Podíamos dizer, e razões não faltam, que o mundo era um pouco melhor antes de tudo ir por água abaixo há cerca de sete anos. Em um já distante 2019, fazia um pouco menos de calor, a situação política era um pouco mais sustentável, a cesta básica era mais barata e a equipe do Marvel Studios anunciou o desenvolvimento de um longa-metragem solo do Blade, estrelado por ninguém menos que Mahershala Ali. Palavras de peso.
Fazendo um salto temporal para passar rapidamente por mais de cinco anos de trocas intermináveis de diretores e roteiristas, incertezas e a sensação de que o vampiro da Marvel nunca veria a luz do dia (apesar de sua capacidade biológica para isso), cortamos diretamente para o ano de 2026. O presente ano trouxe a crônica de uma morte anunciada: após sucessivos adiamentos e mudanças de rumo, Blade foi oficialmente cancelado.
Proximity Media / Warner Bros. Pictures
Ryan Coogler reforça a importância da liberdade criativa com Pecadores
A esperada notícia (não por ser desejada, mas porque já era prevista há tempos) veio pelas mãos do próprio Ali. O ator deixou claro que, pura e simplesmente, a Casa das Ideias não quis fazer o filme, aludindo de certo modo às declarações recentes de Kevin Feige, que afirmou se sentir "um perdedor" por não ter conseguido tirar a produção do papel. No entanto, indo além da troca de acusações, o caso Blade permite leituras muito interessantes.
Kevin Feige admite sua derrota mais dolorosa à frente da Marvel: "Me sinto um enorme perdedor e um fracasso total por isso"Essas análises nos levam, como não poderia deixar de ser, ao declínio criativo de um Universo Cinematográfico da Marvel que esqueceu quase por completo o significado da palavra "inovar". Tudo para abraçar fórmulas, pilotos automáticos e repetições eternas na tentativa de erguer uma Saga do Multiverso que acabou desmoronando sob o próprio peso. Trata-se de uma abordagem narrativa que deixou de lado a importância da assinatura que um cineasta imprime sobre sua obra.
Obviamente, a imensa maioria dos filmes do MCU carrega em seu DNA um componente industrial evidente, no qual a redução de riscos e libertades é a regra do jogo. Contudo, mesmo nesse cenário, pequenos milagres aconteceram graças à voz autoral de certos diretores. Dois dos exemplos mais louváveis, tanto no aspecto cinematográfico quanto no financeiro, são ambos os filmes de Pantera Negra, dirigidos por um Ryan Coogler totalmente à vontade e com o que pareceu ser plena autoridade narrativa.
Proximity Media / Warner Bros. Pictures
Guardadas as devidas proporções, o caso recente de Homem-Aranha: Um Novo Dia volta a demonstrar a importância de contar com um realizador de visão (mais ou menos) pessoal e engajado com a história, em vez de um mero diretor contratado para cumprir tabela, por mais eficiente que seja. Após seu trabalho em Shang-Chi, Destin Daniel Cretton injetou vida nova ao Homem-Aranha de Tom Holland. O resultado? Mais de 1 bilhão de dólares arrecadados em menos de uma semana e uma recepção bastante positiva por parte da crítica especializada.
As atitudes erráticas em torno de Blade nos fazem retornar a Coogler. Após seu afastamento temporário das adaptações de quadrinhos (ele retornará em Pantera Negra 3), o cineasta abraçou um modelo semi-independente que lhe deu total liberdade criativa para conceber o extraordinário Pecadores. O longa se consolidou como um triunfo absoluto, concedendo ao cinema de terror o prestígio que sempre lhe foi negado, resultando em quatro prêmios Oscar e 370 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias a partir de um orçamento de 90 milhões.
Tudo isso convida a refletir e teorizar que a única coisa capaz de ter salvo Blade do cancelamento no Marvel Studios teria sido a contratação de um cineasta com voz própria, convicção firme e, claro, carta branca para moldar o filme que desejasse. Infelizmente, o sistema de estúdios de Hollywood continua muito mais próximo da tirania dos executivos do que da autonomia de criativos condenados a se adaptar ou morrer.