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    Anima Mundi 2018: Prévia de curtas aponta para pluralidade de propostas e temas densos
    Por João Vitor Figueira — 15 de jul. de 2018 às 11:11

    Festival dedicado ao cinema de animação acontece no Rio de Janeiro de 21 a 29 de julho e, em São Paulo, de 1º a 5 de agosto.

    A safra de filmes selecionados para a edição deste ano do Anima Mundi promete hibridismos estéticos, temáticas densas e trabalhos voltados para adutos. Ao menos foi o que indicaram os 11 curtas-metragens exibidos para a imprensa em uma prévia do tradicional festival na tarde da última quinta-feira (12), no cinema do CCJF- Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro.

    Os trabalhos selecionados foram apenas uma pequena fração dos 405 curtas, médias e longas de 40 países programados para o evento, que será realizado no Rio de Janeiro de 21 a 29 de julho e, em São Paulo, de 1º a 5 de agosto. O bom nível das produções, algumas premiadas em festivais de renome como o Festival de Annecy, realizado na França, deu o tom da projeção das obras.

    Por conta da intensa produção voltada para o público infantil, o cinema de animação costuma ser associado por grande parte do público médio a um universo mais lúdico e pueril — o que até faz sentido, uma vez que a maior parte das animações que chega ao circuito comercial de salas de cinema tenham os pequeninos como público-alvo. Uma prova desse tipo de associação foi a revolta de pais conservadores contra a exibição de Festa da Salsicha no Brasil por um canal de TV por assinatura, que temiam que seus filhos fossem atraídos pelas profanidades do longa-metragem corroteirizado por Seth Rogen. Entretanto, animação é apenas um meio, não um gênero, e festivais como o Anima Mundi são uma boa oportunidade de dar espaço para propostas e discussões que não usualmente chegam ao público dos cinemas ou TV com facilidade. 

    Boa parte dos 11 curtas que organização do festival escolheu projetar para a imprensa levaram para a telas temas como questionamentos políticos, a exploração imagética do grotesco, obras experimentais sobre sensações, devaneios sinestésicos e abordagens afetivas da memória dos criadores. Talvez o contexto do Brasil, país que vive um clima de insatisfação política, vive um período economicamente ruim e está perto de entrar em uma campanha presidencial que promete ser turbulenta (para dizer o mínimo), seja um bom território para animações assim, especialmente as mais melancólicas e sarcásticas. Além disso, a multiplicidade de estilos visuais só reforça os vastos caminhos criativos possíveis do meio de forma estimulante.

    Abaixo, leia a opinião do AdoroCinema sobre alguns dos curtas-metragens do Anima Mundi 2018. Para maiores informações sobre sessões, horários e a programação completa, acesse o site oficial do festival.

    Guaxuma, de Nara Normande - Brasil, França

    Exibida no Festival de Annecy e anunciada no Festival de Gramado, a animação Guaxuma impressiona pela execução técnica e pela sentimentalidade como a diretora Nara Normande faz um passeio por suas memórias de infância a partir da figura de uma criança amiga com quem manteve um laço estreito quando criança e adolescente. A areia, signo metafórico do tempo, ganha a tela materializando lembranças em uma obra marcada por um olhar agridoce para o passado da própria criadora na praia de Maceió que dá nome ao curta. A meticulosidade do trabalho de animação em stop motion chama a atenção positivamente não apenas pela forma como é executado, mas pela criatividade nas maneiras que representa a os momentos mais tenros das meninas Nara e Tayra. O uso de de fotografias e imagens live-action marca o hibridismo de um filme que narrativamente fica entre o drama e o documentário, um tipo de proposta que é tendência recente do cinema brasileiro.

    Fins de Semana (Weekends), de Trevor Jimenez - Estados Unidos

    Premiado por público e crítica neste ano em Annecy, Fins de Semana se passa na cidade Toronto da década de 1980 e acompanha a rotina de um menino que é filho de pais recém-divorciados e vaga entre as casas dos dois. Desenhado à mão, o trabalho do diretor Trevor Jimenez (também animador na Pixar) se destaca no roteiro que, mesmo sem diálogo, consegue dar conta de transformar as figuras centrais em algo mais do que arquétipos, com o aprofundamento de personagens que os 16 minutos de duração permitem. Há muitas formas de se abordar o sentimento agridoce de uma criança que ama seus pais, mas é forçada a se dividir entre eles e o diretor desenvolve muito bem sua escolha por fabular a narrativa com a imaginação do menino. A frutífera imaginação infantil aparece como válvula de escape para situações emocionais complexas e rende momentos surreais bem representados pelo traço de Jimenez.

