenas divertida, mas que surpreende em incorporar outros gêneros, por sua concepção visual cuidadosa e por, assim, justificar o investimento, servindo como modelo para a evolução do mercado cinematográfico brasileiro.



    Divórcio adota um high concept típico: Júlio (Murilo Benício) e Noeli (Camila Morgado) são um casal rico que se separa e inicia uma guerra judicial por seus bens — pronto. Uma ideia sucinta, universal, que permite o acréscimo de uma gama de elementos que enriqueçam a trama; e assim acontece. O roteirista Paulo Cursino (Até que a Sorte nos Separe) explora as muitas possibilidades cômicas do argumento escrito pelo produtor LG Tubaldini Jr., fundamentado em um aspecto que o diferencia de outros longas brasileiros: a vida no interior paulista. Mais precisamente, na cidade de Ribeirão Preto.

    O cenário é, então, pano de fundo para o sertanejo universitário, seus tipos e a cultura da ostentação — com um humor pastelão ao mesmo tempo engraçado e inofensivo, além de relevante culturalmente, como a boa observação de que todo mundo se conhece no interior. Do mesmo modo, Divórcio debocha largamente da cafonice do novo rico brasileiro. Bem nascida, Noeli é apenas mais uma dondoca com sua consciência de classe deturpada, enquanto Júlio investe seu poder aquisitivo em carros que adora, roupas coloridas e uma prótese ridícula. Para tudo isso, aspectos técnicos como direção de arte e figurino servem perfeitamente à narrativa.



    Além de suas gags físicas, visuais, também há inteligência no texto cômico de Cursino, com críticas pontuais à exploração da religião, à falibilidade da justiça penal, ao problema do sistema prisional, à falsa noção de liberdade da gente que vive para trabalhar (vide a advogada que usa o escritório como academia) e outros, sempre de maneira orgânica e despojada. Quando o advogado vivido por André Mattos (genial como sempre) adota um discurso maquiavélico, o roteiro não perde a chance de citar de fato o clássico literário O Príncipe — momento que ainda serve de transição dinâmica para o grande conflito matrimonial do casal.

    Pedro Amorim, então, revela o seu melhor trabalho no cinema. Após o regular Mato Sem Cachorro e o péssimo Superpai, o diretor demonstra versatilidade: inicia o longa-metragem com uma passagem de tempo funcional e simpática, usufrui do timing cômico de seu ótimo elenco (além de Murilo, Camila e André, Thelmo Fernandes, Luciana Paes e Paulinho Serra arrasam), faz bom proveito dos efeitos especiais nas cenas de ação, explora os canaviais de Ribeirão Preto em sequências de perseguição e opera até o tempo certo do suspense dentro da comédia quando necessário. Enfim, Divórcio é uma bela surpresa. Uma comédia sem grande pretensão, porém redonda do início ao fim (literalmente; há uma rima bacana entre a primeira e a última sequência) e em todos os aspectos.
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