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    The Get Down - Parte 2: Série derrapa no melodrama, mas acerta na paixão pela música (crítica)
    Por João Vitor Figueira — 8 de abr. de 2017 às 09:00

    Segunda parte da primeira temporada da série da Netflix sobre a gênese do hip-hop em Nova York estreou no serviço de streaming na última sexta-feira (7).

    A segunda parte da primeira temporada de The Get Down começa com o sempre reflexivo protagonista Ezekiel em um dos últimos andares de um arranha-céu no centro comercial de Nova York. De lá, concentrado, o rapaz que veio do gueto escreve uma carta para a banca de admissão da prestigiosa Universidade de Yale enquanto reflete sobre suas origens e seus sonhos.

    Ao rememorar sua jornada pessoal, o jovem coloca no papel sua história de vida. "Eu não sou só o Bronx, sou Manhattan também", escreve ele, revelando uma das questões centrais dos cinco novos episódios da série sobre os primórdios do hip-hop: a pressão de estar dividido entre dois mundos.

    Uma outra dicotomia afeta The Get Down: A falta de equilíbrio entre a dureza da realidade dos subúrbios de Nova York no final da década de 1970, tal como é apresentada de forma documental nas imagens de arquivo que preenchem a montagem da atração, e o ar excessivamente fabulesco da narrativa, que é marca registrada de Baz Luhrmann, co-criador da série ao lado do roteirista e dramaturgo Stephen Adly Guirgis.

    Felizmente, a segunda leva de capítulos não conta com nenhum episódio tão caótico e cansativo quanto o episódio piloto "Onde há ruína, há esperança de um tijolo" (P1:E1), que foi dirigido por Luhrmann, o cineasta australiano cuja veia artística afeita à excessos já deu bons frutos nos cinemas (Moulin Rouge - Amor Em Vermelho), trabalhos medianos (O Grande Gatsby) e produções nada memoráveis (Austrália). Ainda assim, mesmo sem dirigir nenhum dos novos episódios, as digitais do realizador continuam presentes em toda parte — para mal ou para bem —  e podem ser sentidas no ritmo frenético da edição, nos floreios estilísticos e na predileção pelo melodrama.

    A segunda parte de The Get Down começa um ano depois dos eventos do episódio "Levante palavras, não a voz" (P1:E6), que encerra a primeira parte da série. O ano é 1978 e o filme-zeitgeist no Bronx, distrito pobre da cidade de Nova York, não é mais Guerra nas Estrelas, mas sim Os Embalos de Sábado à Noite.

    Ezekiel "Zeke" Figuero (Justice Smith) conseguiu chamar a atenção do chefe na empresa onde faz estágio e tem chances reais de ser aceito numa universidade de renome, o que pode mudar sua vida para sempre, mas a projeção desse futuro entra em conflito com suas ambições de se transformar num artista respeitado por suas rimas. Cria das ruas, Shaolin Fantastic (Shameik Moore), o mítico maestro do The Get Down Brothers, ganha cada vez mais reputação como DJ ao mesmo tempo em que também cresce na atividade de traficante à serviço da controladora gângster Fat Annie (Lillias White) e de seu filho, o destemperado Cadillac (Yahya Abdul-Mateen II). Sem que Zeke, Ra-Ra (Skylan Brooks) e Dizzee (Jaden Smith) saibam, Shaolin acaba conseguindo uma vaga para Boo-Boo (T. J. Brown Jr.) como "aviãozinho" no submundo do tráfico, o que aos poucos se tornará uma atividade insustentável.

    Enquanto isso, a carreira de Mylene (Herizen F. Guardiola), namorada de Zeke, aponta para rumos promissores, mas a jovem está pressionada entre as expectativas de seu pai, o rígido pastor pentencostal conservador Ramon Cruz (Giancarlo Esposito), e o lascivo executivo da gravadora Marrakech Star, Roy Asheton (Eric Bogosian) — apenas Zeke, o produtor musical Jackie Moreno (Kevin Corrigan) e sua mãe, Lydia (Zabryna Guevara) estimulam a cantora a ser ela mesma.

    Numa análise geral, o tom colorido e animado prevalece na primeira temporada de The Get Down, mas os recentes episódios trazem uma atmosfera mais densa para o enredo da série — e isso é muito bom para a atração como um todo, pois cria-se contrastes climáticos.

    Por mais que a história não traga elementos necessariamente novos — a trama engloba muitos elementos clássicos de histórias sobre os bastidores do show business e histórias ambientadas em periferias —, ela explora uma boa gama de assuntos com certa competência.

    De Kendrick Lamar à Mano Brown, de Tupac à Sabotage, um tema frequente nas letras de hip-hop é a oposição entre perseguir uma vida melhor através da arte ou sucumbir, por falta de perspectivas, à tentação do dinheiro fácil que se consegue no crime organizado. The Get Down apresenta bem esse conflito na relação entre Ezekiel e Shaolin, que mantém um laço tão forte de amizade mesmo sendo tão diferentes. O tema da objetificação feminina na indústria do entretenimento também é abordado através da postura machista de Roy, o executivo que projetou Donna Summers ao estrelato e acha que Misty Holloway (Renee Elise Goldsberry), aos 30 anos de idade, já é velha demais para ser considerada atraente. A intenção do magnata é manipular Mylene para hiperssexualizar sua figura pública.

