Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Cisne Negro
    Críticas AdoroCinema
    4,8
    Obra-prima
    Cisne Negro

    Na Pressão

    por Francisco Russo

    O clássico "O Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky, é um desafio e tanto para sua bailarina principal. Cabe a ela interpretar as duas facetas principais, de personalidades distintas. Se o cisne branco é puro e imaculado, o negro tem a malícia no olhar e o desejo espelhado no corpo. Interpretá-los exige devoção aos personagens, de forma a convencer e conquistar o público. Se já é algo complicado para bailarinas experientes, ainda mais para um novata. É esta a situação enfrentada por Nina, interpretada com maestria por Natalie Portman em Cisne Negro.

    Nina é uma jovem frágil, medrosa, repleta de traumas. Integra a companha de balé do rigoroso Thomas Leroy (Vincent Cassel, convincente) e sonha com a vaga que será aberta graças à aposentadoria da estrela Beth MacIntyre (Winona Ryder, irreconhecível). Em meio a piadas maldosas sobre a idade de Beth e o acirrado clima competitivo entre as bailarinas, Nina busca manter a sanidade. Física, no sentido de cuidar do corpo para o rigor exigido pelo balé, e mental, de forma a manter o foco. Ela quer a vaga aberta e irá lutar por ela. Para tanto, tem um objetivo: alcançar a perfeição.

    O mundo de Nina vem abaixo quando Thomas lhe diz que ela é o cisne branco perfeito, com movimentos precisos e calculados, mas peca como cisne negro. Nina não tem a malícia nem o desprendimento necessários e não faz a menor ideia de como adquiri-los. Ela é então submetida a uma espécie de terapia de choque, na qual o sexo bate à sua porta. Incentivada a descobri-lo, aos poucos Nina deixa de ser uma menina para se tornar mulher. Uma transformação que trará consequências, não apenas pessoais mas em especial no relacionamento com sua mãe superprotetora, Erica (Barbara Hershey, ótima).

    Para completar, Nina tem uma persistente marca nas costas, sintoma do passado e demonstração do seu estado de nervos à flor da pele. Não é à toa, afinal de contas ela precisa lidar com pressão por todos os lados. Seja pelo papel conquistado, por ter que provar que pode e merece interpretar o cisne negro, pela rivalidade existente com as demais bailarinas, o medo em ser substituída, a opressão vinda de sua mãe e a estreia como estrela principal da companhia. Ufa! Em meio a tantos temores, há ainda as peças pregadas por sua mente. Sem saber o que é verdade ou mentira, Nina precisa lidar com seus medos interiores expostos diante de si, muitas vezes de forma aterrorizante.

    Todo este processo é trazido de forma paulatina e crescente pelo diretor Darren Aronofsky, como se Cisne Negro fosse uma ópera cujo ato final é apoteótico. Um trabalho majestoso, que conta com o auxílio luxuoso da fotografia, edição e trilha sonora. É compreensível que a Academia tenha vetado uma indicação ao Oscar devido ao largo uso das composições de Tchaikovsky, mas é também inegável a importância da música na condução da história. Sem ela, "O Lago dos Cisnes" não seria o mesmo. Cisne Negro também.

    Cisne Negro é um filme excelente, que traz Aronofsky em plena forma. O dedo do diretor é onipresente, desde as provocações masculinas a Nina até as cenas fortes, que lembram em certos momentos os anteriores Pi e Réquiem para um Sonho. Um filme sombrio, tenso e por vezes aterrorizante, com uma Natalie Portman que explora com talento as nuances de uma personagem tão fragilizada emocionalmente e, ao mesmo tempo, que precisa seguir em frente para alcançar seu sonho: a perfeição.

    Quer ver mais críticas?
    • As últimas críticas do AdoroCinema

    Comentários

    Mostrar comentários
    Back to Top