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    Festival do Rio 2017: Equipe de Como é Cruel Viver Assim cita referências de Tarantino e irmãos Coen a Nelson Rodrigues (Entrevista Exclusiva)
    Por Rodrigo Torres — 13 de out. de 2017 às 15:30

    Marcelo Valle revela orgulho por levar aos cinemas a obra de Fernando Ceylão que estrelou no teatro, que define um novo rumo na carreira da cineasta Júlia Rezende.

    No início do ano, em visita ao set de seu novo trabalho, Júlia Rezende apontou para um novo rumo em sua carreira em Como é Cruel Viver Assim. "É realmente muito diferente de todos os outros. É um filme que tem algum humor, mas é um drama. E os personagens estão passando por uma situação que não passa por relacionamento ou história de amor, como tinha sempre", revelou a diretora à ocasião. Após sua estreia no Festival do Rio 2017, fica provado não só o seu apelo mais trágico, como um sincretismo sofisticado entre drama e comédia com influências muito interessantes.

    "Os diálogos desse filme não têm tanta influência do Tarantino, não", disse Fernando Ceylão, autor da peça que originou o longa-metragem, ao explicar a origem dos diálogos corriqueiros, sobre a cultura pop, que são uma marca de Como é Cruel Viver Assim. "A influência aqui é Nelson Rodrigues", conta o roteirista, citando a sua maior referência: o romance O Casamento, e especificamente uma cena em que o personagem vai matar a amante e, ao passar pelo porteiro, comenta: "Teu Fluminense, hein?". O escritor ainda cita o dramaturgo russo Anton Tchekhov, cujos personagens falam de coisas que não têm necessária ligação com a trama.

    Júlia Rezende não refuta a influência do cineasta de Cães de AluguelPulp Fiction (assim como não fez Ceylão) ao comentar as principais influências cinematográficas de Como é Cruel Viver Assim: "Mais do que Tarantino, os irmãos Joel e Ethan Coen. O Grande Lebowski é uma grande referência. E eu fui buscar muito desse cinema top dos anos 90. Jackie Brown, Fargo... Dos mais recentes, Clube de Compras Dallas. Enfim, esses filmes meio indies que trazem essa coisa muito pop no diálogo, e têm umas situações absurdas, uma pegada nonsense", diz a cineasta, empolgada.

    A cineasta conta que, apesar de toda naturalidade, os diálogos de Como é Cruel Viver Assim são muito fiéis ao roteiro — que, por sua vez, têm muito do texto original. "Não foi dificuldade nenhuma adaptar para o cinema, foi uma facilidade", conta Ceylão. "O difícil foi colocar a história no teatro, porque a trama sempre foi cinematográfica", revela o autor, que diz ter ficado muito feliz em encenar fatos e materializar personagens que eram só mencionados na peça — como é o caso do mítico, excêntrico e terrível Velho, vivido brilhantemente por Otávio Augusto.

    Na verdade, Como é Cruel Viver Assim é um material potente que todo o elenco interpreta com maestria. Enquanto o ex-Titãs Paulo Miklos mostra, mais uma vez, ser um ator de verdade como o bandidão Luiz, Milhem Cortaz diverte o público vivendo Flávio, um assaltante apaixonado. Porém é o quarteto principal formado por Marcelo Valle (Vladimir), Fabiula Nascimento (Clivia), Débora Lamm (Regina) e Silvio Guindane (Primo) que centraliza as boas chances do filme ganhar um Troféu Redentor de atuação.

    "A Débora Lamm é uma gênia! Uma atriz que o cinema ainda não teve a oportunidade de fazer um personagem mais denso — ela vem fazendo muitas comédias do [Bruno] Mazzeo —, e eu acho que esse filme é como uma virada pra ela", diz Júlia, que seguiu descrevendo o trabalho dos protagonistas.

    "A Fabiula é uma atriz que me emociona em cada olhar. O Marcelo é uma parceria antiga. Um cara que eu admiro muito, desde a sua carreira no teatro, e que também consegue ir pra um lugar totalmente diferente de tudo que eu já vi ele fazendo. E foi uma experiência muito boa trabalhar com o Silvio, meu marido. Na minha opinião, dos quatro, ele foi quem fez a construção mais arriscada, fazendo um personagem no limite, quase um idiota, uma pessoa doente, mas que consegue se manter na realidade", resume Júlia, feliz com o trabalho do elenco principal.

