"Repugnante e desprezível": Lançado há 48 anos, é um dos filmes mais censurados da história do cinema

I Spit On Your Grave é um desses filmes capazes de deixar você com mal-estar. É duro, é explícito e não é, de forma alguma, adequado para pessoas que não tenham estômago forte.

Por Luiza Zauza

O cinema está repleto de obras radicais, incômodas e, às vezes, insuportáveis, capazes de abalar ou provocar uma rejeição visceral no espectador. E não por serem péssimas — essas mereceriam um artigo à parte —, mas por serem extremamente duras.

Nesse contexto, A Vingança de Jennifer, lançado há 48 anos e dirigido por Meir Zarchi, ocupa um lugar de destaque. Um filme que não é destinado a todos os públicos e que, para ser sincero, não é recomendável assistir sem estar preparado. Pois sim, esse filme é doloroso e pesado.

“Um saco de lixo repugnante, nojento, condenável e desprezível”

A Vingança de Jennifer, que no Brasil conhecemos pelo título, é, junto com The Last House on the Left, a obra fundadora do subgênero “rape and revenge” (sequestro e vingança), enquadrado no gênero gore. É, além disso, um dos filmes mais censurados da história.

O filme conta a história de Jennifer Hills, uma escritora de ficção que mora em Nova York e que, depois de sofrer um estupro coletivo e ser dada como morta, se vinga de seus agressores. A sinopse é forte, mas mais forte ainda é saber que as cenas mais explícitas — cujo conteúdo é fácil de imaginar — ocupam 30 dos 101 minutos de duração do filme. É pesado, muito pesado e extremamente explícito.

No Reino Unido, o filme foi proibido entre 1984 e 2001 e, quando a proibição foi finalmente revogada, apenas uma versão muito, muito editada foi autorizada. No Canadá, só pôde ser exibido a partir de 1998, enquanto na Irlanda sua comercialização continuou proibida, mesmo na reedição em DVD em 2010. Nos Estados Unidos, seu diretor foi forçado a cortar 17 minutos de filmagem para evitar a temida classificação X da MPAA.

Deja Vu (IIc)

Esse corte, evidentemente, não foi suficiente para evitar uma acirrada polêmica durante sua estreia nos cinemas. Seja o motivo que for, o filme foi rejeitado de forma contundente por grande parte do público. Roger Ebert, o conhecido crítico do The Chicago Sun-Times, escreveu uma crítica devastadora na qual classificava o filme de Zarchi como um “saco de lixo repugnante, doentio, condenável e desprezível”.

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Ebert não gostou nem um pouco; eu o ouvi falar sobre o filme e isso realmente me magoou”, confessou em uma entrevista concedida em 2020 a atriz protagonista do filme, Camille Keaton, que na época também era esposa de Meir Zarchi. A atriz acrescentou que o diretor a tranquilizou, explicando que um escândalo como esse não passava de a melhor campanha publicitária para o filme. Spoiler: ele não estava errado, porque, mesmo que não fosse nada demais, nosso cérebro adora um sensacionalismo.

Como era de se esperar, nenhuma produtora aceitou assumir a distribuição, o que obrigou o cineasta a arcar, do próprio bolso, com os custos de um primeiro lançamento sob o título original de Day of the Woman. Zarchi, que acabaria produzindo o remake de sua própria obra em 2010, concebeu o roteiro depois de ajudar, em 1974, uma mulher que vagava nua pelas ruas de Nova York após ter sido agredida sexualmente por dois indivíduos. O desprezo e a revitimização que testemunhou ao acompanhá-la até a delegacia o marcaram profundamente e inspiraram essa história.

O tema do pôster

Deja Vu (IIc)

O icônico pôster usado para divulgar o filme também esconde uma história. A imagem mostra uma mulher de costas, com as roupas rasgadas e o corpo coberto de hematomas, arranhões e marcas de golpes. Seu rosto não é visível, ao contrário da enorme faca de caça que ela segura na mão direita.

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Um dos rumores mais difundidos que circularam por Hollywood durante a década de 1980 afirmava que a modelo do pôster era, na verdade, uma foto de costas de Demi Moore, e não da atriz principal, Camille Keaton. Aquela sessão teria sido realizada anos antes de a carreira de Moore decolar definitivamente com filmes como St. Elmo's Fire.

O pôster em questão não fazia parte do lançamento original de 1978, mas sim de sua reedição em 1980. Foi nessa época, com o lançamento em formato doméstico em VHS, que o filme adotou o título I Spit on Your Grave e estreou um novo design promocional. Foi preciso esperar até 2019 para esclarecer as dúvidas: em seu livro de memórias, Inside Out, Demi Moore confirmou que era ela quem posava para a imagem polêmica.

Deja Vu (IIc)

A revelação foi confirmada por Charles Band, veterano produtor de filmes B e fundador da gravadora de vídeo Wizard Video (posteriormente transformada na Full Moon Features), que coordenou o relançamento para o mercado doméstico naquela época.

O mais curioso é que, em 1980, Band não tinha a menor ideia de que se tratava de Demi Moore, já que só se conheceram em 1982, durante as filmagens de O Parasita. Enquanto conversavam no escritório do produtor, Moore reconheceu o pôster de I Spit on Your Grave pendurado na parede e disse a ele: “Não conte a ninguém, mas a garota desse pôster sou eu...”.

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Um detalhe igualmente chocante é que Demi Moore foi vítima de um abuso sexual aos 15 anos. O agressor havia pago 500 dólares à mãe dela para poder cometer o crime. Aos 16 anos, Moore saiu de casa rumo a Los Angeles. Ela falsificou sua idade para posar nua em revistas japonesas antes de trilhar sua carreira como modelo profissional. Uma dessas primeiras sessões fotográficas foi justamente a que acabaria se tornando o lendário pôster de I Spit on Your Grave.

A Vingança de Jennifer
A Vingança de Jennifer
1h 40min
Criador(es): Meir Zarchi
Com Anthony Nichols
Usuários
3,2

Luiza Zauza
Jornalista em formação dividida entre a paixão pelo cinema e pela música. Como coração é grande, cabe desde comédias românticas até documentários musicais. Sempre em busca de encaixar sua devoção por Jorge Ben Jor e John Carpenter em alguma conversa.
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