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    Olhar de Cinema 2015: Réalité é A Origem (Christopher Nolan) em versão cômica
    Por Renato Hermsdorff — 15 de jun. de 2015 às 12:55

    Isso, se o diretor de O Cavaleiro das Trevas tivesse humor...

    Brincadeira à parte, o longa-metragem francês Réalité (Realidade), exibido no último festival de Veneza, estreou na mostra competitiva do 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, com uma história (brincadeira?), que é "inception" dentro de "inception", ou seja, a inserção de uma história dentro da outra, tal qual em A Origem (cujo título original, aliás, é Inception),de Christopher Nolan - de modo a não acabar mais (o que pode ser perigoso, inclusive).

    Nolan é conhecido pela seriedade (chegou a proibir os pós-créditos em O Homem de Aço, alfinetando as cenas cômicas do tipo, típicas da Marvel). Mas de sério, o longa do francês prodígio Quentin Dupieux só tem mesmo o compromisso com a criatividade.

    Jon Heder: Ana Maria Braga indie.
    É até difícil descrever a sinopse - ainda mais sem revelar nenhum spoiler. Mas digamos que o filme, falado em inglês/ francês, reúne quatro eixos/ personagens centrais: Reality (esse é o nome da personagem), uma menininha que fica intrigada com um estranho objeto engolido por um javali; Jason (Alain Chabat), um cinegrafista inocente, que tem uma ideia bastante... trash para seu primeiro filme como diretor; Dennis (Jon Heder), um apresentador de um programa de TV sobre culinária que não pára de se coçar; e um barbudo diretor de escola que guia um jipe militar vestido de mulher.

    Na realidade (ba dum tssshhh), o universo de Dupieux (diretor de Rubber e Wrong) - também conhecido como o DJ Mr. Oizo - está muito mais próximo do de outro conterrâneo dele: Michel Gondry. Réalité combina o aspecto onírico de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças com os traços "surrealistas" de A Espuma dos Dias, se valendo da metalinguagem de Rebobine, Por Favor.

    Ao longo de pouco mais de uma hora e meia de projeção, o filme tem opções melhores (pelo menos duas) de encerramento, porém, também poderia continuar ad eternum - caminho que o diretor ensaia -, fato que só reforça a originalidade do enredo. Independente de qual seria o melhor desfecho, porém, a platéia presente na sessão pouco se importou. O longa arrancou gargalhas e aplausos no final - o que é incomum (tanto a reação do público quanto a seleção de um filme de forte veia cômica) e louvável - para um festival de foco autoral.

    Mercuriales
    Pobres e belas.
    Já o francês Mercuriales, também em disputa na categoria principal do Olhar de Cinema, parece o material bruto (não editado) de uma campanha involuntária de moda com pretensão artístico-social.

    Aqui, também fica difícil descrever o plot central, mas por motivos opostos aos de Réalité. Primeiro longa do ex-estudante de filosofia Virgil Vernier, o filme começa com um imigrante negro a quem é explicado o ofício de segurança nas duas torres do edifício comercial que dá nome ao filme. Lá é onde uma outra estrangeira, vinda da Moldávia, conhece e estabelece uma relação com uma residente do subúrbio de Paris.

    Poderia ser um multiplot, poderia servir para denunciar a exploração contra o imigrante na Europa. Mas não é. Filmado na contracapa dos cartões postais, os quadros são uma sucessão de clichês estéticos de arroubos de violência, das garotas seminuas, o reflexo das duas nos espelhos, uma dancinha em volta da fogueira, um pôr-do-sol estilizado (se elas tivessem carro, certamente uma poria a cabeça para fora da janela para fechar os olhos enquanto o vento sacode a cabeleira).

    O imigrante negro retorna em momentos pontuais, sem nenhuma relação aparente com a história (história?) das duas, e às vezes são mostradas imagens da fachada das torres, como que para justificar um ponto em comum ou mesmo o título do filme. Uma forçação de barra até o último andar.



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