O processo judicial que mudou o cinema há 94 anos: Eis por que os filmes incluem um aviso esclarecendo que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência
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A incrível história verídica apresentada no filme Rasputin e a Imperatriz que obrigou a indústria cinematográfica a esclarecer que o que é contado nos filmes é ficção.

Ao assistir a muitos filmes, é comum encontrar, nos créditos finais, um aviso informando que "os personagens e acontecimentos retratados nesta obra são fictícios e qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência". Mas você já parou para pensar por que essa mensagem existe? A origem dessa prática remonta a 1932, em um dos processos judiciais mais importantes da história de Hollywood.

O caso que mudou o cinema

Naquele ano estreava Rasputin e a Imperatriz, filme dirigido por Richard Boleslawski e Charles Brabin. Hoje pouco lembrado, o longa era considerado pela MGM uma grande aposta comercial.

A produção era inspirada na história real do assassinato de Grigori Rasputin, ocorrido em 1916 após uma conspiração liderada pelo aristocrata russo Félix Yusúpov. O episódio voltou a ganhar destaque anos depois em King's Man: A Origem, de Matthew Vaughn, embora com uma abordagem muito mais fantasiosa.

20th Century Studios

Segundo os relatos históricos, Yusúpov tentou matar Rasputin envenenando-o. Como o plano falhou, atirou contra ele. Em seguida, outro conspirador, Vladimir Purishkevich, disparou mais quatro vezes nas costas de Rasputin. Depois do crime, Yusúpov e sua esposa, Irina, deixaram a Rússia e passaram a viver no exílio.

Os erros que colocaram a MGM na Justiça

Ao adaptar essa história, a MGM decidiu tomar diversas liberdades criativas. O estúdio criou um personagem fictício chamado príncipe Chegodieff e sugeriu que Rasputin havia abusado sexualmente de sua esposa, Natasha.

Foi justamente aí que surgiu o problema. Durante a produção, o então chefe de produção da MGM, Irving Thalberg, chegou a ser alertado de que Natasha poderia facilmente ser associada a Irina Yusúpov, esposa de Félix na vida real — embora ela jamais tivesse conhecido Rasputin.

Warner Bros. Classic

A situação ficou ainda pior por causa de um aviso exibido no início do filme, informando que alguns personagens retratados ainda estavam vivos. Como os Yusúpov eram praticamente as únicas figuras centrais da história que continuavam vivas, tornou-se fácil concluir que o casal fictício havia sido inspirado neles.

O julgamento que mudou Hollywood

Na época, Félix e Irina viviam em Paris e enfrentavam dificuldades financeiras. Félix pouco pôde fazer além de protestar publicamente. Como havia admitido em suas memórias, publicadas em 1928, que participou do assassinato de Rasputin, ele próprio chegou a ser acusado pela filha do místico, mas a Justiça francesa arquivou o caso.

Já Irina encontrou uma brecha jurídica. Ela processou a MGM em Londres, onde as leis sobre difamação eram mais favoráveis. Segundo a ação, a personagem Natasha era claramente inspirada nela. Além da mesma idade, o filme reproduzia diversas características físicas e circunstâncias que levavam o público a fazer essa associação.

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O argumento convenceu o tribunal. Em 1933, após apenas uma hora de deliberação, o júri condenou a MGM por difamação. O estúdio foi obrigado a pagar 25 mil libras esterlinas — cerca de 125 mil dólares da época — no Reino Unido.

Posteriormente, também fechou um acordo extrajudicial nos Estados Unidos no valor de 250 mil dólares. Durante o julgamento, a própria Justiça destacou que todo o problema poderia ter sido evitado se o filme tivesse deixado claro, desde o início, que se tratava de uma obra de ficção.

O nascimento do aviso que aparece até hoje nos filmes

Depois da condenação, Rasputin e a Imperatriz foi retirado de circulação. Durante anos, o longa ficou indisponível e, quando voltou a ser exibido, as cenas mais problemáticas haviam sido cortadas, comprometendo até a continuidade da narrativa. Ainda hoje, parte desse material pode ser vista no trailer original do filme.

A partir desse episódio, Hollywood aprendeu a lição. Os estúdios passaram a incluir, de forma quase obrigatória, o aviso de que personagens e acontecimentos retratados são fictícios e que qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

A medida ajudou a reduzir riscos de processos milionários e permanece sendo utilizada até hoje — embora isso não tenha impedido que filmes continuem enfrentando disputas judiciais por outros motivos.

Iris Dias
Amante dos filmes de fantasia e da Beyonce. Está sempre disposta a trocar tudo por uma sitcom ou uma maratona de Game Of Thrones.
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