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    Deus e o Diabo na Terra do Sol em 4K: "Filme volta para fazer o mesmo tipo de resistência de 1964", afirma Paloma Rocha, filha de Glauber
    7 de jun. de 2022 às 18:03
    Diego Souza Carlos
    Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.

    Indicado à Palma de Ouro em 1964, clássico do Cinema Novo retornou ao Festival de Cannes em 4K.

    Clássico do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol está de volta com uma nova versão. O longa de Glauber Rocha, pai do Cinema Novo, teve sua reestreia no Festival de Cannes na metade de maio. O longa recebeu uma cópia restaurada em 4K a partir de um árduo processo iniciado em 2019 e concluído recentemente, mais de 40 anos após a morte do realizador baiano.

    Em entrevista ao AdoroCinema, Paula Rocha, filha do cineasta responsável pela obra, falou sobre o novo ciclo da narrativa, que teve sua primeira exibição mundial no mesmo festival, em 1964, sendo indicado à Palma de Ouro na ocasião.

    “Voltar para Cannes é recolocar o Glauber no lugar que é dele, onde estão os maiores diretores do mundo”, explica a cineasta. “É o percurso natural de sua obra: circular por estes festivais de cinema que valorizam o cinema. O Festival de Cannes é, com certeza, o maior deles. É importante partir daqui também, porque tem o mercado, grandes distribuidoras do mundo estão aqui. O filme está previsto para ter um lançamento na Cinemateca de São Paulo como première brasileira e mundial.”

    O longa foi escolhido para restauro não apenas por sua importância cultural e histórica, mas pelo fato de sua última versão digitalizada ter sido feita em 2002, com qualidade inferior à atual.

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    Paloma reforça que o rigor estético da obra de Glauber, que agora podem ser vistos em uma nova qualidade no cópia 4K, sobrevive ao tempo através da liberdade de dramaturgia do cineasta. “Os atores tinham liberdade. Glauber encena, faz um teatro, ele filma como um documentário. Aquela escadaria do Monte Santo é a escadaria de Odessa, do Encouraçado Potemkin", declara ao fazer conexões com o clássico de Serguei Eisenstein.

    "Para mim, na verdade, mudou pouca coisa, porque tudo continua igual no Brasil", compartilha a produtora sobre a passagem do tempo entre as versões do longa. "Continua se arrastando com uma pedra na cabeça, as pessoas com fome, acreditando numa fé de que a Terra vai ficar plana, cheia de leite, está igualzinho! Só que antigamente o vaqueiro Manuel acreditava que ia beber leite no rio, agora as pessoas acreditam que a Terra vai ficar plana. Acho um pouco isso, sem escracho nenhum. Não mudou nada, acho que piorou inclusive.”

    O longa foi lançado na década de 1960, período crítico do Brasil com o início da ditadura militar, e hoje retorna para novas e velhas gerações sob uma crise política que se instaura no país. Sobre a questão, Paloma é pontual:

    Curiosamente, o filme volta para dizer a mesma coisa que disse em 1964, ele vem para fazer esse mesmo tipo de resistência na época. A história continua e vamos para frente! Muita pedra na cabeça para carregar.
    Processo de restauro

    O novo restauro foi realizado na Cinecolor, empresa parceira da Cinemateca Brasileira, onde estava armazenada a cópia em película – cinco latas de negativos 35mm em perfeitas condições. Apesar disso, parte da obra de Glauber foi perdida no incêndio que atingiu um dos galpões da Cinemateca, em São Paulo, em julho de 2021.

    Lino Meireles, responsável por produzir essa nova versão do projeto, discorreu sobre o intenso processo de restauro, em que a pandemia colocou novas dificuldades ao projeto. “A maior dificuldade foi a incerteza da gente sobreviver”, brinca o diretor de Candango: Memórias do Festival sobre o período pandêmico que se instaurou poucos meses após o início do projeto.

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    Paloma complementa: “O processo foi inteiramente feito no Brasil com a participação de técnicos que conhecem cinema de película para que a gente pudesse ser o mais fiel possível ao negativo original do filme e às concepções estéticas dos técnicos da época.”

    Qual é a história de Deus e o Diabo na Terra do Sol?

    Na trama, o vaqueiro Manuel (Geraldo del Rey) e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães) fogem para o sertão depois que ele mata um coronel que tenta enganá-lo. No ermo brasileiro, violento e assolado pela seca, eles encontram duas figuras icônicas: Sebastião, que se diz divino, e Corisco, que se descreve como demoníaco. Amarrar seus destinos com essas figuras é uma decisão trágica, no entanto, pois o mercenário Antonio das Mortes está em seu encalço.

    Atualmente, o filme está disponível no Telecine. 

    Deus e o Diabo na Terra do Sol
    Deus e o Diabo na Terra do Sol
    Data de lançamento 10 de julho de 1964 | 2h 00min
    Criador(es): Glauber Rocha
    Com Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Mauricio do Valle, Lidio Silva
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    4,1
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