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Alice no País das Maravilhas
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Alice no País das Maravilhas

Recriando Alice

por Francisco Russo


Tim Burton é famoso por sua criatividade, capaz de (re)criar universos próprios que, por si só, valem o ingresso. Assim fez com Batman, Beetlejuice, Willy Wonka, Sweeney Todd e tantos outros. Esta característica de imediato gerou um frisson em torno de Alice no País das Maravilhas. Afinal de contas, o ambiente altamente lisérgico criado por Lewis Carroll era um prato cheio para Burton. Mais até do que o uso do 3D ou as presenças de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, parceiros de longa data, era a imaginação do diretor o chamariz principal. Quanto a isto, seu novo trabalho não decepciona. Burton vira do avesso a clássica história, modificando personagens, dando maior ou menor importância dentro da trama, inserindo novos rumos... Só que, em meio a tantos desvarios, faltou o principal: transmitir emoção ao espectador.

Talvez seja sinal dos tempos. A tecnologia 3D é capaz de impressionar com suas imagens, como já demonstrou Avatar, mas estas não necessariamente produzem impacto emocional - a não ser de espanto, pela sua própria beleza. Alice no País das Maravilhas é um verdadeiro delírio visual, onde fica nítido que cada detalhe em cena recebeu atenção para provocar tamanho efeito a quem o assiste. É nesta ambientação que Tim Burton brilha. Os personagens amplamente conhecidos são transformados, de forma que a passagem de Alice pelo País das Maravilhas não seja um mero passeio mas uma verdadeira aventura.

Para atingir este objetivo, foi inevitável modificar a história. A começar por Alice, agora uma jovem mulher cortejada para se casar em breve. O ambiente real, rígido e com destino pré-estabelecido, serve de contraponto à surrealidade existente logo após a jovem partir atrás do coelho branco. Assim que isto acontece entram em cena os efeitos especiais, ampliados pelo 3D. O mundo onírico passa por detalhes como a vegetação e vai até a mudança física de certos personagens, como a Rainha de Copas (Helena Bonham Carter, ótima). Além de seu gênio irascível, ela agora é dona de uma descomunal cabeça. Motivo suficiente para criar um trauma de infância, importante no desenvolvimento do confronto com uma personagem ausente no clássico desenho da Disney, a Rainha Branca (Anne Hathaway, um pouco artificial devido aos movimentos excessivamente delicados).

Mas aonde entra Alice nesta trama? Ela é a escolhida, aquela que pode trazer paz ao País das Maravilhas. Assim como no mundo real, seu destino está traçado: enfrentará o perigoso dragão da Rainha de Copas no Dia Frabuloso. Original? Claro que não, mas isto não é tão importantante neste caso. A transformação da história tem relevância maior, de forma que a tarefa de Alice permita o surgimento de uma nova subtrama. Além de seu passeio pelo País das Maravilhas, agora Alice é peça chave no confronto entre as duas rainhas. Mais do que isto: possibilita a inserção de cenas de ação, sempre essenciais nas grandes produções hollywoodianas. Bingo!

Mais até do que a disputa entre as rainhas, chama a atenção o comportamento de seus súditos. É a típica questão em torno de um governo ditatorial, aplicada nos personagens. Entre eles está o Chapeleiro Louco de Johnny Depp. Famoso por suas transformações a cada filme, Depp cria um personagem entre a loucura e a sabedoria acerca da situação política do local onde vive. Seria a loucura mero pretexto? A pergunta, não respondida, deixa a pensar. Independente dela, a impressão que fica é que Depp está aprisionado à caracterização e aos efeitos especiais de seu personagem. Trata-se de um trabalho correto, mas sem brilho próprio. Assim como quase todos os integrantes do elenco, com exceção à já citada Helena Bonham Carter e a Alan Rickman, com sua voz inconfundível na pele da Lagarta.
 
Alice no País das Maravilhas é um filme que vale muito a pena ser visto, se possível em 3D. Pelo visual deslumbrante, por Helena Bonham Carter e, em especial, pela recriação do universo de Lewis Carroll. Mais do que um roteiro cuja trama principal é, de certa forma, previsível, trata-se de um filme onde os detalhes têm importância crucial. É filme para admirar o quanto Tim Burton e a roteirista Linda Woolverton tiveram que usar a cabeça para trazer algo de novo a personagens tão conhecidos. Mas não se engane, não é também a obra prima que muitos esperavam. O próprio Burton tem trabalhos melhores em sua filmografia. O que, de forma alguma, diminui o prazer que é acompanhar esta viagem ao criativo e louco País das Maravilhas.

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