O novo filme do diretor Roman Polanski, baseado no romance de Robert Harris, foi com certeza o filme mais ansiosamente esperado deste ano. Claro que o sistema de prisão domiciliar em que o diretor se encontra desde setembro de 2009 instiga ainda mais. Como se o filme fosse o último contato de Polanski com o mundo e vice versa.
A imprensa alemã, em nota especulativa, mencionou que a edição do filme teria sido feita depois da prisão domiciliar, criando um aura ainda de maior suspense em torno da obra.
Nesta coprodução Alemanha/França/Inglaterra, Polanski deixa mais uma vez muito claro que é um mestre na arte de fazer cinema. Aquele que gosta de Polanski e conhece suas obras já tem o olhar treinado. O diretor nos delicia com o esmero nos detalhes. O espectador desenvolve ao longo do filme um olhar investigativo pela trama e como a mesma é colocada em cena.
O thriller não tem a profundidade de um O Bebê de Rosemary nem de Chinatown, mas é totalmente conforme com este periodo de alto nível de globalização em que nos encontramos. A dicotomia global x local é colocada em cena de forma magistral.
Claro que o humor alfinetante não poderia faltar. Desta vez sobrou para os britânicos. No filme, o mundo se divide entre britânicos e não britânicos. Excelente contraponto, quando do outro lado da trama se desvenda aos poucos um mistério de grande conceito global.
A escolha dos protagonistas é pólvora para discussões acaloradas entre cinéfilas e cinéfilos. Pierce Brosnan, no papel do político Adam Lang (que muitos atribuiem à figura do ex premier britânico Tony Blair) não está em sua melhor atuação.
Olivia Williams, no papel de sua esposa Ruth, traz ao filme a inquietude que um personagem de um thriller precisa ter. Mas quem rouba mesmo a cena na tela é Kim Cattrall. A ela foi dada a oportunidade de se mostrar em outro personagem que não seja a Samantha, de Sex in the City. No papel da leal e eficientíssima secretária de Lang (Pierce Brosnan), ela esbanja talento com sua presenca exata em cena. O personagem eclético a oferece possibilidades de expressar suas muitas facetas, até agora escondidas. Sem estar presa à ditadura do culto do corpo, como em Sex in the City, Kim se mostra com ums quilinhos a mais e prova, em sua ecleticidade, ser uma excelente atriz além de continuar exuberante, o que não foge às lentes de Polanski, que sabe ressaltar isso em cenas que se repetem sempre no mesmo ângulo.
Ewan McGregor convence mais pela simpatia que o seu personagem suscita do que pela sua própria atuação. Mas o excelente roteiro de Robert Harris em parceiria com Polanski segura o personagem muito bem. Aquele jovem autor que cai na ganância do seu agente literário, e pelo desafio com o qual é confrontado, se torna um astuto detetive, mas nunca perdendo aquele olhar de espanto, que só tem quem não está acostumado com falcatruas, intrigas de alto nível e sherlockiana complexidade. O ganho de McGregor é que ele consegue instigar a cumplicidade e a simpatia do espectador para acompanhá-lo em seu trabalho de detetive.
Na fileira da frente do cinema principal do festival estavam sentados, à minha frente o diretor Werner Herzog ao lado da atriz Renée Zellweger, que causou surpresa na platéia quando apareceu pontualmente às 11:15 h para a projeção, como quem vai para o trabalho.
Na coletiva de imprensa, logo depois do filme, Pierce Brosnan foi questionado por uma repórter sobre como recebeu a notícia de prisão de Roman Polanski: "Eu recebei um telefonema de um amigo de Berlim e fiquei totalmente chocado, repetidamente durante dias me perguntava como isso poderia ter acontecido."
As filmagens externas de The Ghost Writer foram feitas na ilha de Sylt, norte da Alemanha, onde a elite alemã reside e/ou passa as suas férias. Em solo europeu, o filme tem estréia marcada para 18 de fevereiro.
The Ghost Writer não tem o ingrediente para levar um Urso, seja ele qualquer. A não ser que por uma razao política, como símbolo de solidariedade com o diretor.
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