"O que estamos fazendo é uma atração da Disneylândia": Assim George Lucas, Steven Spielberg e Lawrence Kasdan criaram Indiana Jones

Uma conversa fascinante que deu origem a Os Caçadores da Arca Perdida, um dos melhores filmes de aventura da história.

Se estruturar um longa-metragem que se mostre satisfatório sob múltiplos aspectos já é uma tarefa titânica — para não dizer quase impossível —, imagine moldar uma obra que se tornaria não apenas um clássico cult, mas a pedra fundamental de uma franquia cinematográfica estendida ao longo de quatro décadas e cinco filmes.

Esse foi o caso de Os Caçadores da Arca Perdida (1981), a aventura original da saga Indiana Jones, que chegou aos cinemas pela quinta e última vez com o notável Indiana Jones e a Relíquia do Destino, um título que preserva todas as marcas registradas que consagraram a franquia criada a seis mãos por George Lucas, Lawrence Kasdan e Steven Spielberg (sem esquecer a contribuição de Philip Kaufman).

Os Caçadores da Arca Perdida
Os Caçadores da Arca Perdida
Data de lançamento 21 de agosto de 1981 | 1h 56min
Criador(es): Steven Spielberg
Com Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman
Usuários
4,5
Assista agora no Paramount+

Mas como essa equipe conseguiu moldar o marco de 1981 estrelado por Harrison Ford? Além dos diversos documentários, extras e entrevistas disponíveis na internet e nas edições físicas da obra, existe um documento indispensável para compreender o processo de criação e o fluxo de trabalho criativo: a transcrição das reuniões entre Lucas, Kasdan e Spielberg, um registro simplesmente brilhante.

O personagem

Na extensa transcrição, digna de uma leitura aprofundada, encontram-se momentos decisivos para Os Caçadores da Arca Perdida, como a primeira descrição detalhada do protagonista feita por um George Lucas com ideias bastante claras.

George Lucas: A imagem mais icônica dele é com o visual de O Tesouro de Sierra Madre: calça cáqui, jaqueta de couro, chapéu fedora e um revólver em um coldre com aba, no estilo da Primeira Guerra Mundial. Ele está se embrenhando na selva com sua arma. O outro elemento que adicionamos, e que pode ser divertido, é um chicote. Essa é a verdadeira marca registrada dele. É no que ele é bom. Ele tem uma pistola e provavelmente é muito habilidoso com ela, mas, ao mesmo tempo, é excelente com o chicote. Na verdade, é mais um hobby do que qualquer outra coisa. Talvez ele venha de Montana, ou de algum lugar assim... existem caras excêntricos que adoram chicotes e os usam o tempo todo. É um artefato que não se vê há muito tempo.

Steven Spielberg: Você pode arrancar o cinto de alguém com um chicotaco e fazer a calça da pessoa cair.

Lucasfilm Ltd.

O nome

Por melhor que seja, um herói precisa de um nome, e houve debate em torno do assunto. A primeira opção não trazia "Jones" como sobrenome, mas sim "Smith".

Lawrence Kasdan: Você tem um nome para essa pessoa?

George Lucas: Tenho um para o nosso protagonista.

Steven Spielberg: Odeio isso, mas vá em frente.

George Lucas: Indiana Smith. Tem que ser algo único. É um personagem muito no estilo americano, nascido em Indiana.

Lawrence Kasdan: Como ela o chama, Indy?

George Lucas: Estava pensando nisso. Ou Jones. As pessoas o chamam de Jones.

*Nota: A ideia inicial era usar um sobrenome muito comum. Embora Lucas tenha pensado originalmente em "Smith", Spielberg não se convenceu com a escolha, levando os dois ao acordo final pelo sobrenome "Jones".

A fraqueza

Para criar um personagem com o qual o público se identifique e, acima de tudo, por quem tema durante a jornada, é indispensável estabelecer uma vulnerabilidade. O trio tinha plena consciência disso e definiu o maior medo de Indy: cobras.

Lawrence Kasdan: Seria interessante que, quando ele estiver sem o chicote, tenha uma fraqueza para nos preocuparmos. Só um pouco preocupados de que ele...

