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    Tropa de Elite 2
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Tropa de Elite 2

    Dedo na Ferida

    por Francisco Russo


    "Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção". É desta forma que inicia Tropa de Elite 2, fenômeno antes mesmo de estrear. Em parte pela popularidade do filme original, que eternizou personagens e bordões no inconsciente coletivo nacional, mas não apenas isto. O grande atrativo de Tropa de Elite era a denúncia ao status quo, à corrupção que permeia a polícia e faz com que ela aja de forma ineficiente e truculenta. Somado a isto, há a criação de um salvador, um ícone que surge para "limpar a cidade": capitão Nascimento. Os meios brutais os quais usa nada mais são do que reflexo da sociedade atual, que os aceita por não mais crer em soluções pacíficas. É dentro desta realidade, e sabendo explorá-la, que o diretor José Padilha conduz a história de seu novo filme.

    Padilha aprendeu muito desde o primeiro Tropa de Elite. Ousado ele é desde Ônibus 174, o corajoso documentário que dá um caráter sociológico ao sequestro ocorrido no Rio de Janeiro em 2000. Acusado de fascista, ele agora brinca transferindo a acusação ao personagem principal da série. Só que, mais do que rebater as críticas que recebeu, Padilha as amplia. Deixa o reduto carioca do BOPE para tratar de política, partindo do Estado do Rio de Janeiro para alcançar o país. É exatamente neste ponto que Tropa de Elite 2 atinge sua grandiosidade.

    O filme começa situando o espectador em relação aos personagens sobreviventes. Nascimento (Wagner Moura, mais uma vez incorporando de forma brilhante o personagem) permaneceu no BOPE, mas logo o deixa para cumprir uma função na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Acreditando ser esta sua grande chance de "quebrar o sistema", como o próprio diz, embarca com unhas e dentes na difícil empreitada de derrotar o tráfico de drogas. Consegue. Só que a realidade brasileira, como bem dizia Tom Jobim, não é para iniciantes. Mesmo uma raposa experiente como ele não podia contar com as mutações do sistema para que tudo permanecesse como está. E é justamente a revelação destas mutações, em caráter muito mais amplo do que simplesmente a questão de segurança pública, que faz de Tropa de Elite 2 algo muito maior do que um mero filme.

    Padilha conseguiu tratar de assuntos complexos e delicadíssimos - até para sua própria segurança - de forma coesa e coerente. Não há como não reconhecer vários dos personagens e situações retratados a partir do que se vê na vida real. Tropa de Elite 2 é, em vários momentos, um documentário rodado com atores, o que lhe dá uma importância ainda maior. É o cinema denúncia, expondo uma situação calamitosa a qual se prefere fechar os olhos por comodismo ou interesse. É o cinema feito por Costa-Gavras, responsável por símbolos políticos como Desaparecido - Um Grande Mistério, Z e Seção Especial de Justiça. O diretor, que premiou Tropa de Elite com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, é homenageado em uma cena, onde vários de seus filmes estão em cartaz. Só que, mais do que isto, Tropa de Elite 2 traz uma clara inspiração ao que significa o cinema do diretor grego. A inquietação, a revolta, o debate, a verdade... estão lá, espalhados pelos personagens.

    Em meio a questões sobre direitos humanos, política eleitoral e o impacto dos atos de Nascimento junto à população, Tropa de Elite 2 traz de volta o sarcasmo do primeiro filme. Desde provocações como chamar o esquerdista Fraga (Irandhir Santos, impecável) de "Che Guevara" até constatações diretas e secas, como "os chefes do tráfico em Bangu I não foram mortos porque tinham grana para perder", o filme é repleto de belas sacadas que já fizeram a alegria dos fãs do filme original. Se não tem a mesma quantidade de frases marcantes, trata de forma coerente e realista todos os personagens, dos mais importantes aos de menor destaque no filme original. Méritos para Bráulio Mantovani, monstro em matéria de roteiro no cinema nacional.

    Tropa de Elite 2 é um excelente filme. Só isto já é motivo mais do que suficiente para assisti-lo, mas desta vez José Padilha foi mais longe. Conseguiu, a partir de um mero filme, convidar o espectador a rediscutir o Brasil como sociedade, como proposta viável de país. Sem apresentar soluções, apenas retratando a realidade. Talvez não seja tão bom quanto o original, mas com certeza é mais importante. Pelo que representa para o cinema brasileiro e, acima de tudo, para o país.

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    Comentários

    • Alexandre M.
      Espetacular!!! Não deixa nem um pouco a desejar diante dos melhores filmes policiais Americanos.
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