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    Festival de Berlim 2018: O que significa a vitória do drama romeno Touch Me Not?
    Por Bruno Carmelo — 26 de fev de 2018 às 08:16

    Uma "terceira via" para o cinema dos festivais.

    "Você acha que o público vai ficar muito surpreso hoje?", perguntou a apresentadora ao presidente do júri, Tom Tykwer, durante a entrega dos prêmios do 68º Festival de Berlim. De fato, nos bastidores, a escolha do Urso de Ouro para o drama romeno Touch Me Not, de Adina Pintilie, deve ter gerado um choque considerável.

    Quando o prêmio foi anunciado à plateia, a surpresa se confirmou. Dentro da sala de imprensa, onde muitos jornalistas acompanhavam a premiação, os ruídos de surpresa e os risos ecoaram por todos os lados. Touch Me Not não constava entre os favoritos, e ganhou repercussão por registrar a maior debandada durante as sessões da Berlinale. Na primeira exibição para os críticos, quando estávamos presentes, cerca de um terço das pessoas se levantou e foi embora.

    Mas seria irresponsável dizer que o filme foi unanimemente rejeitado. Os respeitados veículos Variety e The Hollywood Reporter publicaram artigos muito elogiosos à decisão de Pintilie em abordar os problemas de intimidade, retratando de modo democrático todos os corpos - bonitos e feios, saudáveis ou não, incluindo corpos de pessoas com deficiência física. Talvez os elogios tenham se dirigido mais ao tema do que à forma. Mesmo assim, constituem defesas da obra.

    Touch Me Not é um falso documentário em tom de reportagem. Explica-se: atores interpretam pessoas comuns, dando depoimentos à câmera sobre suas dificuldades em experimentar o toque, em manter relações sexuais. Alguns atores preservam seus nomes reais, enquanto outros assumem figuras mais fictícias, a exemplo do franco-islandês Tomas Lemarquis (de Blade Runner 2049 e X-Men: Apocalipse) que interpreta Tudor, participante de terapias alternativas para o contato consigo mesmo. O filme se baseia na busca pelo autoconhecimento, numa vocação intimista e patologizante.

    Entre os 19 filmes que concorriam ao Urso de Ouro, duas tendências eram claras: havia os "filmes de arte clássicos", dramas com propostas bem elaboradas, mas uma estrutura linear e convencional (Las Herederas, In the Aisles, Museo, Daughter of Mine, Mug, The Prayer, 3 Days in Quiberon), e também os filmes com narrativas radicais e formatos ousados, de vertente política evidente (U - July 22, My Brother's Name is Robert and He is an Idiot, The Real Estate, Season of the Devil, Dovlatov).

    O único representante que fugia a essas duas correntes era Touch Me Not. Nem linear, nem exatamente experimental; nem politizado no estrito do termo, nem de narrativa convencional, ele constitui um ponto fora da curva. Em meio a um festival tão afeito a questões sociais, este filme se fecha sobre o indivíduo e suas batalhas internas. O mundo fora do consultório/sala de entrevistas não existe.

    Pode-se dizer que a política se encontra na representação igualitária dos corpos, que inclui o sexo sem julgamentos e a valorização do corpo transexual, dois fatores realmente louváveis. O urso de Ouro a este projeto também reforça o cinema dirigido por mulheres pelo segundo ano consecutivo - após a vitória de Corpo e Alma em 2017. São aspectos favoráveis, a levar em consideração. 

    No entanto, a escolha de Touch Me Not representa tanto uma defesa deste cinema pós-moderno e terapêutico quanto uma recusa das outras formas de cinema. Dispondo de uma série de dramas narrativos e experiências ousadas, o júri deliberadamente escolheu não premiar nenhum desses dois. O mesmo raciocínio foi visto em outros prêmios, como o troféu de melhor roteiro a Museo, talvez o exemplar mais comercial da mostra competitiva, e o prêmio de contribuição artística à direção de arte de Dovlatov, filme radical em diversos aspectos, menos na direção de arte.

    Este ano, a Berlinale recusou as principais vertentes do cinema "de arte" para buscar "novas formas de fazer cinema", como afirmou o júri em sua explicação. Uma forma intimista, televisiva, dolorosa, na qual o humanismo se confunde com autopiedade. Mas, de fato, uma forma distinta daquela encontrada nas seleções dos grandes festivais de cinema.

    Nossas críticas do 68º Festival de Berlim:

    3 Days in Quiberon
    7 Dias em Entebbe
    Aeroporto Central
    Ága
    Bixa Travesty
    Black 47
    Cobain
    Cross My Heart
    Damsel

    Daughter of Mine
    Dovlatov
    Eldorado
    Eva
    Ex-Pajé
    Generation Wealth
    In the Aisles
    Isle of Dogs
    Las Herederas
    A Livraria
    Mug
    Museo
    My Brother's Name is Robert and He is an Idiot 
    Pig
    O Processo
    Obscuro Barroco
    River's Edge
    Season of the Devil
    Songwriter
    Tinta Bruta
    The Happy Prince
    The Prayer
    The Real Estate
    The Silence of Others
    Touch Me Not
    Transit
    U - July 22
    Unicórnio
    Unsane
    Yardie

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    Comentários
    • Jc V.
      Num período de crise criativa no cinema premiaram o mais original, no sentido estrito da palavra. Muito bem, fico feliz por isso.
    • Mr. Dean Corso
      No quesito falso documentário, nenhum é superior à Verdades e mentiras, de Orson Welles.
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