George Lucas: Era o que eu estava pensando. Por isso fiquei meio indeciso sobre incluir o chicote. Se não o tornarmos vulnerável...

Steven Spielberg: Do que ele tem medo? Ele precisa ter medo de alguma coisa.

George Lucas: Se não o deixarmos vulnerável, ele não enfrentará problemas reais. Vamos deixar essa ideia de lado por enquanto.

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O objeto multiúso

Indiana Jones não seria o mesmo ícone da cultura pop sem seu eterno chapéu fedora e, principalmente, sem o chicote utilizado das maneiras mais diversas. O uso do acessório gerou diálogos marcantes durante o planejamento:

George Lucas: Ele pode se balançar nas coisas... há tantas aplicações possíveis. Pensei nele carregando o chicote enrolado. É como uma espada samurai. Fica preso ali atrás e você nem nota, sem atrapalhar os movimentos. Fica à disposição para quando ele precisar.

Steven Spielberg: Em algum momento do filme, ele precisa usá-lo para puxar uma garota que está saindo da sala. Enrolá-la no chicote e fazê-la girar até cair nos braços dele. O recurso deve servir para mais coisas do que apenas salvar a própria pele.

George Lucas: Teremos que planejar essa cena. De certa forma, é importante que seja uma arma perigosa. Parece uma cobra enroscada atrás dele, e cada ataque representa uma ameaça real.

Lawrence Kasdan: Exceto pelo momento em que ele estiver sozinho com uma lata de cerveja e der um estalo de chicote só para trazê-la até a mão.

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O profissional multifacetado

Ao pensar na profissão de Indy, a palavra "arqueólogo" é a primeira que vem à mente. No entanto, George Lucas deixou claro que ele vai além disso, atuando quase como um trabalhador multifacetado no campo moral. Seria necessária tanta formação? Não necessariamente, mas Lucas achava divertido que outros se dirigissem a ele como "Doutor".

George Lucas: Ele é arqueólogo e antropólogo, com doutorado. É um doutor e professor universitário. A questão é que ele também é um tipo durão e intrometido que se envolveu nesse meio de obter antiguidades, virando um caçador de relíquias. Tornou-se uma profissão muito lucrativa, então, em vez de atuar como um arqueólogo convencional, ele virou uma espécie de arqueólogo fora da lei. Na prática, começou como um saqueador de tumbas de aluguel. Museus o contratavam para roubar peças de tumbas ou para localizá-las. Nos círculos da arqueologia, ele conhece todo mundo, atuando como um detetive particular saqueador de tumbas... um caçador de recompensas.

Acho que ele é bastante cínico em relação a tudo isso. Talvez pense que a maioria dos arqueólogos é uma farsa e que alguém acabará roubando aquelas coisas de qualquer jeito. É melhor que ele mesmo as roube e as entregue a um museu onde possam ser estudadas, fazendo um roubo limpo. Essa é a chave: ele sabe como entrar em uma tumba sem destruí-la. Sabe o que é valioso e não entra como um elefante em uma loja de cristais destruindo metade do patrimônio.

Lawrence Kasdan: É realmente necessário que ele tenha toda essa formação?

George Lucas: Não é absolutamente necessário. Só pensei que seria divertido se as pessoas pudessem chamá-lo de doutor.

Steven Spielberg: Eu gosto disso. O doutor com o chicote.

George Lucas: É uma justaposição exótica, especialmente na transição de cenários. A primeira sequência se passa na selva, mostrando-o em ação plena. Na sequência seguinte, ele já aparece de volta a Washington ou Nova York, no ambiente do museu, totalmente acadêmico, entregando o que recuperou. No restante do filme, ele retorna ao modo de combate com o chicote. Fica claro para o público que há mais camadas nele, o que justifica sua inteligência em eventos posteriores.

