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    "A Autópsia é um filme de terror dentro de um suspense", explica o diretor André Ovredal (Entrevista exclusiva)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Renato Furtado — 4 de mai. de 2017 às 08:15

    No filme, dois legistas precisam lidam com as forças sobrenaturais vindas de um cadáver misterioso.

    Chega aos cinemas esta quinta-feira o filme de terror A Autópsia, dirigido pelo norueguês André Ovredal. Na trama, um pai (Brian Cox) e seu filho (Emile Hirsch) trabalham como médicos legistas no porão de casa. Um dia, são encarregados de descobrir a causa da morte de uma mulher desconhecida. Mas conforme abrem o cadáver, percebem coisas muito estranhas acontecendo ao redor...

    O AdoroCinema conversou em exclusividade com o cineasta sobre este projeto singular:

    No filme, você trabalha em um espaço único. Isso torna a direção mais fácil ou mais difícil?

    André Ovredal: É uma boa pergunta. Nós definimos o espaço muito precisamente para conseguirmos filmar. Definimos onde colocaríamos a câmera e o que aconteceria, visualmente, no fundo do cenário... Se você filma em um apartamento, em uma sala de estar ou em um quarto, por exemplo, você não tem muito espaço de manobra. Mas em estúdio você pode definir o espaço, abrir caminho para onde quiser. Nós movemos tudo o que queríamos para por a câmera onde era melhor. Até abrimos a parede para colocar a câmera lá. Isso tudo pode ser feito conforme você constrói o estúdio.

    A escolha entre o que mostrar e o que esconder é uma das coisas mais interessantes nos filmes de terror.

    André Ovredal: Adoro controlar o que o público sabe ou não. Essa é uma ferramenta muito poderosa no terror. Nós aprendemos isso com os grandes diretores que trabalharam assim como Alfred Hitchcock. Hoje em dia, James Wan é um mestre nisso. Adoro quando há um grande plano de um espaço aberto e no canto há um ponto escuro, perto da porta. Essa escuridão chama a atenção. Adoro brincar com isso, era o que eu queria fazer. É uma questão de saber qual ângulo mostrar ou não para informar o público e decidir o que eles precisam saber e o que não podem saber. É algo maravilhoso.

    A Autópsia vai gradualmente do natural para o sobrenatural. Como criou essa transformação no tom?

    André Ovredal: O filme realmente passa de um suspense para um terror sobrenatural. Nesse caso, é preciso deixar que o público saiba que o filme se tornará sobrenatural. Existem inúmeras pistas dentro de A Autópsia que indicam que isso vai acontecer. É uma questão de saber trabalhar com os ângulos da câmera, com a ambientação... É um filme de terror dentro de um suspense. Criar a tensão, em termos de filmagem, tanto em um suspense quanto em um drama, é algo quase instintivo.

    Mas em um filme de terror você precisa de outro nível de tensão. Então, é preciso encontrar um meio-termo entre uma coisa e outra. Os outros elementos do roteiro também ajudam nessa transição. O rádio, o trovão... Todas essas são coisas são importantes para o terror e, no meio do suspense, já preparam o público, já avisam que o filme se tornará assustador. É um equilíbrio complicado. No meio do filme, quando acontece a reviravolta, o público precisa estar emocionalmente preparado para essa transição.

    Como foi o trabalho com os protagonistas? Eles estudaram sobre a profissão de legistas?

    André Ovredal: Sim, eles pesquisaram bastante. Emile Hirsch chegou a visitar um necrotério para acompanhar e entender o processo de uma autópsia. Brian Cox não fez isso, mas pesquisou bastante sobre os legistas, estava muito interessado nisso. Além disso, nós sempre tínhamos médicos legistas ao nosso lado, tanto durante a pré-produção quanto no set. Eles nos ajudaram nos ensaios, nos ajudaram a entender os seus procedimentos, a postura profissional.

    Como você escolheu a intérprete do cadáver? Pode um papel difícil para convencer a atriz.

    André Ovredal: Liguei para a minha diretora de elenco e descrevi as características que eu queria para a personagem. Então, ela me enviou uma foto de Olwen Kelly e percebi que ela era incrível para o papel. Nós a convidamos para fazer um teste, conversamos sobre o papel e ela já sabia de tudo, já tinha lido o roteiro e concordou com tudo o que teríamos que fazer. É um papel complicado, mas Olwen ficou tão confortável que facilitou tudo. Ela era exatamente quem eu queria para o papel. Ela tem uma força interior em sua interpretação. Não se pode entender exatamente quem é a personagem, mas tudo é passado pelo olhar e pela expressão de Olwen.

    A vontade de fazer este filme nasceu de sua experiência ao ver Invocação do Mal, certo?

    André Ovredal: Sim, com certeza. Invocação do Mal é um filme muito assustador e reviveu o gênero do terror por controlar a emoção do público, assustar a audiência e reciclar ideias de uma maneira direta, honesta. Não é um filme extremo, é apenas um terror muito bem feito. Era raro ver um filme assim. Naquela época, a maioria dos filmes eram exagerados, muito sanguinários ou muito violentos.

    O terror me parece um dos gêneros mais universais do cinema, que podem funcionar em quase todas as culturas. Você também vê dessa forma?

    André Ovredal: De certa forma, o medo é genérico, todo mundo pode senti-lo, mas, em outras ocasiões, o terror é muito pessoal, muito individual. Quando um filme é relacionado a um fantasma ou a alguém que invade sua casa, gera um medo universal. Por outro lado, monstros, por exemplo, não assustam a todos. A Autópsia é como um filme de fantasma. Não é, de fato, mas compartilha certos elementos.

     

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