Nenhuma adaptação cinematográfica é, e nem deve ser, uma réplica exata da obra na qual ela se baseia. A doutoura Emily Wilson, classicista e especialista em Homero, concorda com isso, mas também afirma que Christopher Nolan fez um péssimo trabalho ao levar A Odisseia para as telas de cinema.
A PHD pela Universidade de Harvard e professora da Universidade da Pensilvânia é uma das acadêmicas mais reconhecidas na literatura, principalmente, por sua ambiciosa e renomada tradução da Ilíada e da Odisseia para o inglês. Tanto que o próprio Christopher Nolan utilizou a versão dela como referência para escrever o roteiro de The Odyssey.
Em um ensaio para a London Review of Books, Wilson teceu críticas tão árduas e fundamentadas ao filme do diretor de Oppenheimer que o site da revista chegou a cair por instabilidade graças ao número extraordinário de leitores simultâneos. Ao longo da resenha, Emily pontuou que reconhece o trabalho do cineasta e também agradeceu às menções que Nolan fez à sua pesquisa, mas não hesitou em detalhar tudo o que encontrou de errado no filme, tanto como adaptação como obra em si:
"Como se diz nas cerimônias de premiação, eu me senti honrada ao saber que Nolan leu pelo menos o primeiro verso da minha tradução de A Odisseia para o pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou a minha versão do primeiro verso do poema: 'Fale-me de um homem complicado'. Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro", escreveu Wilson.
Emily Wilson afirma que o problema da Odisseia de Nolan não foi a tradução moderna
Universal Pictures
Antes de sequer abrir o ensaio para lê-lo, muitas pessoas nas redes sociais acreditaram que as críticas da tradutora estariam direcionadas à escolha de Christopher Nolan de utilizar o inglês moderno e casual para escrever o roteiro. E, apesar de todos os pontos negativos levantados por ela, Emily Wilson disse que tais reações tratam-se de "indignação fabricada na internet" e que a abordagem dele foi razoável nesse sentido.
Para ela, as principais dissonâncias entre a epopeia homérica e o filme de Nolan residem nas cenas notáveis faltando, na má representação das personagens mulheres e das figuras mitológicas. Mas, sobretudo, ela revisita muitas vezes o maniqueísmo de valores preto-e-branco e a falta de nuance que — não só Christopher, mas também o cinema hollywoodiano — explicita para garantir que a clássica "jornada do herói" permaneça intacta e inquestionável:
"A visão do filme é confusa demais, e seus personagens, pouco desenvolvidos demais, para entregar o que ele meio que promete em termos de grandes ideias — embora ele seja muito bom em apresentar grandes explosões e grandes gigantes", argumentou Wilson.
Por fim, Emily reconheceu a importância do público geral estar discutindo uma obra clássica como a Odisseia, buscando o poema original e frequentando os cinemas graças à produção de Nolan.
A Odisseia, de Christopher Nolan, está em cartaz nos cinemas brasileiros.