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Uma cena icônica inspirada em atrações da Disneylândia

Além do tema musical composto por John Williams, pensar em Indiana Jones remete imediatamente à cena clássica, parodiada e referenciada inúmeras vezes, na qual Indy é perseguido por uma pedra gigantesca após pegar o ídolo dourado. Foi assim que Steven Spielberg descreveu a sequência de abertura durante uma das sessões de brainstorming:

"Sabe o que poderia ser? Tenho uma grande ideia. Escute o som da areia... Quando ele entra na caverna, o caminho não é reto, é em declive. Pense nisso: ele pega o objeto e chega a um corredor. Há uma rocha de 20 metros perfeitamente encaixada para rolar pelo corredor na direção dele. É uma corrida: ele precisa correr mais rápido que a pedra. Depois, a rocha trava e bloqueia a entrada da caverna. Ninguém mais entra. Essa pedra tem o tamanho de uma casa."

Toda essa cena de ação inicial foi concebida de forma muito específica, lembrando, segundo o próprio Spielberg, o processo criativo de uma atração de parque temático.

Steven Spielberg: Eu adoraria ver os caras entrando e encontrando vários esqueletos, mas achatados como papelão, totalmente prensados. Assim eles percebem que algo ali vai esmagá-los. Eles não sabem a causa, mas sabem que, se pisarem no lugar errado, algo vai transformá-los em panqueca. A sequência deve parecer uma atração de terror, um brinquedo da Disneylândia. Assim que você entra na caverna, ouve barulhos sísmicos o tempo todo, além de estalactites pingando. Atravessar a caverna precisa ser uma experiência sonora. Não há nada mais aterrorizante do que esqueletos.

George Lucas: Também podemos colocar aranhas e cobras. O ambiente é muito escuro, e basta cortar para uma cobra deslizando pelo chão enquanto ele passa. Você nunca sabe quando haverá uma cobra enrolada na perna dele. Enquanto ele caminha no escuro, há tarântulas por todos os lados. Esse tipo de coisa deixa a dúvida no ar sobre o que vai acontecer.

Steven Spielberg: Esta é a primeira cena do filme. Ela deve garantir pelo menos quatro grandes sustos no público. Depois disso, a plateia não vai mais relaxar nem confiar no que vem a seguir.

George Lucas: Dá para usar aquele recurso do Tubarão, o truque da 'mão no ombro'. Não apenas com esqueletos antigos, mas com esqueletos mais recentes, ainda com a pele colada aos ossos, surgindo das sombras.

Steven Spielberg: Caindo nos braços dele! Um esqueleto sai do meio das teias de aranha e abraça o cara, que o solta suavemente no chão.

George Lucas: Isso no momento de maior tensão da cena. Vamos detalhar isso melhor depois. De qualquer forma, ele passa por uma série de situações assustadoras.

Steven Spielberg: O que estamos fazendo aqui, na verdade, é projetar uma atração da Disneylândia.

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Sobre a exposição da trama

Outro ponto abordado nas reuniões foi a condução das explicações da história (exposição). Como transmitir as informações necessárias sem soar expositivo ou cansativo? Lucas apresentou uma solução narrativa eficiente:

Lawrence Kasdan: O que ele sabe sobre a Arca da Aliança?

George Lucas: Ele não sabe nada a respeito. Ou pode saber só um pouco: 'Sim, já ouvi falar'. Fazemos de forma que ele não ignore o assunto por completo. Ele sabe mais sobre a Arca do que sobre a relação do objeto com Hitler. Podemos construir a cena com ele explicando parte do mito a um oficial do exército, ou demonstrando saber mais sobre o tema do que o próprio militar, que pode estar desinformado. Isso transforma o momento em uma boa cena dramática, pois, na essência, a mensagem é 'Esta é a sua missão'.

Lawrence Kasdan: O fato de ele saber mais do que os militares pode ser o ponto de virada da cena. De certa forma, é assim que ele se convence a aceitar o trabalho.

Indiana Jones e o Templo da Perdição
Indiana Jones e o Templo da Perdição
Data de lançamento 23 de maio de 1984 | 1h 58min
Criador(es): Steven Spielberg
Com Harrison Ford, Kate Capshaw, Ke Huy Quan
Usuários
4,4
Assista agora no Paramount+

Os trechos destacados representam apenas uma pequena fração do conteúdo presente na transcrição completa das reuniões, um material que revela os bastidores de um dos maiores clássicos do cinema de aventura.

A franquia Indiana Jones está disponível para streaming no Paramount+, exceto A Relíquia do Destino, que você encontra no catálogo do Disney+.

Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).
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