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    "O Roubo da Taça é uma comédia sobre gente torta tentando acertar", afirma o diretor Caíto Ortiz (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 29 de ago. de 2016 às 15:15

    O AdoroCinema assistiu ao filme no 44º Festival de Cinema de Gramado.

    Daniel Klajmic

    Em 1983, a taça Jules Rimet, símbolo da hegemonia brasileira no futebol, foi roubada da CBF por dois bandidos inexperientes. O caso foi marcado por erros inacreditáveis: a segurança do prédio falhou, o vidro a prova de balas era preso por uma moldura frágil, a taça real foi colocada à mostra enquanto a réplica ficou guardada num cofre... Além disso, o precioso objeto acabou justamente nas mãos de um argentino.

    É uma história um tanto absurda, mas como diz o trailer de O Roubo da Taça, "uma boa parte disso realmente aconteceu". Inspirado nas comédias italianas, o diretor Caíto Ortiz criou uma divertida comédia de erros, cheia de "gente torta tentando acertar".

    Leia a nossa crítica, e descubra abaixo nossa conversa exclusiva com o diretor. A comédia estreia dia 8 de setembro nos cinemas.

    Liberdades em relação à história real

    Caíto Ortiz: Você sabe que não são tantas liberdades assim? Quando você assiste ao filme, ele é tão maluco que parece que está tomando muitas liberdades. Mas esquecendo o tom bem acima do realismo, os grandes eventos do filme são verdadeiros. O cara deve uma grana e tem a ideia genial de roubar a réplica, que também é de ouro, porque era fácil, não tinha segurança. A liberdade que tomamos foi essa: o mentor real do crime não foi até o roubo, ele enviou dois amigos, bandidos pé de chinelo. Para o filme, achamos melhor fundir os bandidos em um e colocar o Paulo Tiefenthaler na cena do crime.

    Também existe a personagem da Dolores (Taís Araújo), porque o Peralta real não tinha uma mulher. A gente queria que a Dolores costurasse a história toda, então usamos um truque antigo, fazendo com que ela fosse nossa narradora e unisse uma história que parece ser sobre futebol, mas não é. É um filme sobre um monte de gente torta tentando acertar.

    Ralph Strelow

    Uma história nunca esclarecida

    Caíto Ortiz: A história real, ou a versão oficial, é de que a taça foi derretida pelo comprador que só foi preso anos depois. Os caras que roubaram foram presos rapidamente, mas eles já tinham vendido a taça. O comprador só foi pego anos depois, por causa de uma relação com o tráfico de drogas. Ele disse que derreteu, mas nunca existiu uma prova disso. A gente achou que seria divertido ter um final diferente do que nos contam. Lutamos com vários finais até chegar nesse desfecho que prefiro não estragar agora!

    Comédia com refinamento técnico

    Caíto Ortiz: Muitas cenas nossas tinham umas duas páginas, ou seja, entre um minuto e meio e dois minutos. Eu adoro comédia, adoro dirigir atores. Eu já tinha trabalhado com o Paulo Tiefenthaler, esse cara enorme, e sei que ele se mexe muito. Parte da graça dele está neste tamanho, nestes gestos. Eu e o fotógrafo, o Ralph Strelow, resolvemos deixar a máxima liberdade para ele em cena, e depois pensamos onde colocar a câmera. Por isso, optamos pela câmera fluida, sem cortes.

    Caíto Ortiz: Ensaiamos durante um mês, quase o filme inteiro. Eu marcava cada cena, o que devia acontecer, e depois colocamos o steadycam para registrar isso. Todas as cenas com dois minutos ou menos foram filmadas em plano-sequência, isso era uma premissa do filme. Os atores estavam afiados, com timing bom, e o plano-sequência deixa o ator ficar como no teatro. Primeiro desenvolvemos as intenções, depois pensamos como filmá-las. É um refinamento técnico que a comédia geralmente não tem.

    A comédia tem muito plano aberto, parado, com fotografia menos cuidada. Juro que não entendo o porquê. A mise en scène é algo que tem se perdido muito no cinema, principalmente com a televisão. A TV está acostumada com muitas câmeras. No filme, sempre me perguntavam se eu não preferia usar duas câmeras, e só aceitei na cena de perseguição, porque fazia sentido. Uma câmera no lugar certo é muito melhor do que duas câmeras no lugar errado. Com duas câmeras ninguém se mexe muito, porque uma câmera vai entrar na frente da outra. Hoje em dia, no cinema, fica todo mundo parado em cena, falando um com o outro, depois se levanta e sai. É uma decupagem preguiçosa, porque dá muito trabalho criar uma cena longa. A facilidade do plano e contra-plano é a pior maneira de encarar o material.

    Hino à malandragem

    Caíto Ortiz: Eu nasci no Rio de Janeiro, e me mudei para São Paulo aos quatro anos de idade, mas a minha família é toda do Rio de Janeiro. Esta cidade se tornou algo idílico para mim. Eu ia lá nas férias, na casa da avó, com as tias, os primos. Esse é um Rio de Janeiro da minha memória, menos real, mas repleto da minha memória.

    Essa Copacabana da malandragem é algo que conheci, eu tenho um tio exatamente como o Peralta! Sempre sonhador, sempre achando que vai dar certo na próxima vez. Era uma malandragem inocente dos anos 1980, que depois evoluiu para outra coisa. Eu queria que este filme fosse uma ode à malandragem, ao carioquismo no melhor sentido. É este jeito de ser improvisado, de não planejar muito, de trocar a réplica pelo real, de colocar o vidro a prova de balas, mas preso por uma moldurinha. 

    Catarina de Sousa

    O que realmente aconteceu?

    Caíto Ortiz: Quando li a história numa reportagem muitos anos atrás, achei interessante porque era algo fatual, contando pontos que as pessoas não sabiam sobre o que realmente aconteceu. Eu tenho uma boa memória de quando roubaram a taça. Tinha doze anos e estava no Rio de Janeiro. Quando li todas essas loucuras, perguntei aos amigos, ao meu pai, que é grande boleiro, e perguntei ao Jairzinho, da Copa de 1970, sobre quem roubou a taça, e sobre o fim que a história teve. Ninguém sabia responder. A ditadura deu uma abafada nos eventos que são um pouco embaraçosos.

    Achei que valia a pena contar essa história, mas foi difícil encontrar o gênero. Pensei em fazer um thriller, um filme policial com perseguições, mas rapidamente a comédia torta pareceu melhor. Sou muito fã do cinema italiano, estilo Mario Monicelli, com esses personagens loucos. O desafio era botar o máximo de gente louca em frente à câmera, e começamos bem escolhendo o Paulo Tiefenthaler. O Danilo Grangheia também...

     

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