    The Get Down: Série sobre as origens do hip hop evidencia qualidades e defeitos de Baz Luhrmann (crítica)

    A espinhosa pauta da apropriação cultural também é colocada em debate quando Ra-Ra é capaz de antecipar o impacto cultural do hip hop e o apelo comercial que o gênero terá no futuro. "O get down é o próximo grande gênero musical americano", ele diz. Na cena, o garoto prevê até a tentativa de coopatação do gênero por artistas brancos, que chegariam até a ofuscar artistas negros injustamente. "Eles se apoderaram do blues, chamaram de rock and roll e disseram que Elvis inventou. Os EUA são assim." Em outro momento, Cadillac, que fez uma interessante defesa da disco music na primeira metade de The Get Down, toca no assunto ao comentar a projeção que John Travolta e os Bee Gees conseguiram com Os Embalos de Sábado à Noite. "Daqui a pouco vão dizer que os carcamanos do Brooklyn inventaram a discoteca."

    Dentre os diversos diretores que comandaram episódios da série, o destaque fica para o trabalho de Ed Bianchi (Boardwalk Empire, The Wire, The Killing), responsável por alguns dos melhores momentos da atração, como o capítulo "Busque aqueles que alimentam sua chama" (P1: E2), e sombrio "Aposte tudo" (P2: E4), possivelmente o melhor episódio da segunda parte. Neste segmento, o adjetivo caótico ganha a melhor conotação possível, com destaque para a cena da igreja, muito bem fotografada.

    The Get Down pode ter seus excessos e esbarrar na pieguice (vide a festa na casa de Jackie Moreno, com uma inserção nada orgânica de Dee Dee Ramone como personagem da cena) sem ressalvas em determinadas sequências, mas há momentos em que os excessos são muito bem vindos. Praticamente todos os números musicais, sejam os de Mylene ou dos The Get Down Brothes, são filmados de uma forma vibrante e gloriosa, evidenciando o respeito que os realizadores tem pela arte que move os protagonistas. Essa direção confere aos shows a exuberância e pompa necessária para retratar o momento de ebulição criativa da Nova York do final dos anos 70. Vale destacar também o trabalho dos coreógrafos Anthony Talauega e Richmond Talauega, que abrilhanta ainda mais as apresentações do grupo de rap.

    Conceitualmente, The Get Down lembra aspectos de Vinyl. Ambas tiveram um orçamento altíssimo para os padrões de produções televisivas, se passam na mesma década, na mesma cidade, tratam do surgimento de novos gêneros musicais e tem o episódio piloto dirigido por um nome conhecido do cinema mundial. A diferença é que é fácil se identificar com o amor de Zeke, Shao e sua trupe pela música, quando na sére da HBO era preciso fazer muito esforço para aguentar o protagonista, um produtor musical que parece nem se importar tanto assim com música.

    Além de ser uma ode à criação, mostrando como o hip-hop nasce na soleira da derrocada da disco music e do descaso do poder público, The Get Down também é um elogio à paixão adolescente, à gana, à vontade de viver e deixar sua marca no mundo que são tão latentes quando se é jovem e tem sonhos. A paixão que os move, e até mesmo suas ansiedades comuns à essa fase da vida, é o aspecto mais honesto da construção dos personagens e é daí que parte a grande ressonância desse filme com o público, que no geral avaliou a série com olhos melhores que os da imprensa especializada.

    Se a primeira parte da série homenageou o lendário Grandmaster Flash (a cena em que o DJ ensina Shaolin a produzir um beat é uma das melhores da atração), a segunda metade abordou a figura de Afrika Bambaataa, lendário DJ que liderou a Zulu Nation e ajudou a espalhar o hip-hop pelo mundo. O pai do electro-funk tem seu momento quando o ator que o interpreta explica a importância do sample na produção de beats com ênfase no valor criativo de se retrabalhar gravações dos quatro cantos do mundo para criar algo completamente novo.

    Ainda falando sobre música, é pouco provável que outra série ou filme iguale a qualidade da trilha sonora de desta atração em 2017. Earth, Wind & Fire, David Bowie, Donna Summer, Gloria Gaynor, Nina Simone, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Chic, The Jackson 5, James Brown... A lista de canções de grandes artistas que ajudam a compor a identidade sonora da atração é quase interminável.

    Entretanto, apesar dos bons personagens, o roteiro contém rodeios desinteressantes e fartamente melodramáticos, como as constantes brigas entre Shaolin e Ezekiel e o fato de Zeke encarar o dilema de ter que escolher entre Shao e Mylene em diversas ocasiões. 

    Um personagem que definitivamente não ganhou um sub-plot interessante foi Dizzee. Para piorar, muitas das cenas dele parecem involuntáriamente engraçadas por conta da pouca expressividade da atuação de Jaden Smith.

    Outro ponto fraco são as inserções de animações cartunescas, inseridas bruscamente na montagem em diversas ocasiões, prejudicando o fluxo narrativo do filme. Algumas sequências são tão desnecessárias que perguntar carece: Será que elas estão ali para disfarçar cenas live-action que não foram filmadas ou não ficaram boas? A animação é tão precária que nem parece integrar uma série que custou exorbitantes US$ 120 milhões.

    Quanto às atuações vale destacar o ótimo trabalho do trio principal. Justice Smith cobre com habilidade as facetas de Ezekiel, da ternura à seriedade. Herizen Guardiola tem a voz de uma diva e demonstra muita maturidade em seu primeiro trabalho para a TV. Talvez a melhor atuação seja mesmo a de Shameik Moore, que compõe Shaolin Fantastic explosivo, que imprime humanidade no DJ dos The Get Down Brothers mesmo ciente do caráter quase folclórico do personagem. Yahya Abdul-Mateen II também se sai muito bem como o gângster Cadillac. É sempre bom ver o ótimo Giancarlo Esposito atuar, mas o personagem dele, o Pastor Ramon Cruz, é tão unidimensional que a atuação dele se torna previsível.

    De uma forma geral, The Get Down acerta na música e derrapa no melodrama, mas no final das contas o produto final traz mais prós do que contras, especialmente por causa do retrato apaixonado que faz de seus heróis.

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