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    "Precisamos restaurar nossa cultura cinematográfica", afirma diretor Neville D'Almeida em debate sobre passado e futuro do mercado audiovisual brasileiro
    Por Barbara Demerov — 9 de set. de 2018 às 09:42

    Um dos homenageados do Festival de Vitória 2018, a marcante figura do Cinema Marginal conversou com público e imprensa.

    Após receber o Troféu Vitória em comemoração aos 50 anos de carreira no Festival de Vitória 2018Neville D'Almeida participou de um debate com o público e a imprensa para falar sobre sua vida e o documentário baseado em sua trajetória: Neville D'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos, de Mário Abbade.

    Audacioso e comunicativo, o também artista plástico não poupou palavras ao expressar tudo o que pensa sobre o cenário contemporâneo do cinema brasileiro. O bate-papo atravessou passado, presente e futuro e manteve todos os que estavam presentes concentrados nos pensamentos de um dos representantes do movimento antagônico ao Cinema Novo.

    Figura notável que beira o marginal com a pornochanchada, Neville defende avidamente o respeito ao passado. "Aqui nós não temos muita memória. Como vamos pesquisar aquilo que se perdeu?", questiona, referindo-se ao desastre que ocorreu no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. "O cinema também não foi bem cuidado, não foram restaurados muitos filmes", diz, criticando ainda a ANCINE e os editais que a Agência Nacional do Cinema lança para diretores e roteiristas que buscam apoio financeiro para iniciar ou impulsionar suas carreiras.

    "Por que não usar todo o dinheiro de editais, que não é pouco, para restaurar filmes do passado? Como teremos uma indústria de cinema consolidada se não há preservação?", pergunta. Neville ainda compara o Brasil com Hollywood, que não só restaura como mantém materiais tão antigos quanto os que foram produzidos durante a época em que começou a trabalhar. "Nos Estados Unidos há testes de Marilyn Monroe, materiais de Marlon Brando, todos restaurados e mantidos a temperaturas ideais para que nunca se percam".

    Sergio Cardoso
    Mário Abbade e Neville D'Almeida no palco do Festival de Vitória.

    O cineasta, que não gosta de ser classificado como diretor do Cinema Marginal pois "não é um maldito" (forma como classifica o significado da palavra 'marginal'), se mostra decepcionado com o fato de que mais de metade dos filmes brasileiros feitos na época da Ditadura Militar, ou até mesmo antes dos anos de chumbo, foram perdidos por falta de conservação adequada. "Precisamos nos esforçar para restaurar 500 filmes, e não 5 ou 10", aponta.

    Assim como defende o passado, Neville também defende a arte como um todo: "Conhecer a história da arte, do cinema – que só existe há 120 anos, nos faz mais feliz e completos. Como fazer cinema sem conhecer sua história?", diz, antes de declarar que, para ele, fazer filmes hoje é muito mais fácil graças ao apoio que a ANCINE cede a jovens profissionais. Ele ainda dá uma dica para quem quer seguir o caminho do audiovisual: "Mais importante que o talento é o conhecimento".

    Fã e posteriormente amigo de Nelson Rodrigues, Neville adaptou duas de suas obras, sendo uma originada de um conto (A Dama do Lotação) e outra do teatro (Os Sete Gatinhos). Ele ainda gostaria de completar uma trindade de adaptações. "Falta só um romance. Eu sempre quis fazer um romance do Nelson, mas não consegui realizar esse sonho", diz, pensativo.

    Nelson Rodrigues, Sônia Braga e Neville D'Almeida.

    O debate rendeu também reflexões sobre o papel da mulher no cinema. O diretor afirma que sempre reverenciou a presença feminina em seus filmes – especialmente com Sonia Braga, Claudia RaiaDenise Dumont e Vera Fisher. Para o atual momento, Neville é convicto de um pensamento bem específico: "O cinema não pode ser um negócio de homens e só vai melhorar quando houver mais mulheres dirigindo filmes. O cinema ainda não conheceu sua plenitude", afirma, antes de brincar: "Há filmes maçantes dirigidos por mulheres? Sim, assim como há mais de 100 anos de filmes chatos feito por homens".

    Sobre o documentário feito com base nos 50 anos de vida e carreira, o festivo diretor de Rio Babilônia se sentiu extremamente bem definido na obra: "Nas primeiras vezes que o assisti, não conseguia parar de chorar. Foi como se eu me conhecesse de verdade através deste filme, após o que Mário Abbade fez".

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    Comentários
    • Jonathan Kennedy
      filmes são memorias e memorias não podem ser esquecidas, se forem o conhecimento também se vai.
    • Vidamell Vida R.
      massa
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