    Fernando Ceylão conta que Primo é baseado em um primo de fato, que achava curioso assim ser chamado também por seus amigos e cuja personalidade "estranha" é bem semelhante. "Teve uma vez que eu o apresentei ao Chico Anysio e ele deu um fora nele. 'Como assim alguém dá um fora no Chico Anysio?' Ele é assim, um cara meio explosivo. Eu só marginalizei o Primo."

    A marginalidade de Primo reside em seu anseio por respeito — algo que move não só os personagens a cometer um sequestro, como toda a trama de Como é Cruel Viver Assim, empenhada em mostrar pessoas invisíveis. "Acho importantíssimo a gente fazer filmes sobre o cotidiano também", diz Fabiula, que destaca um "compromisso com a realidade" e o poder de observação como características fundamentais para viver tipos populares no cinema.

    "Uma das coisas mais importantes na atuação é não ter julgamento dos personagens e não pensar com a sua cabeça. É preciso pensar o universo todo, porque [aquele personagem] existe, de onde ele veio, se ele tem estudo, educação, cultura... Tudo faz diferença", diz Fabiula, que admite sempre ter buscado conferir versatilidade à sua carreira, mas cuja consequência é uma sensibilidade pelas pessoas que se verte na tela do cinema, quando está atuando.

    Débora Lamm entende a certeza da "desempregada" Regina em realizar o sequestro como "a última saída da vida dela". E confirmou o que Júlia dissera antes: seu fascínio pela personagem, manipuladora, reside no fato de destoar das comédias que costuma fazer na TV e no cinema: "É uma escalação de uma atriz que conhece o meu trabalho, pois eu não sou uma escolha óbvia. Então, realmente, dá uma virada, dá uma abertura de leque. Então, eu gostaria, sim, de fazer mais personagens assim — que não são risonhas, não são simpáticas, não são adoradas", diz Lamm, que conclui: "Quanto mais diferente de mim, mais delicioso fica, porque fica mais difícil."

    Elenco da peça original de Como é Cruel Viver Assim

    Marcelo Valle vive o protagonista Vladimir, assim como na peça. O ator conta, porém, que também ele teve de se adaptar para interpretar o personagem no cinema. "A peça foi dirigida de um jeito, o filme, de outro. E eu me entreguei a esse exercício da linguagem. Tinha muita coisa que eu fazia na peça, do tempo, do tiro certeiro da piada, do ritmo, que eu tive que desconstruir todo no filme para estar presente no set. É completamente diferente fazer cinema e fazer teatro, né?", o ator opina.

    A ligação de Marcelo Valle com a obra é enorme, tendo sido ele o responsável por mover Ceylão, Júlia e a produtora Mariza Leão para levar Como é Cruel Viver Assim para o cinema. Foi premiado com o papel, respondeu com uma ótima interpretação. O resultado o orgulha. "Quando a gente tem um desejo, um sonho, é importante acreditar nele. Hoje, vendo o filme no telão, eu penso 'Caramba, que maneiro que essa ideia tenha partido de mim e chegado em algum lugar'. E tem sido muito legal ver as pessoas dizerem que o filme levou também a Júlia a um novo lugar na carreira dela", diz Marcelo, agradecido pela confiança dos realizadores em seu trabalho e em sua ideia.

    A produtora Mariza Leão também exaltou o trabalho de Júlia Rezende — ressaltando não se tratar de um elogio de mãe, e lançando argumentos. "Ela propõe projetos que não têm nada a ver um com o outro. Havana Baby e Diário de Classe não têm nada a ver com Como é Cruel e, depois, A Louca Sou Eu", disse Mariza, citando os próximos filmes da cineasta carioca. "Ela transita com muita liberdade entre muitos gêneros, e isso é muito legal."

    A  Première Brasil do Festival do Rio 2017 se encerrou ontem, com o filme Unicórnio. Os vencedores do Trófeu Redentor serão anunciados no domingo (15), às 19 horas, no Cine Odeon NET Claro.

     

     

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