    Comportamento Animal (Animal Behaviour), de Alison Snowden e David Fine - Canadá

    Um porco, um gato, uma louva-a-deus, uma sanguessuga e um passarinho vão à terapia de grupo comandada por um cachorro. A premissa de Comportamento Animal parece a início de uma piada que o roteiro dos diretores David Fine e Alison Snowden mostra ser muito engraçada. No primeiro curta-animado da dupla desde o vencedor do Oscar Bob's Birthday (1994), as ansiedades dos bichos durante a sessão de psicoterapia brincam com a possibilidade de seres movidos por impulsos lidando com questões de sua natureza. A animação é meramente funcional e tecnicamente não impressiona, mas o resultado é cômico, claro, mas também sensível. 

    Livre do Medo (Freedom From Fear), de John Morena - Estados Unidos

    O curta-metragem Livre do Medo, com menos de dois minutos de duração, foi prejudicado por ter sido exibido fora de seu contexto. O trabalho é um brevíssimo comentário pacifista sobre violência armada nos Estados Unidos, com armas de fogo e projéteis sendo lançados numa privada. A obra faz parte de um conjunto de 52 curtas feitos semanalmente por John Morena no ano de 2017. Sozinha, é apenas um esboço de um todo, um tuíte visual.

    A Mulher Canhão (La Femme Canon), de David Toutevoix e Albertine Zullo - Canadá, Suiça, França

    Voar é um dos símbolos universais da liberdade, mas os diretores David Toutevoix (diretor de fotografia do ótimo Minha Vida de Abobrinha) e Albertine Zullo subvertem esse símbolo em uma história cheia de alegorias envolvendo a falta de autonomia de uma mulher no casamento. Neste curta animado com a técnica claymation, Madeleine atua como bala de canhão humana em um número itinerante organizado por seu marido e seu cotidiano é marcado por ações que a desgastam. Poético e vagaroso, o filme conta com um desfecho surpreendente e é mais um bálsamo de melancolia da seleção do Anima Mundi deste ano.

    Felicidade (Happiness), de Steve Cutts - Reino Unido

    O capitalismo é a raiz de todos os males em Felicidade, ácida crítica ao materialismo que cruza o tom cínico de Eles Vivem com os comentários sobre a sociedade de consumo presentes na obra de Andy Wharol. Dinâmico, intenso e impiedoso, o curta pode até investir em uma desgastada comparação entre humanos e ratos, mas é capaz de desenvolver bem o comentário sobre a impotência do sujeito em um mundo dominado por grandes corporações. Premiado em Annecy.

    Rolê (Ride), de Paul Bush - Portugal, Reino Unido

    Chamando mais atenção para a linguagem visual do que para o fiapo de enredo — um homem que se prepara para fazer um passeio de moto —, Rolê é um curta que desperta curiosidade sobre o processo de produção exaustivo que o filme deve ter tido sem se preocupar em entregar muita coisa além disso. Estruturado como um stop-motion feito com fotografias, o filme exibe a variedade de um acervo de motocicletas das décadas de 1950 e 1960, que aparecem e dão lugar a modelo novo a cada frame.

    Leve o Coelho (Take Rabbit), de Peter Peake - Reino Unido

    Peter Peake, indicado ao Oscar em 2000, apresenta sua versão de um clássico dilema presente em diversas culturas. Como transportar uma uma raposa, um coelho e um repolho de um lado para o outro de um rio, uma vez que impossível carregar tudo no mesmo barco, uma vez que o canídeo é um predador do coelho, que por sua vez, é herbívoros e irá devorar o vegetal. Embora a história seja conhecida, o roteiro surpreende e traz novos motivos para as criaturas não poderem ficar juntas. Tudo isso com um bom ritmo das piadas que são ressaltadas pela animação minimalista de traços funcionais.

    A Origem do Som (The Origin of Sound), de Paul Driessen - Bélgica, Holanda 

    Com mais de cinco décadas de carreira, Paul Driessen (que trabalhou como animador em O Submarino Amarelo) explora o território do grotesco, do absurdo o filme mais idiossincrático exibido para a imprensa na cabine do Anima Mundi. A Origem do Som se passa na oficina de um cientista louco que usa humanos para reproduzir os sons. Quase flertando com o terror, por conta da estranheza das figuras humanas na animação stop motion baseada em fotografias, o filme intercala diversas vinhetas, cada uma desenhada em um estilo diferente, com situações escatológicas. De início, é interessante tentar entender como Driessen vai costurar todas as animações com o enredo principal do filme, mas a partir de certo momento a obra parece usar o choque mais como um fim do que como um recurso.

    (OO), de Seoro Oh - Coreia do Sul

    Uma das graças do cinema animado é o universo de possibilidades que o formato permite. O curta-metragem sul-coreano (OO) é tão bem executado que chega a dar a impressão de que um trabalho em live action não conseguirira ter a mesma dimensão. Trata-se de um filme sobre uma sensação, um devaneio sinestésico do diretor Seoro Oh sobre o incômodo ao qual um corpo é acometido antes e durante uma crise de espirros. O trabalho chama a atenção pela peculiaridade do tema e a forma hiperbolizada como os eventos se dão conferem ao curta um efeito humorístico, além da identificação.

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