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Tropa de Elite 2
Críticas AdoroCinema
5,0
Obra-prima
Tropa de Elite 2

Politicagem na mira

por Lucas Salgado

Lançado em 2007, Tropa de Elite se tornou um dos maiores ícones da cultura pop brasileira no século XXI. Vítima de uma polêmica sem precedentes envolvendo a pirataria no país, o longa conquistou uma legião de fãs, que repetiam nas ruas jargões que viram no cinema - ou, infelizmente, no computador - como "pede pra sair", "nunca serão", "faca na caveira", "o sr. é um fanfarrão" e muitos outros.

Apesar de extraoficialmente poder ser considerado o filme brasileiro mais assistido da década, os números nas bilheterias decepcionaram os produtores, bem como as acusações de que o filme seria fascista. Tais afirmações são absolutamente descabidas, uma vez que a visão de um personagem não pode ser considerada a visão de toda produção. No entanto, já imagino críticas parecidas para Tropa 2, principalmente por contar com uma cena em que o Capitão Nascimento é aplaudido por lidar pesado com o crime.

O maior mérito de José Padilha e Bráulio Mantovani, diretor e roteirista do longa, respectivamente, foi provar que havia uma história para se contar que ultrapassasse o visto no original. À princípio, o filme até engana o espectador ao apresentar a mesma música nos créditos de abertura ("Tropa de Elite", da banda Tihuana) e a mesma ideia do professor/representante de direitos humanos que não entende a luta contra o crime e fica sempre do lado dos bandidos, mas em seguida parte para uma concepção totalmente diferente do primeiro Tropa.

A corrupção da polícia ainda é abordada, mas agora é vista como ferramente de um jogo de poder muito mais complexo. O lançamento do filme em período eleitoral (outubro de 2010) é sintomático, uma vez que podemos ver que os políticos retratados na produção não são muito diferentes dos que foram eleitos para cargos públicos recentemente. Alguns dos personagens, inclusive, são praticamente cópias de candidatos reais, mas não nos cabe aqui dar nome aos bois.

Em Tropa de Elite 2, Capitão Nascimento (vivido mais uma vez com brilho por Wagner Moura) é promovido Subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e se encanta por possuir aparato para, finalmente, conseguir combater o sistema do crime e da corrupção. Todavia, Nascimento descobre aos poucos que as pessoas a sua volta na Secretaria também estão envolvidos no dia a dia do crime e que, assim, sua luta será ainda mais dura. Ao mesmo tempo terá que lidar com problemas com o filho Rafael (Pedro Van Held) e a ex-esposa Rosane (Maria Ribeiro), que mesmo afastados não convivem bem com a violenta rotina do Capitão, que na verdade agora é Coronel.

André Ramiro e Milhem Cortaz estão de volta como André Matias e Capitão Fábio e mais uma vez se saem bem nos papéis. Cortaz, inclusive, é responsável por uma série de bordões que prometem cair na boca do povo, como "Tá de pomba-girice comigo?" e outros impróprios para serem transcritos aqui. Mas o destaque no elenco - ao lado de Wagner Moura - é Irandhir Santos (Quincas Berro D'Água), que dá vida à Fraga, um defensor fervoroso dos direitos humanos.

Mantendo os mesmos acertos do primeiro longa no que diz respeito à fotografia, edição e trilha sonora, Tropa 2 possui ainda a qualidade de se provar complexo. O filme - e o problema da violência no Rio de Janeiro e outras grandes cidades no Brasil - não pode ser explicado em poucas linhas e, por isso, a opção de fazer uma continuação para mostrar outra vertente da questão é absolutamente memorável.

É claro que algumas sequências, em especial as de ação, irão lembrar Tropa de Elite, mas este segundo filme tenta ao máximo evitar a redundância. Busca-se inclusive modificar um pouco as sequências de tiroteio e invasão de favelas para não parecerem mais do mesmo.

Tropa de Elite 2 não é um documentário sobre o sistema ou um filme panfletário de denúncias, mas coloca o dedo na ferida em algumas questões importantes e se isso for o suficiente para estimular a reflexão o filme já terá cumprido seu propósito. É claro que o filme pode ser visto apenas como um thriller político de ação, mas é muito mais do que puro entretenimento.

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Comentários

  • Alexandre M.
    Espetacular!!! Não deixa nem um pouco a desejar diante dos melhores filmes policiais Americanos.
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